O frio causa vasoconstrição, estreitando vasos sanguíneos e elevando pressão arterial, aumentando demanda de oxigênio do coração e risco cardiovascular. Pessoas com hipertensão, diabetes, colesterol elevado e doenças vasculares enfrentam maior risco; comportamentos invernais como sedentarismo agravam o quadro.
Inverno aumenta risco de infarto e AVC em até 30%; especialistas explicam mecanismos
Tempo é cérebro: cada minuto sem tratamento, o cérebro perde 1,9 milhão de neurônios
Por que o frio afeta especificamente o coração e o cérebro?
O frio força o corpo a fazer escolhas. Os vasos se contraem para guardar calor, a pressão sobe, o coração trabalha mais. Quem já tem as artérias comprometidas não consegue acompanhar essa demanda extra de oxigênio.
Então uma pessoa completamente saudável não corre risco?
Não. Uma pessoa saudável tolera bem essas mudanças fisiológicas. O risco real está em quem já tem hipertensão, diabetes, colesterol alto ou placas nas artérias. O frio é um gatilho, não a causa.
E por que o AVC aparece alguns dias depois, e não no dia mais frio?
Porque o corpo continua naquele estado de alerta. A pressão fica elevada, o sangue mais concentrado e propenso a coagular. Não é um evento único; é um período de vulnerabilidade prolongada.
Qual é o erro mais comum que as pessoas cometem no inverno?
Parar de se mover. Ficam em casa, comem mais gordura e sal, bebem menos água. Exatamente o oposto do que o corpo precisa nessa época. A medicação também: alguns param ou espaçam porque acham que não precisam mais.
Se alguém sentir um formigamento estranho, deve ir ao hospital?
Depende. Se for súbito, de um lado do corpo, acompanhado de fraqueza ou dificuldade para falar, sim. Não se deve esperar para ver se passa. Tempo é cérebro—literalmente.
Le Pouls
- Infartos podem aumentar até 30% no inverno; AVCs crescem cerca de 20%
- Vasoconstrição causa aumento de pressão arterial e demanda de oxigênio do coração
- Pico de AVCs ocorre alguns dias após queda de temperatura, não no dia mais frio
- 90% do risco de AVC está ligado a fatores controláveis: pressão, diabetes, colesterol, sedentarismo, tabagismo
O frio causa vasoconstrição, estreitando vasos sanguíneos e elevando pressão arterial, aumentando demanda de oxigênio do coração e risco cardiovascular. Pessoas com hipertensão, diabetes, colesterol elevado e doenças vasculares enfrentam maior risco; comportamentos invernais como sedentarismo agravam o quadro.
Especialistas alertam que temperaturas baixas no inverno podem aumentar casos de infarto em até 30% e AVC em 20%, especialmente em pessoas com doenças crônicas, devido à vasoconstrição e aumento da pressão arterial.
O inverno traz mais do que resfriados e gripes. Quando a temperatura cai, especialmente abaixo dos 14°C, os hospitais brasileiros registram um aumento preocupante em casos de infarto e acidente vascular cerebral. Segundo dados do Instituto Nacional de Cardiologia, infartos agudos do miocárdio podem subir até 30% nos meses mais frios, enquanto os AVCs crescem cerca de 20%. Para quem já convive com doenças crônicas, o inverno deixa de ser apenas uma estação incômoda e se torna um período de risco real.
O mecanismo por trás desse aumento é fisiológico e inevitável. Quando o corpo é exposto ao frio, ativa um sistema de proteção: os vasos sanguíneos se contraem, um processo chamado vasoconstrição, para preservar o calor interno. Mas essa contração tem um custo. O sangue encontra mais resistência para circular, a pressão arterial sobe, e o coração precisa trabalhar mais para bombear. Simultaneamente, o frio ativa o sistema nervoso simpático, liberando adrenalina, acelerando os batimentos cardíacos e aumentando a demanda de oxigênio do coração. Para pessoas saudáveis, essas adaptações são toleráveis. Mas para quem já tem placas de gordura nas artérias coronárias, esse desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio pode ser fatal.
O Dr. Murilo Meneses, cardiologista e professor de pós-graduação em Cardiologia da Afya Goiânia, explica que o frio também favorece a inflamação e a formação de coágulos, aumentando o risco de ruptura das placas de gordura nas artérias. Além das mudanças fisiológicas, o comportamento muda no inverno de forma prejudicial: as pessoas se movem menos, comem mais alimentos gordurosos e salgados, e bebem menos água. Essa combinação de fatores fisiológicos e comportamentais cria um cenário perigoso para o sistema cardiovascular.
O AVC, porém, segue uma lógica ligeiramente diferente. Segundo o Dr. Normando Guedes, neurocirurgião e professor da Afya Brasília, o frio isoladamente não causa um acidente vascular cerebral em uma pessoa saudável. O frio funciona como um gatilho, ativando riscos que já estavam presentes. Pessoas com hipertensão descontrolada, diabetes, idade avançada ou doenças nas artérias são as mais vulneráveis. A vasoconstrição aumenta a pressão arterial, o sangue fica mais concentrado e propenso a coagular, e essa combinação eleva significativamente o risco de um vaso cerebral entupir ou se romper. Estudos mostram que o pico de AVCs costuma ocorrer alguns dias após uma queda de temperatura, não necessariamente no dia mais frio.
Para os grupos de risco—hipertensos, diabéticos, idosos e portadores de doenças vasculares—o inverno exige vigilância redobrada. Não interromper a medicação, manter-se hidratado mesmo sem sede, continuar praticando atividade física ainda que dentro de casa, evitar mudanças bruscas de temperatura e manter as vacinas em dia contra gripe e pneumonia são medidas essenciais. O inverno é previsível, e essa previsibilidade oferece a oportunidade de se preparar.
Mas a prevenção é apenas metade da história. O reconhecimento rápido dos sintomas pode ser a diferença entre a vida e a morte, entre a recuperação completa e a incapacidade permanente. No AVC, existe uma máxima entre os médicos: tempo é cérebro. A cada minuto sem tratamento, o cérebro perde aproximadamente 1,9 milhão de neurônios. Os sinais de alerta incluem fraqueza ou dormência súbita de um lado do corpo, dificuldade para falar, perda ou embaçamento da visão, tontura com perda de equilíbrio e dor de cabeça muito intensa e diferente do habitual. No infarto, os sinais são dor ou pressão no peito, falta de ar, suor intenso, náuseas e desconforto que pode irradiar para os braços, costas, pescoço ou mandíbula.
Quando esses sintomas aparecem, não há tempo a perder. Anotar o horário exato em que começaram e acionar imediatamente o SAMU é crucial. O atendimento pré-hospitalar já inicia o tratamento durante o transporte. Dr. Normando reforça que a maioria dos casos de AVC pode ser evitada: o controle da pressão arterial, diabetes, colesterol, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool responde por cerca de 90% do risco. O frio apenas aumenta a exigência do organismo de quem já tem esses fatores descontrolados. A boa notícia é que conhecer os sinais de alerta, manter as doenças crônicas sob controle rigoroso e buscar atendimento rapidamente pode salvar vidas e preservar o cérebro.
Citations marquantes
O frio faz com que o coração precise trabalhar mais. A vasoconstrição aumenta a pressão arterial e obriga o músculo cardíaco a fazer mais força para bombear o sangue.— Dr. Murilo Meneses, cardiologista
O frio, por si só, não causa AVC. Uma pessoa saudável não vai sofrer um AVC apenas porque a temperatura caiu. O problema surge quando o frio se soma a fatores que já estavam presentes.— Dr. Normando Guedes, neurocirurgião