Investimento direcionado em saúde pode evitar 739 mil mortes e gerar R$1 trilhão ao PIB

Sem intervenções recomendadas, 739 mil mortes prematuras podem ser evitadas no Brasil, além de redução significativa em anos vividos com problemas de saúde.
Débito de saúde enorme que funciona como um ralo na economia
Herbig descreve o crescimento de anos vividos com problemas de saúde na América Latina como um dreno econômico estrutural.
Mark

Então o estudo está dizendo que saúde é investimento, não gasto. Mas como você convence um governo que está apertado financeiramente a gastar mais com prevenção quando os resultados levam anos?

Mimi

Essa é a questão central. Herbig menciona que algumas ações têm impacto imediato — diagnóstico precoce, acesso a medicamentos para hipertensão. Mas é verdade que muita coisa funciona em longo prazo. O retorno de 2,1 dólares por dólar investido é real, mas não aparece no orçamento do ano que vem.

Luke

Espera. Esse número de 2,1 dólares — é uma projeção até 2050, certo? Baseada em modelos. Não é algo que você possa medir hoje. E o estudo analisou 300 intervenções, mas não está claro quanto de cada uma delas já está sendo feita no Brasil. Estamos falando de um cenário ideal ou de um cenário realista?

Mimi

Ótima observação. O estudo é claramente um cenário ideal — se todas essas intervenções fossem implementadas com alta cobertura. A realidade é que menos de 5% dos investimentos em saúde na América Latina vão para prevenção. Então há uma lacuna enorme entre o potencial e o que está acontecendo.

Mark

E quanto àquele número de 739 mil mortes evitáveis? De onde vem?

Mimi

Vem da análise de impacto de todas essas 300 intervenções aplicadas ao Brasil. Eles olharam para 90 doenças e 27 fatores de risco que causam 85% dos problemas de saúde globais. Mas novamente, é uma projeção.

Luke

Sim, e é importante notar que o estudo foi apresentado por uma farmacêutica — a Roche. Não há conflito de interesse necessariamente, mas vale mencionar que a indústria farmacêutica se beneficia quando medicamentos são universalizados. O estudo recomenda "incorporação progressiva de novos medicamentos mais avançados". Quem paga por isso?

Mimi

Ponto válido. Mas o estudo também enfatiza políticas fiscais — taxação de álcool e tabaco — que não beneficiam a indústria farmacêutica. E a maior parte do impacto vem de prevenção, não de medicamentos.

Mark

Então qual é o primeiro passo? Se você fosse um gestor de saúde pública no Brasil, por onde começaria?

Mimi

Herbig sugere começar com ações de baixo custo e impacto rápido: universalizar acesso a medicamentos para hipertensão e colesterol. Depois, políticas fiscais contra álcool, tabaco e ultraprocessados. E melhorar a cobertura de vacinação e exames preventivos.

Luke

Mas essas políticas fiscais são politicamente difíceis. Aumentar impostos sobre álcool e tabaco gera resistência. E mudanças no estilo de vida — dieta, exercício — dependem de educação e acesso a recursos que muitas pessoas não têm. O estudo não aborda essas barreiras.

Mimi

Verdade. O estudo é mais técnico do que político. Mostra o que é possível, não como fazer isso acontecer em um país real com restrições orçamentárias e resistência política.

Mark

Então o valor real do estudo é mais como um norte — um argumento de que investir em saúde não é um custo, é um retorno — do que um plano de ação?

Mimi

Exatamente. É um argumento para repensar prioridades. E para a América Latina especificamente, é um alerta: estamos envelhecendo rápido, com altas taxas de obesidade, e investindo muito pouco em prevenção. Se não mudarmos agora, o débito de saúde vai crescer.

  • 739 mil mortes prematuras podem ser evitadas no Brasil até 2050 com investimentos estratégicos
  • Cada dólar investido em saúde gera retorno de R$2,1 ao PIB
  • 59% do impacto vem de ações de prevenção, não de tratamentos
  • América Latina investe 3,7% do PIB em saúde, contra 7,9% dos países de alta renda
  • Expectativa de vida poderia aumentar 5 anos, chegando a 85 anos no Brasil

Cada dólar investido em ações efetivas de saúde gera retorno de R$2,1 ao PIB, principalmente pela maior produtividade populacional. 59% do impacto vem de ações de prevenção, incluindo políticas fiscais contra álcool, tabaco e alimentos ultraprocessados.

Estudo do McKinsey Health Institute mostra que investimentos estratégicos em saúde podem prevenir 739 mil mortes prematuras no Brasil e adicionar mais de R$1 trilhão ao PIB até 2050.

Um estudo apresentado esta semana em San José, na Costa Rica, traz números que redefinem como pensar sobre gastos com saúde. Não são despesas — são investimentos que devolvem mais do que custam. A pesquisa do McKinsey Health Institute's, que analisou cerca de 300 intervenções de saúde comprovadamente eficazes em todo o mundo, chegou a conclusões específicas sobre o Brasil: se o país direcionar seus recursos de forma estratégica, pode evitar 739 mil mortes prematuras até 2050 e adicionar mais de R$1 trilhão ao Produto Interno Bruto no mesmo período.

O ponto central não é simplesmente gastar mais. Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do instituto, deixa isso claro: recursos precisam ir para ações que entreguem o melhor resultado pelo menor custo. Isso significa olhar para as evidências científicas e colocá-las no centro das decisões. O estudo examinou intervenções que atacam 90 doenças e 27 fatores de risco — aqueles que correspondem a 85% dos problemas de saúde que mais afetam a população mundial. O conjunto inclui ações de prevenção em nível populacional, medidas individuais e tratamentos.

No Brasil especificamente, as projeções são otimistas. A expectativa de vida poderia aumentar em cinco anos, chegando a 85 anos. Mais importante ainda: as pessoas viveriam em média 76 anos com boa saúde, nove anos a mais do que a estimativa atual. Para cada dólar investido em ações efetivas de saúde, espera-se que 2,1 dólares sejam adicionados ao PIB — um retorno que decorre principalmente do aumento da produtividade geral da população, com quedas nas mortes entre os mais jovens e diminuição do adoecimento. Herbig aponta um detalhe frequentemente negligenciado: quando crianças não adoecem, é mais provável que avancem nos estudos. E quando pais não precisam se afastar do trabalho para cuidar de filhos doentes, a economia inteira ganha.

O estudo destaca que 59% do impacto total no Brasil viria de ações de prevenção, e a maioria delas não ocorre em unidades de saúde — reforçando o papel de diversas instituições. As políticas fiscais e financeiras têm o maior peso geral: taxação de álcool, tabaco e alimentos ultraprocessados para desestimular o consumo. Em nível individual, destacam-se ações de prevenção cardiovascular, como monitoramento da pressão arterial, seguidas por medidas contra obesidade — controle de peso com dieta e exercício, além de medicamentos para emagrecer. Entre as medidas terapêuticas que precisam ser fortalecidas, o tratamento adequado do câncer tem maior potencial de impacto, seguido pela oferta de remédios psiquiátricos e melhorias em equipamentos e insumos médicos.

Algumas ações produzem resultados imediatos. Garantir diagnóstico precoce e acesso rápido aos tratamentos mais efetivos reduz riscos no curto prazo. Universalizar o acesso a remédios para hipertensão e controle do colesterol são intervenções de baixo custo com impacto real. As reduções projetadas em anos perdidos por doenças são significativas: 46% nas doenças respiratórias crônicas e distúrbios de saúde mental até 2050; pelo menos 40% nas doenças cardiovasculares e deficiências nutricionais; 39% nas perdas por abuso de substância; 35% em diabetes e doenças renais.

O contexto regional, porém, revela um problema estrutural. Os países da América Latina investem em média 3,7% de seus PIBs em saúde — bastante abaixo dos 7,9% dos países de alta renda. Pior ainda: menos de 5% desses investimentos vão para prevenção, que responde por 61% das medidas capazes de reduzir mortes prematuras e adoecimento. A região enfrenta um desafio duplo: envelhecimento acelerado da população — um processo que levou décadas nos países desenvolvidos, mas está acontecendo rapidamente na América Latina — combinado com fatores de risco comportamentais em alta. A região tem uma das maiores taxas de obesidade do mundo, resultando em aumento de diabetes e outras doenças associadas ao envelhecimento.

Herbig descreve a situação como um "débito de saúde enorme que funciona como um ralo na economia". A expectativa de vida na América Latina continua subindo desde os anos 1950, mas o tempo vivido com problemas de saúde também sobe — podendo passar de 12 anos em 2050 sem as intervenções recomendadas. As projeções do estudo já consideram o impacto das mudanças climáticas, que afetam a incidência de doenças através de extremos de temperatura. Mas há espaço para amortecimento: o controle da qualidade do ar, por exemplo, afeta diretamente a incidência de doenças pulmonares hoje e nos cenários futuros. O que o estudo sugere é que o Brasil — e toda a região — tem uma janela de oportunidade para redirecionar recursos de forma que não apenas salve vidas, mas também fortaleça economias.

Não basta o aumento das cifras: também é preciso destinar os recursos para ações comprovadamente eficazes e custo-efetivas
— Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do McKinsey Health Institute's
Os investimentos nas saúde das pessoas não são gastos, eles também são bons para o crescimento do país, para a melhora da competitividade econômica
— Brad Herbig
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