Instituto de Mendonça recebeu R$ 10,7 mi em contratos públicos sem licitação

Cedeu suas cotas sem receber qualquer compensação financeira
Mendonça deixou a sociedade após revelação de encontro com banqueiro sob investigação que ele relatava.
Mark

Por que a saída de Mendonça da sociedade agora, depois de dois anos, importa tanto?

Mimi

Porque aconteceu logo após a revelação pública de um encontro entre ele e um banqueiro cujo caso ele estava julgando. Parece uma resposta a uma crise de confiança.

Luke

Mas precisamos ser precisos: Mendonça não era relator do caso de Vorcaro quando se encontraram. Isso muda a natureza da questão legal?

Mimi

Muda, sim. Mas a percepção de conflito permanece. E o timing — sair da sociedade exatamente quando o encontro vira público — levanta perguntas.

Mark

Os contratos do instituto foram todos irregulares?

Mimi

Não necessariamente. Dispensa e inexigibilidade de licitação são legais. O instituto argumenta que cursos especializados não podem ser comparados em preço.

Luke

Mas quem decide se a contratação é apropriada? O órgão público. E muitos desses órgãos têm ligações políticas com Mendonça ou com seu círculo.

Mark

Quanto desse dinheiro foi realmente gasto?

Mimi

Ótima pergunta. A Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo, que assinou contrato de R$ 1,63 milhão, disse que ainda não executou nada e não pagou.

Luke

Então temos contratos assinados mas não executados. Isso importa porque muda a narrativa de enriquecimento direto.

Mimi

Verdade. Mas o crescimento dos contratos — de R$ 400 mil no primeiro ano para R$ 6,2 milhões em 2026 — é difícil de ignorar.

Mark

E Mendonça lucrou pessoalmente?

Mimi

Ele nega. O instituto confirmou que não houve distribuição de lucros ou dividendos durante os dois anos.

Luke

Mas ele tinha participação acionária. Mesmo sem lucros distribuídos, o valor da empresa poderia ter aumentado. Não sabemos o valor real dessa participação.

  • Instituto Iter recebeu R$ 10,7 milhões em 28 contratos públicos sem licitação em dois anos
  • Mendonça e esposa eram cotistas; ele deixou a sociedade em 2 de setembro de 2026
  • Maior contrato: R$ 1,635 milhão com Tribunal de Justiça do Amazonas em julho de 2026
  • Encontro entre Mendonça e banqueiro Daniel Vorcaro em início de 2025 na sede do instituto

O Instituto Iter, fundado por Mendonça e do qual ele e sua esposa eram cotistas, conquistou R$ 10,7 milhões em contratos públicos sem licitação em pouco mais de dois anos. Mendonça se encontrou com banqueiro Daniel Vorcaro em 2025 na sede do instituto, enquanto era relator de caso investigando crimes financeiros do banqueiro.

Instituto Iter, fundado pelo ministro André Mendonça, obteve 28 contratos públicos totalizando R$ 10,7 milhões em dois anos, todos por dispensa de licitação. Mendonça deixou a sociedade após revelação de encontro com banqueiro sob investigação.

O Instituto Iter, fundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, recebeu R$ 10,7 milhões em contratos com órgãos públicos ao longo de pouco mais de dois anos. Todos os 28 contratos identificados foram firmados por dispensa ou inexigibilidade de licitação — modalidades legais de contratação direta que não exigem processo competitivo. A instituição começou a operar em novembro de 2023, quase dois anos após Mendonça assumir sua cadeira na Corte por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mendonça e sua esposa, Janey Nagliatti de Mendonça, eram cotistas da entidade, embora o ministro não aparecesse nominalmente como sócio direto nos registros formais. A mulher atuou como representante do instituto.

O crescimento dos contratos foi acelerado. No primeiro ano de funcionamento, entre novembro de 2023 e novembro de 2024, o instituto fechou cinco contratos totalizando R$ 400 mil. Em 2025, o salto foi significativo: 13 contratos somaram R$ 4,1 milhões. Já em 2026, até 3 de setembro, dez contratos chegaram a R$ 6,2 milhões — valor superior à soma dos dois anos anteriores. Os maiores contratos vieram em 2026. Em julho, o Tribunal de Justiça do Amazonas contratou o instituto por R$ 1,635 milhão para um MBA em Jurisdição Constitucional. Em maio, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo assinou contrato de R$ 1,630 milhão para capacitação de funcionários. Em agosto, o Conselho Federal de Contabilidade pagou R$ 1,382 milhão por uma "imersão corporativa" com hospedagem no Grande Hotel Campos do Jordão.

Os clientes do instituto incluem governos estaduais como São Paulo, Rio de Janeiro e Piauí, prefeituras municipais, conselhos de classe e órgãos do Judiciário. A instituição oferecia cursos nas áreas de gestão administrativa, segurança pública, direito e administração pública. Entre os sócios do Instituto Iter estavam pessoas que trabalharam com Mendonça no governo Bolsonaro ou que atuam ao seu lado no STF e no Tribunal Superior Eleitoral. Victor Godoy Veiga, ex-ministro da Educação, é atualmente o único sócio registrado junto à Receita Federal e aparece como CEO. Tércio Issami Tokano, ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça durante a gestão de Mendonça, é assessor-chefe do gabinete do ministro no TSE. Rodrigo Sorrenti Hauer Vieira é chefe-de-gabinete de Mendonça no STF. Danilo Dupas Ribeiro foi presidente do Inep.

Em 3 de setembro de 2026, Mendonça divulgou nota informando que havia deixado a sociedade na véspera. Ele e sua esposa cederam suas cotas sem receber qualquer compensação financeira. O instituto confirmou que, ao longo de dois anos de atividade, não houve distribuição de lucros ou dividendos. A saída ocorreu após a revelação de um encontro entre Mendonça e o banqueiro Daniel Vorcaro no início de 2025, na sede do instituto em São Paulo. O encontro foi divulgado pelo jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter na quarta-feira, 2 de setembro. A questão central é que Mendonça é relator de um caso no STF que investiga supostos crimes financeiros praticados por Vorcaro. Embora o encontro tenha ocorrido quando Mendonça ainda não era o relator do processo, a coincidência levantou questões sobre conflito de interesses.

Em nota, Mendonça admitiu o encontro com Vorcaro e um de seus advogados, afirmando que o tema foi uma ação que tramitava no STF sobre pagamento de precatórios de interesse do banco. Não há registros de que o instituto tenha sido beneficiado por contratos vinculados às empresas de Vorcaro. A divulgação do encontro ocorreu em contexto de crise institucional no STF. Mendonça havia liberado o sigilo de um relatório que apontava supostas mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo o relatório, Vorcaro pediu orientação a Moraes sobre deixar o país um dia antes de ser preso em novembro de 2025. O documento também indicava que Moraes teria editado um contrato de R$ 129 milhões enviado pela equipe de Vorcaro à sua esposa. A retirada do sigilo abriu uma crise porque Mendonça pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que um pedido de investigação sobre Moraes fosse analisado pelo plenário.

A crise ganhou contornos políticos. Moraes ficou conhecido por relatar o processo que terminou com a condenação do ex-presidente Bolsonaro e conquistou apoio de políticos de esquerda, tornando-se alvo da direita. Mendonça, evangélico e indicado por Bolsonaro, é visto à esquerda como alinhado ao bolsonarismo. Até o momento, Moraes não se manifestou sobre o relatório. O Instituto Iter justificou seus regimes de contratação argumentando que cursos e programas de formação são serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual, permitindo contratação direta por inexigibilidade de licitação conforme a Lei 14.133/2021. O instituto afirmou que cada programa tem concepção pedagógica, conteúdo e corpo docente próprios, tornando impossível submeter à disputa de preço aquilo que não é comparável. A Secretaria de Educação de São Paulo informou que o contrato com a FDE ainda não foi executado e que recursos não foram pagos. Órgãos como o Tribunal de Justiça do Amazonas e o Conselho Federal de Contabilidade não responderam aos questionamentos da BBC News Brasil.

Ao longo dos dois anos de atividade do Instituto Iter, não houve qualquer distribuição de lucros ou dividendos
— Instituto Iter, em nota
Cursos e programas de formação são serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual, hipótese em que a Lei nº 14.133/2021 admite a contratação direta por inexigibilidade de licitação
— Instituto Iter, justificando modalidade de contratação
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