O IPO é o primeiro centro do SNS e um dos poucos na Europa com acesso a esta plataforma robótica de navegação GPS para diagnóstico de cancro do pulmão. A tecnologia permite aceder a nódulos pulmonares periféricos com precisão elevada, transformando a navegação da árvore brônquica de 2.400 quilómetros de extensão.
IPO realiza primeiro diagnóstico de cancro do pulmão com robô de broncoscopia
Este sonho tornou-se realidade
Porque é que este robô faz tanta diferença? Não era possível fazer diagnósticos antes?
Era possível, mas com limitações. Os médicos conseguiam navegar as vias aéreas principais, mas as ramificações mais finas — onde muitos tumores começam — eram difíceis de alcançar. Este robô é como ter um GPS dentro do pulmão.
E quanto ao paciente? Como é que a experiência dele muda?
Para ele, muda radicalmente. A tentativa anterior não tinha funcionado. Agora tem um diagnóstico confirmado em 40 minutos, sem cirurgia aberta. Sabe o que tem e pode começar o tratamento certo.
Disseste que no futuro pode tratar, não apenas diagnosticar. Como é que isso funciona?
Imagina que durante o exame diagnóstico encontras um tumor pequeno. Em vez de apenas recolheres uma amostra, podes introduzir uma sonda que aquece e destrói o tecido canceroso ali mesmo. Sem incisões, sem internamento prolongado.
Mas isto é apenas o primeiro caso. Quantos doentes podem beneficiar?
Essa é a questão. Portugal tem dezenas de milhares de casos de cancro do pulmão por ano. Mas este equipamento é caro e requer treino especializado. Por enquanto, apenas o IPO o tem. Outros centros vão querer um.
O que significa que isto é um privilégio?
Por enquanto, sim. Mas é assim que a medicina funciona — a tecnologia chega a um centro, prova o seu valor, e depois expande-se. Este primeiro diagnóstico é o começo dessa história.
O Pulso
- Primeiro diagnóstico de cancro do pulmão com robô ION em Portugal, realizado no IPO de Lisboa
- Apenas um número muito reduzido de centros europeus possui esta plataforma de broncoscopia robótica
- A árvore brônquica tem extensão estimada de 2.400 quilómetros de ramificações
- Primeiro paciente tinha cerca de 70 anos; exame demorou 40 minutos
- Financiamento através do Plano de Recuperação e Resiliência
O IPO é o primeiro centro do SNS e um dos poucos na Europa com acesso a esta plataforma robótica de navegação GPS para diagnóstico de cancro do pulmão. A tecnologia permite aceder a nódulos pulmonares periféricos com precisão elevada, transformando a navegação da árvore brônquica de 2.400 quilómetros de extensão.
O Instituto Português de Oncologia de Lisboa realizou o primeiro diagnóstico de cancro do pulmão com robô de broncoscopia ION, tecnologia de ponta que permite maior precisão em procedimentos minimamente invasivos.
O Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil acaba de fazer história clínica. No início de agosto, os seus médicos realizaram o primeiro diagnóstico de cancro do pulmão em Portugal usando um robô de broncoscopia — um equipamento tão sofisticado que apenas um número muito reduzido de centros europeus o possui. A máquina, chamada ION, representa um salto tecnológico significativo na forma como os pneumologistas conseguem aceder aos pulmões e recolher amostras de tecido para análise.
O que torna este robô especial é a sua capacidade de navegação. Enquanto a broncoscopia tradicional se baseava em mapas anatómicos e depois evoluiu para sistemas de orientação semelhantes a GPS, este novo equipamento oferece navegação robótica de precisão elevada. Para compreender a complexidade do que está em jogo: a árvore brônquica — o conjunto de vias aéreas que se ramificam dentro dos pulmões — tem uma extensão total estimada de cerca de 2.400 quilómetros quando se somam todas as suas ramificações até aos bronquíolos mais finos. O robô torna estas estruturas periféricas muito mais acessíveis, permitindo diagnósticos mais precoces através de procedimentos minimamente invasivos. É, numa analogia que o próprio IPO utiliza, semelhante à transição para a condução autónoma nos automóveis — sempre apoiada pelo conhecimento e experiência clínica das equipas médicas.
O primeiro paciente a beneficiar desta tecnologia tinha cerca de 70 anos e apresentava suspeita de cancro do pulmão. Ambrus Szantho, médico pneumologista do IPO, explicou que uma tentativa anterior de diagnóstico com biópsia guiada por TAC não tinha sido suficiente para chegar a uma conclusão. O robô ofereceu uma segunda oportunidade. Durante um exame que demorou cerca de 40 minutos, os médicos conseguiram recolher material que confirmou o diagnóstico, abrindo caminho para decidir qual o melhor tratamento para este doente.
Para Szantho, este momento representa o cumprimento de um desejo antigo. Quando o equipamento começou a aparecer na Europa há cerca de três anos, o IPO sonhava em tê-lo. "Sempre sonhámos ter um. E, finalmente, este sonho tornou-se realidade", afirmou o especialista. O investimento foi financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, e integra-se numa estratégia mais ampla que inclui também a renovação da plataforma de ecoendoscopia brônquica e a navegação eletromagnética, permitindo uma abordagem verdadeiramente integrada ao diagnóstico, estadiamento e caracterização das doenças pulmonares.
Mas o potencial desta tecnologia vai além do diagnóstico. No futuro, o IPO espera poder utilizar o mesmo sistema não apenas para realizar biópsias, mas também para remover lesões suspeitas e, eventualmente, tratar tumores. Szantho descreveu o plano: em casos selecionados, será possível introduzir uma sonda para tratamentos que "queimem" o nódulo, tratando a doença de forma menos invasiva. É um horizonte que aproxima a medicina pulmonar de procedimentos já bem estabelecidos noutras áreas — como as colonoscopias — onde a remoção de lesões durante o exame diagnóstico é prática comum. O que começou como um primeiro diagnóstico pode ser o primeiro passo de uma transformação muito mais ampla na forma como Portugal trata o cancro do pulmão.
Citações Notáveis
Sempre sonhámos ter um. E, finalmente, este sonho tornou-se realidade— Ambrus Szantho, médico pneumologista do IPO
No futuro, em casos selecionados, será possível introduzir uma sonda para tratamentos que queimem o nódulo e tratem a doença desta forma— Ambrus Szantho, médico pneumologista do IPO