A cada inverno, dezenas de milhares de crianças brasileiras são internadas não pelo frio em si, mas pela tempestade silenciosa que ele orquestra: vírus circulando em ambientes fechados, poeira acumulada em cobertores, e uma inflamação brônquica que aguarda apenas o gatilho certo. Em 2024, crianças e adolescentes responderam por quase três quartos das mais de 52 mil internações por asma no Brasil — um padrão sazonal que especialistas afirmam ser amplamente evitável. A ciência já oferece as ferramentas; o que falta é que o conhecimento chegue às famílias antes da próxima crise.
Inverno exige precaução: especialistas alertam sobre gatilhos de crises de asma
Uma asma bem controlada reduz drasticamente o risco de crises graves
Por que o inverno é tão perigoso para quem tem asma se o frio em si não é o problema?
Porque o frio força as pessoas a ficar em ambientes fechados, onde os vírus circulam com mais intensidade. É a aglomeração, não a temperatura, que cria o risco.
E se a asma está bem controlada, a pessoa fica protegida?
Exatamente. Uma asma bem controlada consegue lidar melhor com uma infecção viral. O problema é quando a inflamação já existe e um vírus adiciona mais inflamação aos brônquios — aí vem a crise.
Os números mostram que crianças sofrem muito mais. Por quê?
Crianças têm sistemas imunológicos ainda em desenvolvimento e passam mais tempo em ambientes com outras crianças — escolas, creches. Além disso, muitas vezes a asma delas não está bem controlada porque falta orientação às famílias.
Se alguém começa o tratamento preventivo, as internações realmente diminuem?
Sim. Quando o tratamento começa cedo e é mantido continuamente, as internações se tornam raras. O problema é que muitas famílias só recebem orientação depois da primeira crise grave.
E as vacinas? Fazem tanta diferença assim?
Fazem. Reduzem o risco de infecções graves que podem desencadear crises. Não é só influenza — pneumococo também importa. Cada infecção evitada é uma crise evitada.
Então o que uma família deveria fazer agora, no inverno?
Manter a casa arejada, evitar mofo, não acumular poeira. Vacinar. Manter o tratamento em dia. E ter um plano claro do que fazer se uma crise começar. Simples, mas exige orientação.
The Pulse
- Em julho de 2024, quase o dobro de crianças foi internado por asma em comparação a janeiro — um pico que se repete todo inverno e revela um padrão de sofrimento previsível e evitável.
- O verdadeiro gatilho não é o frio, mas a combinação de vírus respiratórios circulando intensamente em ambientes fechados e aglomerados, inflamando brônquios já sensibilizados.
- Muitas famílias saem de uma internação sem orientação sobre gatilhos domésticos — mofo, pelúcia, fumaça de cigarro, cobertores empoeirados — perpetuando o ciclo de crises.
- Especialistas convergem em três frentes de proteção: tratamento contínuo com medicação, vacinação anual contra influenza e outros vírus, e educação familiar sobre planos de ação durante crises.
- O Brasil carece de especialistas suficientes para absorver a demanda, e muitos casos de asma seguem sem diagnóstico preciso na atenção primária, agravando a vulnerabilidade das crianças.
A cada inverno, dezenas de milhares de crianças brasileiras são internadas não pelo frio em si, mas pela tempestade silenciosa que ele orquestra: vírus circulando em ambientes fechados, poeira acumulada em cobertores, e uma inflamação brônquica que aguarda apenas o gatilho certo. Em 2024, crianças e adolescentes responderam por quase três quartos das mais de 52 mil internações por asma no Brasil — um padrão sazonal que especialistas afirmam ser amplamente evitável. A ciência já oferece as ferramentas; o que falta é que o conhecimento chegue às famílias antes da próxima crise.
O inverno não agride o asmático pelo frio, mas pelo que ele traz consigo: janelas fechadas, cobertores guardados meses a fio, vírus respiratórios circulando com intensidade em ambientes aglomerados. Para crianças e adolescentes, esse cenário pode ser perigoso. Os dados do Datasus levantados pela organização Umane mostram que, em 2024, o Brasil registrou 52.087 internações por asma — e 73,7% delas envolveram pacientes de até 14 anos. Em julho, foram 4.034 internações nessa faixa etária, quase o dobro das 2.108 de janeiro.
Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, explica que o mecanismo central é viral: quando uma criança com asma mal controlada contrai um resfriado, a inflamação nos brônquios se intensifica e pode evoluir para crise grave. O tratamento, portanto, não pode ser intermitente — a maioria dos asmáticos precisa de medicação contínua, independentemente dos sintomas. Vacinas contra influenza, Covid-19 e vírus sincicial respiratório são aliadas fundamentais, pois reduzem o risco de infecções que disparam as crises.
Marcela Maciel, pneumologista da Umane, detalha os cuidados domésticos: casa arejada com sol, cortinas limpas, sem acúmulo de brinquedos no quarto, edredom no lugar de cobertores pesados, limpeza com pano úmido ou aspirador. E um alerta especial: o fumo passivo — de cigarro comum, eletrônico ou narguilé — é um dos piores gatilhos conhecidos. Maciel lamenta que muitas famílias deixem o hospital sem orientação adequada, perpetuando o ciclo de internações que poderia ser interrompido com prevenção simples.
Pedro Giavina-Bianchi, alergista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, reforça que o aglomeramento em ambientes fechados no inverno facilita a transmissão viral e, por consequência, multiplica as crises. Ele recomenda evitar contato com pessoas gripadas, manter a vacinação em dia — incluindo contra pneumococo — e não descartar o uso de máscaras como ferramenta preventiva. O quadro é desafiador, mas a conclusão dos especialistas é unânime: a maioria dessas internações é evitável. O obstáculo real é garantir que essa informação chegue às famílias que mais precisam dela.
O inverno traz mais do que frio para quem tem asma. Janelas fechadas, casacos guardados há meses acumulando poeira, cobertores que não veem luz solar — tudo isso pode desencadear crises respiratórias, especialmente em crianças e adolescentes. Mas o culpado real não é a temperatura. Segundo Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, o que agrava a asma no inverno é a circulação intensificada de vírus nas vias respiratórias. Quando uma pessoa com asma mal controlada pega um resfriado ou uma virose, a inflamação nos brônquios se intensifica e pode resultar em crise grave.
O Brasil tem cerca de 20 milhões de asmáticos, e a maioria deles sofre uma ou duas infecções respiratórias por ano. Os números do Datasus, levantados pela organização Umane, revelam a dimensão do problema: em 2024, o país registrou 52.087 internações por asma, e crianças e adolescentes de até 14 anos responderam por 73,7% desse total. Em julho de 2024, especificamente, houve 4.034 internações nessa faixa etária — quase o dobro das 2.108 contabilizadas em janeiro. A disparidade é gritante e aponta para um padrão sazonal bem definido.
Pizzichini enfatiza que o tratamento contínuo é essencial. A maioria das asmas precisa de medicação o ano inteiro, não apenas quando os sintomas aparecem. Além disso, as vacinas contra influenza, Covid-19 e vírus sincicial respiratório reduzem significativamente o risco de infecções graves que podem desencadear crises. "Quando a pessoa usa a vacina, diminui o risco de ter um agravamento da inflamação da asma, ter uma crise e ser hospitalizada", explica ele. O desafio, porém, é que o Brasil não tem especialistas suficientes para atender toda essa demanda, e muitas infecções respiratórias acabam sendo tratadas na atenção primária sem diagnóstico preciso de asma.
Marcela Maciel, pneumologista do Atendimento Multiassistencial de Saúde da Umane, oferece orientações práticas para reduzir o risco. A casa deve estar arejada, com sol batendo, sem mofo ou umidade. Cortinas devem estar limpas, brinquedos não devem se acumular no quarto da criança, e bichos de pelúcia devem ser evitados. No inverno, é melhor usar edredom em vez de cobertores pesados. Na limpeza, panos úmidos ou aspirador são preferíveis à vassoura, que espalha partículas no ar. Outro cuidado crucial é evitar a proximidade de fumantes — cigarro comum, eletrônico ou narguilé. O fumo passivo é um dos piores gatilhos para crises de asma.
Maciel lamenta que muitas famílias não recebem orientação adequada dos serviços de saúde logo após a primeira internação. Quando o tratamento preventivo começa cedo, novas internações se tornam raras. O problema é que falta educação sobre os gatilhos específicos de cada criança e sobre o plano de ação durante uma crise. "A família deve ser orientada sobre o plano de crise que deve fazer e, se esse plano não der certo, se for necessário, procurar o serviço médico", afirma.
Pedro Giavina-Bianchi, alergista e imunologista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, complementa a análise: no inverno, as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados e aglomerados, o que facilita a transmissão de vírus. Isso explica por que a prevalência de infecções virais aumenta nessa época e, consequentemente, também aumentam as crises de asma. Ele recomenda que asmáticos evitem contato com pessoas resfriadas ou gripadas e não deixem de se vacinar — não apenas contra influenza, mas também contra pneumococo. O distanciamento social e o uso de máscaras, estratégias que funcionaram durante a pandemia de Covid-19, continuam sendo ferramentas eficazes para prevenir a transmissão de vírus respiratórios como rinovírus e influenza.
O quadro que emerge é claro: o inverno não é perigoso por causa do frio, mas porque concentra múltiplos fatores de risco — vírus circulando, ambientes fechados, aglomeração. Crianças e adolescentes pagam o preço mais alto. A boa notícia é que a maioria dessas crises é evitável com tratamento contínuo, vacinação em dia e orientação familiar sobre gatilhos e planos de ação. O desafio agora é garantir que essa informação chegue às famílias que mais precisam dela.
Notable Quotes
Se a asma não está bem tratada, bem controlada, o resfriado ou a virose adicionam mais uma inflamação na via aérea da pessoa, nos brônquios, e ela pode ter uma crise— Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da SBPT
Quando a pessoa usa a vacina, diminui o risco de ter um agravamento da inflamação da asma, ter uma crise e ser hospitalizada— Emilio Pizzichini