A seis dias de um plebiscito histórico, o Chile se encontrava diante de uma escolha que transcendia o texto jurídico: manter a Constituição herdada da ditadura de Pinochet ou abraçar uma nova carta que prometia refundar o pacto social do país. As pesquisas favoreciam a rejeição, mas uma fatia expressiva de indecisos mantinha o resultado em aberto, lembrando que as grandes transformações raramente se anunciam com clareza antes de acontecer.
Indecisos decidem futuro da nova Constituição chilena em plebiscito histórico
deixar para trás a Constituição do tirano
Por que um texto constitucional que promete mais direitos sociais está perdendo nas pesquisas?
Porque direitos custam dinheiro, e o Chile estava em crise econômica. Mas também porque o texto foi escrito em um momento de turbulência, não de reflexão calma. As pessoas associam a origem dele ao caos, não à esperança.
Os indecisos são realmente capazes de mudar o resultado?
Sim. Dez a quinze por cento é suficiente para virar uma eleição onde a margem é de apenas quatro a doze pontos. Mas mais importante: a taxa de comparecimento importa. Voto obrigatório significa que até quem não se importa vai votar.
O que torna essa Constituição tão polêmica?
Três coisas principalmente. Reconhecer povos indígenas como nações dentro do Estado. Criar um sistema de justiça especial para eles. E permitir aborto. Para a direita, isso não é reforma — é revolução.
E se for rejeitada?
Então Pinochet vence novamente, de forma indireta. A Constituição dele continua valendo. Mas há pressão para negociar um novo texto que seja menos radical.
Boric parece estar apostando em ambos os lados.
Exatamente. Ele sabe que está fraco politicamente. Então diz que vai unir o país independentemente do resultado. É uma forma de não perder credibilidade em nenhuma direção.
Der Puls
- O 'Rejeito' liderava com cerca de 56% das intenções de voto, mas entre 10% e 15% dos eleitores permaneciam indecisos, tornando o desfecho genuinamente imprevisível.
- A proposta de plurinacionalidade indígena, um Conselho de Justiça especial para povos originários e o direito ao aborto concentravam as maiores resistências, mesmo entre eleitores simpáticos à ideia de mudança.
- A campanha pelo 'Rejeito' operava com eficácia inédita, defendendo o status quo e explorando o desgaste econômico e político do momento — uma estratégia que analistas descreviam como surpreendentemente coesa para a direita chilena.
- O presidente Boric adotava postura conciliadora, sinalizando que, qualquer que fosse o resultado, buscaria unidade nacional e abriria espaço para um novo acordo constitucional.
- Nas ruas de Santiago, manifestações de ambos os lados revelavam que a disputa era também sobre memória, identidade e o tipo de nação que o Chile desejava ser.
A seis dias de um plebiscito histórico, o Chile se encontrava diante de uma escolha que transcendia o texto jurídico: manter a Constituição herdada da ditadura de Pinochet ou abraçar uma nova carta que prometia refundar o pacto social do país. As pesquisas favoreciam a rejeição, mas uma fatia expressiva de indecisos mantinha o resultado em aberto, lembrando que as grandes transformações raramente se anunciam com clareza antes de acontecer.
Faltavam seis dias para o Chile responder uma pergunta de consequências profundas: aprovar ou rejeitar uma nova Constituição que substituiria a carta herdada da ditadura de Augusto Pinochet. Pela primeira vez desde 2012, o voto seria obrigatório, convocando mais de 15 milhões de cidadãos às urnas num domingo que muitos já chamavam de histórico.
As pesquisas favoreciam o 'Rejeito', com índices próximos a 56% e vantagem de até doze pontos sobre o 'Aprovo'. Mas entre dez e quinze por cento dos eleitores ainda não haviam decidido — e era nesse espaço de incerteza que ambos os lados travavam sua batalha final.
O novo texto propunha um Estado de bem-estar social em contraste com o modelo enxuto da carta de Pinochet. As propostas mais polêmicas — plurinacionalidade indígena, sistema de justiça especial para povos originários e direito ao aborto — concentravam boa parte da resistência. A Assembleia Constituinte que redigiu o documento ao longo de um ano havia sido eleita com paridade de gênero e assentos reservados para indígenas, o que seus defensores viam como legitimidade democrática e seus críticos associavam ao clima de crise que a originou.
Duas vozes capturavam bem a divisão do país. Luz Galarce, professora, rejeitava o texto por considerá-lo filho de um momento de turbulência, não de deliberação serena. Esteban Córdoba, artista visual, via na nova Constituição uma janela — ainda não uma porta — para que o Chile se tornasse uma nação desenvolvida.
Analistas apontavam que a vantagem do 'não' se devia menos à rejeição dos direitos propostos e mais a problemas específicos na organização do Estado. O resultado final, advertiam, dependeria tanto da taxa de comparecimento quanto do perfil de quem efetivamente votaria.
O presidente Gabriel Boric, com menos de seis meses de mandato, apostava em um Chile unido independentemente do resultado, sinalizando abertura para um novo processo constitucional caso o texto fosse rejeitado. Do outro lado, a porta-voz dos movimentos sociais que levaram milhares às ruas ressaltava o peso simbólico do momento: a possibilidade de deixar para trás, de uma vez, a Constituição do tirano. O Chile estava à beira de uma decisão que moldaria não apenas seu presente político, mas as possibilidades de seu futuro.
Faltavam seis dias para o Chile decidir seu futuro constitucional, e as ruas de Santiago fervilhavam de manifestações. No domingo seguinte, mais de 15 milhões de chilenos seriam obrigados a comparecer às urnas — a primeira votação com voto obrigatório desde 2012 — para responder uma pergunta simples com consequências profundas: aprovar ou rejeitar uma nova Constituição que substituiria a carta herdada da ditadura de Augusto Pinochet.
As pesquisas pintavam um quadro desfavorável aos que queriam mudança. O "Rejeito" liderava com índices próximos a 56%, mantendo vantagem de quatro a doze pontos percentuais sobre o "Aprovo". Mas havia uma brecha significativa no retrato eleitoral: entre dez e quinze por cento dos votantes ainda não haviam decidido. Nesse espaço de incerteza, ambos os lados travavam uma batalha final pelos indecisos.
A nova Constituição representava uma transformação radical. Onde a carta de Pinochet priorizava o Estado reduzido e o investimento privado, o novo texto propunha um Estado de bem-estar social repleto de direitos fundamentais. Mas as propostas mais polêmicas geravam resistência: o reconhecimento da plurinacionalidade indígena, a criação de um Conselho de Justiça com sistema especial para povos originários, e o direito ao aborto. O texto havia sido redigido ao longo de um ano por uma Assembleia Constituinte eleita democraticamente, com paridade de gênero e assentos reservados para indígenas — um processo que seus defensores viam como legitimador, mas que seus críticos associavam aos momentos de crise que o geraram.
Luz Galarce, professora, explicava seu voto pela rejeição: a ideia de uma nova Constituição havia nascido em um momento de grande turbulência nacional, não de deliberação objetiva. Esteban Córdoba, artista visual de quarenta anos, via a questão de forma oposta. Para ele, o novo texto abria uma janela — ainda não uma porta — para que o Chile se tornasse uma nação desenvolvida. Essas duas perspectivas capturavam a divisão que atravessava o país.
Os analistas apontavam múltiplos fatores para a vantagem do "não". A economia desacelerava. O ambiente político permanecia tenso. E a campanha dos opositores havia sido particularmente eficaz — uma estratégia de direita inédita, segundo a cientista política Claudia Heiss, que se resumia basicamente à defesa do status quo e à manutenção da Constituição de Pinochet. O cientista político Marcelo Mella, da Universidade de Santiago, oferecia uma análise mais matizada: o avanço da rejeição devia-se principalmente a "problemas em determinados conteúdos" relativos à organização do Estado, não necessariamente aos direitos que o texto estabelecia. O resultado final, alertava, dependeria tanto da taxa de comparecimento quanto de quem efetivamente votaria.
O presidente Gabriel Boric, com menos de seis meses de mandato, adotava um tom conciliador. Independentemente de vencer o "Aprovo" ou o "Rejeito", dizia, ele apostaria em um Chile unido. Boric acreditava que havia espaço para negociação e consenso em torno de outro texto constitucional — uma posição que encontrava eco até em setores da direita. Se a rejeição prevalecesse, como a maioria esperava, os que fossem responsáveis por uma nova reforma constitucional teriam de chegar a um acordo. Se o novo texto fosse aprovado, segundo o acadêmico Rodrigo Espinoza, estabeleceria as diretrizes do constitucionalismo em nível global, pelo menos no Ocidente.
Karina Nohales, porta-voz de uma manifestação convocada por movimentos sociais que levou milhares às ruas, ressaltava o significado histórico do momento: a possibilidade de deixar para trás a Constituição do tirano. Carol Bown, direitista e ex-membro da Convenção Constitucional, era mais direta: se o "Rejeito" vencesse, como ela acreditava que aconteceria, os responsáveis pela próxima reforma teriam de finalmente entrar em acordo, porque aquele projeto de Constituição era ruim. O Chile estava à beira de uma decisão que moldaria não apenas seu presente político, mas também as possibilidades de seu futuro.
Bemerkenswerte Zitate
Voto pela rejeição principalmente porque a ideia de criar a nova Constituição nasceu em um momento de grande crise em nosso país; não foi uma decisão tomada com objetividade— Luz Galarce, professora
O evento mais provável é que a rejeição vença e a diferença nesse resultado depende de quantas pessoas votam e quem vota— Marcelo Mella, cientista político da Universidade de Santiago