Petróleo Brent caiu de US$ 118 em abril para US$ 83 em julho, mas gasolina e diesel acumulam altas de 5% e 10% desde fevereiro no Brasil. Bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz e estoques históricos baixos mantêm mercado em alerta, enquanto governo brasileiro conteve repassos com subsídios.
Incertezas sobre cessar-fogo e estoques reduzidos mantêm gasolina cara no Brasil
Como a alta foi moderada, não há espaço para quedas intensas
Por que o petróleo caiu tanto desde abril e a gasolina não acompanhou?
Porque o Brasil conteve o repasse dos aumentos com subsídios governamentais. Quando você freia a alta, também freia a queda.
Mas quanto exatamente o governo gastou? Mais de R$ 30 bilhões é o número que temos, mas é difícil saber se isso foi suficiente ou se houve outras pressões.
E o conflito no Oriente Médio — está realmente resolvido?
Não. Houve um acordo preliminar em junho, mas foi quebrado várias vezes. Agora há uma nova onda de ataques, então o mercado segue assustado.
Aqui é importante notar: ninguém sabe quando isso vai terminar de verdade. Os analistas falam em "sinalização concreta do fim definitivo", mas ninguém tem certeza do que isso significa ou quando acontece.
E os estoques globais — estão realmente tão baixos?
Sim. Tanto a OCDE quanto os EUA têm níveis historicamente baixos. Isso significa que qualquer interrupção no fornecimento causa pânico.
Mas "historicamente baixo" é relativo. Seria útil saber em comparação com quê — com 2020? Com 2015? A reportagem não especifica.
Então quando a gasolina vai cair?
Quando o conflito terminar de verdade, os portos forem reconstruídos e os estoques se recuperarem. Mas ninguém sabe quando isso acontece.
E mesmo que aconteça, o governo pode decidir manter subsídios por razões políticas. Isso também não está claro.
The Pulse
- Petróleo Brent caiu de US$ 118,03 em abril para US$ 83,30 em julho
- Gasolina acumula alta de 5% e diesel de 10% desde fevereiro no Brasil
- Governo federal destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção de combustíveis
- Bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz afeta 20% do comércio global de petróleo
- Estoques globais de petróleo estão em níveis historicamente baixos
Petróleo Brent caiu de US$ 118 em abril para US$ 83 em julho, mas gasolina e diesel acumulam altas de 5% e 10% desde fevereiro no Brasil. Bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz e estoques históricos baixos mantêm mercado em alerta, enquanto governo brasileiro conteve repassos com subsídios.
Especialistas apontam que incertezas sobre cessar-fogo no Oriente Médio, estoques reduzidos globais e subsídios governamentais explicam por que combustíveis não caem nos postos brasileiros apesar de queda recente do petróleo.
O preço da gasolina nas bombas brasileiras segue alto, mesmo depois que o petróleo caiu significativamente nos últimos meses. O barril de Brent, referência internacional, fechou julho cotado a US$ 83,30 — uma queda considerável em relação ao pico de US$ 118,03 registrado em abril. Apesar dessa descompressão, porém, a gasolina acumula alta de cerca de 5% desde o início de fevereiro, quando começou o conflito no Oriente Médio, enquanto o diesel subiu aproximadamente 10% no mesmo período. A explicação para essa defasagem está em uma combinação de fatores que especialistas apontam como responsáveis por manter os combustíveis caros nas bombas brasileiras.
O cenário internacional permanece frágil. Um acordo preliminar foi assinado em meados de junho para encerrar o conflito entre EUA e Irã, mas a trégua se mostrou instável. Menos de duas semanas depois, os dois países voltaram a trocar ataques com mísseis e drones, acusando-se mutuamente de violar o cessar-fogo provisório. Após dias de confrontos, concordaram em interromper as hostilidades e retomar negociações, com Catar e Paquistão atuando como mediadores. Representantes dos países envolvidos relataram um avanço positivo nas conversas, mas nos últimos dias uma nova onda de ataques voltou a colocar o frágil acordo em xeque. O presidente dos EUA retomou o bloqueio naval ao Irã no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo, e ameaçou cobrar um pedágio de 20% sobre navios que passassem pelo canal — embora tenha recuado e dito que substituiria a taxa por acordos comerciais e de investimentos com países do Golfo.
Essa instabilidade geopolítica alimenta a incerteza nos mercados. Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, explica que a imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis derivados, porque ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países. Além disso, o tráfego limitado no Estreito de Ormuz aumenta as preocupações quanto à oferta global de petróleo, enquanto a demanda continua elevada, impulsionada pelo verão no Hemisfério Norte, período em que o consumo de energia atinge níveis mais altos nos EUA e na Europa. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, destaca que o mundo vive uma queda histórica nos estoques de petróleo — tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis bastante baixos. Para que os preços caiam de forma significativa, seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito, o que permitiria a retirada de minas da região, a reconstrução dos portos destruídos e a retomada das operações — um processo que leva tempo.
No Brasil, o governo federal atuou para conter o impacto dos combustíveis sobre a inflação. Destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção, e a Petrobras também agiu para conter os preços nos momentos mais críticos, evitando repassar imediatamente os aumentos aos consumidores. O resultado é que o Brasil registrou uma alta mais moderada nos preços dos combustíveis do que a observada nos EUA e em países europeus. Mas essa contenção tem um lado inverso: como a alta foi mais moderada, não há espaço para quedas também muito intensas. Recentemente, por exemplo, a Petrobras reduziu o preço do diesel nas refinarias em R$ 0,35 após o encerramento do subsídio governamental. Como a queda apenas compensou o fim do benefício, os preços praticados para as distribuidoras permaneceram inalterados. O governo também adiou a decisão sobre a retirada do subsídio à gasolina após a nova escalada do conflito no Oriente Médio.
Outras medidas em discussão, como o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 30% para 32%, não devem ser suficientes para provocar uma redução relevante dos preços nos postos. Cordeiro observa que esse aumento é importante, mas por si só não deve se refletir em uma redução significativa. O principal fator que vai determinar a alta ou a queda dos preços, segundo ele, é a situação do mercado internacional e a forma como esse movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos brasileiros. Enquanto a incerteza sobre o cessar-fogo persistir, enquanto os estoques globais permanecerem historicamente baixos e enquanto o governo manter subsídios aos combustíveis, a queda nos preços das bombas brasileiras seguirá limitada — mesmo que o petróleo internacional continue caindo.
Notable Quotes
A imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países— Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX
Vivemos uma queda histórica nos estoques. Seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito para iniciar a retirada de minas da região e a retomada das operações— Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados