Os juros precisam cair para que o apetite volte
O mercado brasileiro de abertura de capital atravessa um intervalo forçado: sem IPOs previstos para 2026, os banqueiros já projetam o horizonte de 2027 como o momento em que a fila voltará a andar — mas apenas se o próximo governo sinalizar disciplina fiscal suficiente para permitir a queda dos juros. É uma espera que revela, mais do que um ciclo de mercado, a dependência estrutural do país entre política econômica e confiança do investidor.
- O mercado de IPOs brasileiro está completamente paralisado em 2026, sem nenhuma operação prevista para o ano inteiro.
- Investidores estrangeiros migraram suas carteiras para inteligência artificial e tecnologia nos EUA, deixando mercados emergentes como o Brasil à margem do fluxo de capital.
- Follow-ons de empresas com caixa previsível — como Engie e Isa Energia no setor elétrico — sustentam o mercado de capitais enquanto os IPOs não retornam.
- O Bradesco BBI aposta em até dez aberturas de capital em 2027, começando por operações menores, entre 300 e 500 milhões de dólares.
- A retomada depende de um sinal claro do próximo governo federal sobre compromisso fiscal — sem ele, o apetite dos investidores permanece represado.
- Fusões, aquisições e block trades mantêm o mercado corporativo aquecido, especialmente em infraestrutura e commodities, enquanto as portas para novos IPOs seguem fechadas.
O mercado de IPOs no Brasil está congelado. Nenhuma abertura de capital está prevista para 2026 — mas os banqueiros já olham para 2027 com cautela otimista. O Bradesco BBI projeta até dez empresas abrindo o capital no ano que vem, com a primeira leva concentrada em operações menores, entre 300 e 500 milhões de dólares. André Moor, chefe do banco de investimento da instituição, é direto: tudo depende de a próxima administração federal sinalizar compromisso com a trajetória fiscal que permita aos juros caírem.
Enquanto isso, o que sustenta o mercado são as ofertas secundárias. Empresas com fluxo de caixa previsível, especialmente no setor elétrico, dominam o semestre. Engie e Isa Energia já anunciaram operações desse tipo, e o banco espera encerrar o ano com dez follow-ons — mais do que os nove de 2025. Block trades também ajudam fundos de private equity a sair de posições sem desestabilizar o mercado.
O grande entrave é o capital estrangeiro. Nos últimos meses, investidores internacionais reposicionaram suas carteiras em direção à inteligência artificial e tecnologia nos EUA, atraídos por operações como o IPO da SpaceX e as ofertas de Anthropic e OpenAI. Mercados emergentes ficaram de fora. Ainda assim, George Costa e Silva, chefe de renda variável do banco, aponta que o Brasil está subrepresentado nos fundos globais — com exposição de 4% a 5%, bem abaixo da média histórica de 7% a 8% —, o que indica espaço para retorno.
Fora do mercado acionário, fusões e aquisições seguem aquecidas em infraestrutura — data centers, portos, linhas de transmissão — e commodities. Grupos como Cosan e CSN também vendem ativos para reduzir dívidas, mantendo o mercado corporativo em movimento mesmo enquanto as portas para novas listagens permanecem fechadas.
O mercado de ofertas públicas iniciais no Brasil está congelado. Não há IPOs previstos para este ano. Mas os banqueiros já estão olhando para frente, e o que veem é promissor — se as condições certas se alinharem.
O Bradesco BBI, um dos principais coordenadores de operações de capital no país, projeta que até dez empresas possam abrir o capital em 2027, com a primeira onda concentrada em negócios menores, entre 300 e 500 milhões de dólares. André Moor, chefe do banco de investimento da instituição, deixa claro, porém, que tudo depende de um fator que está fora do controle dos banqueiros: a próxima administração federal precisa sinalizar um compromisso com a trajetória fiscal que permita aos juros caírem. Sem isso, o apetite dos investidores permanece contido.
Por enquanto, o que move o mercado são as ofertas secundárias — aquelas em que empresas já listadas vendem novas ações. Neste semestre, o foco está em companhias com fluxos de caixa previsíveis, particularmente no setor de utilidades, como geração e distribuição de energia elétrica. A Engie e a Isa Energia já anunciaram ofertas desse tipo, e o banco espera que o ano termine com dez operações secundárias no total, acima das nove realizadas em 2025. Além disso, há espaço para ofertas mais oportunísticas — empresas que estão valorizadas na bolsa e conseguem aproveitar o momento para captar recursos — e block trades, que permitem a fundos de private equity e outros investidores sair de posições sem desestabilizar o mercado.
O grande problema é que o fluxo de capital estrangeiro, que havia animado tanto os bancos quanto as empresas interessadas em abrir o capital, se inverteu nos últimos meses. Os investidores internacionais reposicionaram suas carteiras em busca de exposição a inteligência artificial e tecnologia nos Estados Unidos, acompanhando operações como o IPO da SpaceX e as ofertas em andamento de Antropic e OpenAI. Esse movimento deixou mercados emergentes, incluindo o Brasil, de fora da festa.
Mas há sinais de que essa tendência pode estar começando a mudar. George Costa e Silva, chefe da área de renda variável do Bradesco BBI, aponta que o Brasil está com uma exposição média de 4% a 5% nos fundos de mercados emergentes, bem abaixo da média histórica de 7% a 8%. Há espaço, portanto, para que capital estrangeiro retorne. O país também tem se beneficiado de saídas de recursos de outras bolsas emergentes, como a Coreia do Sul. Até junho deste ano, o saldo de investimento estrangeiro na bolsa brasileira era positivo em 33,4 bilhões de reais — uma queda significativa em relação ao pico de 70 bilhões acumulados em abril, mas ainda um número que indica movimento.
Fora do mercado de IPOs, as fusões e aquisições seguem aquecidas, especialmente em infraestrutura — data centers, portos, linhas de transmissão — e commodities, segundo Danilo Borges, que comanda a área de M&A do banco. Alguns grupos também estão vendendo ativos para reduzir o endividamento, como fizeram Cosan e CSN, o que mantém o mercado de transações corporativas ativo mesmo enquanto as portas para novas listagens permanecem fechadas.
Notable Quotes
Esperamos que em 2027 o cenário seja melhor, com ofertas de ações mais oportunísticas e block trades para dar saída a investidores— André Moor, chefe do banco de investimento do Bradesco BBI
O Brasil está com exposição abaixo da média histórica em fundos de mercados emergentes, criando espaço para retomada de capital estrangeiro— George Costa e Silva, chefe de renda variável do Bradesco BBI
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que os IPOs desapareceram do Brasil se há empresas interessadas em abrir o capital?
Os juros altos afastam os investidores. Quando a taxa básica está elevada, as pessoas preferem deixar dinheiro na renda fixa. Além disso, o cenário fiscal incerto faz os banqueiros e as empresas hesitarem em lançar operações grandes.
E por que o Bradesco BBI acredita que 2027 será diferente?
Porque esperam que o governo sinalize um compromisso real com o ajuste fiscal. Se isso acontecer, os juros caem, a renda fixa fica menos atrativa, e as pessoas voltam a procurar ações. É um efeito dominó.
Mas e o capital estrangeiro? Não é ele que financia a maioria dos IPOs?
Exatamente. E é aí que está o problema. Os estrangeiros fugiram para inteligência artificial e tecnologia nos Estados Unidos. O Brasil ficou para trás. Mas o banco vê sinais de que isso pode mudar — o Brasil está subexposicionado nos fundos de emergentes.
Que tipo de empresa consegue captar agora, em 2026?
As que já estão listadas e têm negócios previsíveis — utilities, principalmente. Elas conseguem fazer ofertas secundárias porque os investidores confiam no fluxo de caixa. Novas empresas? Muito difícil.
E as fusões e aquisições? Esse mercado está morto também?
Não, está aquecido. Infraestrutura e commodities seguem atraindo compradores. Além disso, algumas empresas estão vendendo ativos para reduzir dívidas, o que mantém as transações em movimento.