Investimento direcionado em saúde pode evitar 739 mil mortes no Brasil até 2050

Sem implementação das medidas recomendadas, 739 mil mortes prematuras poderiam ser evitadas no Brasil até 2050, além de redução significativa de incapacidades e anos de vida perdidos por doenças.
Um débito de saúde enorme que funciona como um ralo na economia
Descrição do impacto crescente de anos vividos com problemas de saúde na América Latina sem intervenções adequadas.
Mark

O estudo fala em 739 mil mortes evitáveis. Como chegaram a esse número?

Mimi

Analisaram 300 intervenções de saúde baseadas em evidências científicas — vacinação, exames preventivos, tratamento de câncer, medicamentos para hipertensão. Depois projetaram o impacto de cada uma até 2050 se fossem implementadas adequadamente.

Luke

Mas isso assume que todas essas 300 intervenções seriam implementadas simultaneamente e com efetividade total. Na prática, qual é a taxa de adesão esperada?

Mark

E quanto ao retorno de 2,1 reais para cada real investido? Isso é comprovado ou é uma projeção?

Mimi

É uma projeção baseada em modelos econômicos. O ganho vem principalmente da produtividade — menos pessoas doentes, menos mortes prematuras, crianças que conseguem estudar melhor.

Luke

Certo, mas esses modelos econômicos dependem de premissas sobre crescimento, emprego, salários. Se a economia não crescer como esperado, o retorno cai.

Mark

A prevenção representa 59% do impacto no Brasil. Por que não é maior?

Mimi

Porque o estudo também inclui tratamentos — cirurgias no prazo adequado, novos medicamentos. Alguns problemas de saúde já instalados precisam de intervenção direta.

Luke

E dos 59% de prevenção, quanto já está sendo feito? O estudo não deixa claro qual é a lacuna real entre o que está implementado e o que seria necessário.

Mark

A América Latina investe apenas 3,7% do PIB em saúde. Isso é um número que deveria alarmar?

Mimi

Sim. Os países ricos investem 7,9%. Mas mais importante: menos de 5% do que a América Latina investe vai para prevenção, quando prevenção responde por 61% das medidas efetivas.

Luke

Verdade, mas aumentar investimento em saúde significa tirar recursos de educação, infraestrutura, segurança. O estudo não aborda o custo de oportunidade político.

Mark

O envelhecimento acelerado da população é um problema novo para a América Latina?

Mimi

Não é novo, mas é mais rápido que em países desenvolvidos. Lá levou mais tempo, permitindo adaptação. Aqui está acontecendo em décadas.

Luke

E o estudo assume que as políticas públicas conseguirão se adaptar nesse ritmo? Porque mudança de comportamento — reduzir obesidade, aumentar vacinação — depende de vontade política que pode não existir.

  • 739 mil mortes prematuras poderiam ser evitadas no Brasil até 2050
  • Cada dólar investido em saúde geraria R$2,10 de retorno ao PIB
  • Expectativa de vida poderia aumentar 5 anos, chegando a 85 anos
  • 59% do impacto viria de ações de prevenção no Brasil
  • América Latina investe apenas 3,7% do PIB em saúde contra 7,9% em países ricos

Prevenção representa 59% do impacto potencial no Brasil, com ações como taxação de álcool e tabaco, vacinação e exames preventivos sendo mais custo-efetivas que tratamentos. Expectativa de vida poderia aumentar 5 anos, chegando a 85 anos, com população vivendo 9 anos a mais em boa saúde se as intervenções recomendadas forem implementadas.

Estudo do McKinsey Health Institute aponta que investimentos direcionados em saúde podem prevenir 739 mil mortes prematuras no Brasil até 2050 e adicionar mais de R$1 trilhão ao PIB, com cada dólar investido gerando R$2,10 de retorno econômico.

Um estudo global apresentado esta semana aponta para uma oportunidade concreta: se o Brasil direcionasse seus investimentos em saúde de forma estratégica, poderia evitar 739 mil mortes prematuras até 2050 e adicionar mais de um trilhão de reais ao produto interno bruto. A pesquisa, realizada pelo McKinsey Health Institute, analisou cerca de 300 intervenções de saúde baseadas em evidências científicas para chegar a essa conclusão. O trabalho foi apresentado terça-feira em San José, Costa Rica, durante um encontro de jornalistas da América Latina promovido pela farmacêutica Roche.

O ponto central do estudo não é simplesmente gastar mais dinheiro em saúde, mas gastar melhor. Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do instituto, enfatiza que os recursos precisam ser direcionados para ações comprovadamente eficazes e custo-efetivas — aquelas que entregam o melhor resultado pelo menor custo necessário. "É crucial olhar para as evidências científicas e garantir que elas ocupem lugar central nos espaços onde as decisões são tomadas", afirmou. As 300 intervenções analisadas atacam 90 doenças e 27 fatores de risco que correspondem a 85% dos problemas de saúde que mais atingem a população mundial.

No cenário brasileiro especificamente, as projeções são significativas. A expectativa de vida poderia aumentar cinco anos, chegando a 85 anos, enquanto a população viveria em média 76 anos com boa saúde — nove anos a mais do que a estimativa atual. O retorno financeiro é igualmente expressivo: a cada dólar investido em ações efetivas de saúde, espera-se que 2,1 dólares sejam adicionados ao PIB. Esse ganho decorre principalmente do aumento da produtividade geral da população, considerando as quedas nas mortes dos mais jovens e a diminuição do adoecimento.

A pesquisa identifica que 59% do impacto potencial no Brasil viria de ações de prevenção, em nível populacional ou individual. Essas medidas incluem desde políticas fiscais que desestimulam o consumo de álcool, tabaco e alimentos ultraprocessados, até vacinação com altas coberturas e realização de exames preventivos em pelo menos 75% do público-alvo. Em nível individual, destacam-se ações de prevenção cardiovascular, como o monitoramento da pressão arterial, seguidas por medidas para combater a obesidade através de controle de peso e oferta de medicamentos para emagrecer. Entre as medidas terapêuticas que precisam ser fortalecidas, o tratamento adequado do câncer tem o maior potencial de impacto, seguido pela oferta de remédios psiquiátricos e melhorias nos equipamentos e insumos médicos.

Herbig ressalta que parte dessas ações produz resultados em longo prazo, mas algumas têm impacto imediato. "Por exemplo, garantir que as pessoas recebam diagnóstico precoce e tenham acesso aos tratamentos mais efetivos logo em seguida", exemplifica. Universalizar o acesso a remédios para hipertensão e controle do colesterol são medidas que podem reduzir o risco de doenças futuras com um custo baixo. O impacto das medidas também foi aferido por estimativas de redução dos anos perdidos por causa de diversas doenças. A maior queda deve ocorrer entre as doenças respiratórias crônicas e dos distúrbios de saúde mental, com redução de 46% até 2050. A expectativa de redução também é de pelo menos 40% entre as doenças cardiovasculares e aquelas causadas por deficiências nutricionais, enquanto as perdas por abuso de substância têm potencial de cair 39%, e por diabetes e doenças renais, 35%.

O contexto regional amplifica a urgência. Os países da América Latina investem, em média, apenas 3,7% de seus PIBs em saúde, bastante abaixo do nível de 7,9% dos países de alta renda. Dentre os investimentos feitos pelos países da região, menos de 5% são destinados a ações de prevenção, que respondem por 61% das medidas capazes de reduzir as mortes prematuras e o adoecimento. Herbig alerta que a região vive um momento desafiador, com envelhecimento tardio e acelerado da população, fenômeno que já ocorreu nos países desenvolvidos, mas ao longo de um intervalo de tempo maior, permitindo uma melhor adaptação. "Há muitas doenças associadas ao envelhecimento. Mas mudanças no estilo de vida estão acelerando o crescimento. A América Latina tem uma das maiores taxas de obesidade do mundo, resultando em aumento da diabetes", alerta.

A diferença crescente entre a expectativa de vida e de anos saudáveis está gerando o que Herbig chama de "um débito de saúde enorme que funciona como um ralo na nossa economia". Sem as intervenções recomendadas, o tempo vivido com problemas de saúde pode passar de 12 anos em 2050. O estudo também considera o impacto das mudanças climáticas, já que os extremos de temperatura são fatores de risco para algumas doenças e podem fazer com que outras piorem. No entanto, a adoção de determinadas medidas pode amortecer esses danos — o controle da qualidade do ar, por exemplo, afeta diretamente a incidência de doenças pulmonares tanto nos cenários atuais quanto nos futuros.

É crucial olhar para as evidências científicas e garantir que elas ocupem lugar central nos espaços onde as decisões são tomadas
— Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do McKinsey Health Institute
Os investimentos na saúde das pessoas não são gastos, eles também são bons para o crescimento do país, para a melhora da competitividade econômica
— Brad Herbig
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