Incêndio na UFPE destrói duas décadas de pesquisa em fármacos e doenças raras

Pesquisadores vivem luto pela destruição de projetos e amostras biológicas de pacientes, alguns já falecidos, que não podem ser recuperadas; impacto emocional significativo na comunidade científica.
É começar do zero com pesquisas que estavam próximas de conclusão
Pesquisador descreve o impacto de perder amostras e fármacos em desenvolvimento para esclerose sistêmica.
Mark

O que exatamente foi perdido nesse incêndio? Parece ser mais que equipamentos.

Mimi

Foram amostras biológicas que levaram anos para serem coletadas. Sangue de pacientes com Covid-19, mais de 10 mil amostras de pessoas com Chikungunya acompanhadas por três anos, tecidos de animais para testes de fármacos. Coisas que não se conseguem de um dia para o outro.

Luke

Mas essas amostras tinham backup? Cópias em outro lugar?

Mimi

A reportagem não menciona isso. O que sabemos é que estavam todas armazenadas naquele prédio.

Mark

E quanto aos resultados das pesquisas? Os dados já tinham sido publicados?

Mimi

Alguns sim. Um estudo sobre Covid-19 e dano cerebral foi usado pela Opas. Mas havia pesquisas em andamento, ainda em fase de testes com animais, que não chegaram a conclusão.

Luke

Então o prejuízo de R$ 100 milhões — isso inclui o valor das amostras, ou é só equipamento?

Mimi

A reportagem não detalha como esse número foi calculado. Sabemos que inclui equipamentos, insumos e material, mas não há discriminação.

Mark

Qual é o impacto real para os pesquisadores agora?

Mimi

Alguns têm mestrados e doutorados em risco. Precisam recomeçar do zero. E há o lado emocional — descrevem como luto, depressão. Era um espaço onde desenvolveram amizades.

Luke

A causa do incêndio já foi determinada?

Mimi

Não. A Polícia Federal abriu investigação, mas ainda não divulgou nada.

Mark

E as amostras de pacientes que já faleceram?

Mimi

Não podem ser recuperadas. Isso torna a perda ainda mais irreversível.

  • Um incêndio iniciado por volta das 20h destruiu laboratórios centrais da UFPE, causando prejuízo estimado em R$ 100 milhões e apagando duas décadas de pesquisa em uma única noite.
  • Amostras biológicas únicas — incluindo mais de 10 mil coletas de pacientes com Chikungunya e um banco de sangue da Covid-19 — foram perdidas de forma irreversível, algumas pertencentes a pacientes que já não estão vivos.
  • Pesquisadores que estavam a passos de sínteses e descobertas cruciais, como novos fármacos para esclerose sistêmica e biomarcadores de câncer de pulmão, se veem obrigados a recomeçar do zero.
  • A Polícia Federal investiga a causa do sinistro, mas a ausência de respostas agrava a sensação de impotência entre os cientistas afetados.
  • O impacto se estende além de Pernambuco: estudos desenvolvidos no local embasaram diretrizes da Organização Pan-Americana da Saúde, e mestrados e doutorados em andamento enfrentam atrasos indefinidos.

Na noite de 7 de outubro, o fogo consumiu não apenas um prédio da Universidade Federal de Pernambuco, mas o tempo irreversível inscrito em amostras biológicas, experimentos e trajetórias humanas que levaram décadas para se construir. O que se perdeu em Recife não pode ser medido apenas em reais — está contido nas células de pacientes já falecidos, nas respostas ainda não encontradas para doenças que afligem milhões, no silêncio que agora ocupa onde havia ciência viva. A comunidade científica brasileira enfrenta um luto que a reconstrução material, por si só, não será capaz de sanar.

Na noite de 7 de outubro, um incêndio consumiu um prédio multiuso da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, destruindo laboratórios de fármacos, genética e doenças infecciosas. O reitor estima prejuízo de R$ 100 milhões. A Polícia Federal investiga a causa, ainda desconhecida.

O edifício era mais do que uma estrutura física: durante a pandemia, funcionou como laboratório de campanha para testes de Covid-19, e abrigava o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino. Um de seus estudos — que demonstrou que a Covid-19 leve não causa dano cerebral prolongado — foi incorporado a materiais educativos da Opas.

Ryan Cordeiro, pesquisador de 29 anos, perdeu amostras de sangue e tecidos animais usados em testes de novos fármacos, além de material de pesquisa sobre esclerose sistêmica. Estava próximo de sintetizar compostos promissores. Entre o que se foi, havia amostras de tumores raros de pacientes já falecidos — material que não pode ser refeito. "É começar do zero", disse.

Jamile Taniele, bióloga de 39 anos, viu desaparecer um acervo de referência mundial: mais de 10 mil amostras de pacientes com Chikungunya acompanhados por três anos. Sua pesquisa buscava entender por que a doença provoca dores tão intensas e como tratá-las. "Para ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto", lamentou.

A professora Michelle Melgarejo descreveu a amplitude do que se perdeu: estudos sobre câncer de pâncreas, pulmão, doenças inflamatórias, imunológicas e neuro-oncologia. Para ela, o incêndio representa o atraso ou a interrupção de mestrados e doutorados inteiros — um golpe à ciência brasileira. José Rafael Soares, doutorando, perdeu todas as amostras coletadas no Sertão do Araripe para pesquisa sobre biomarcadores de câncer de pulmão.

O que resta, além da fumaça, é o luto de uma comunidade que via naquele espaço não apenas um laboratório, mas uma segunda família — e que agora precisa encontrar forças para reconstruir o que o fogo não pode devolver.

Na noite de 7 de outubro, um incêndio de grandes proporções consumiu um prédio multiuso da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, destruindo duas décadas de pesquisa em fármacos, genética e doenças infecciosas. O reitor da instituição calcula o prejuízo em R$ 100 milhões em equipamentos, insumos e material científico. A Polícia Federal abriu investigação, mas ainda não divulgou a possível causa do sinistro, que começou por volta das 20h.

O edifício abrigava laboratórios de pesquisa em inovação terapêutica, informática e genética. Durante a pandemia de Covid-19, funcionou como laboratório de campanha, onde foram realizados milhares de testes. Agora, pesquisadores que ali trabalhavam descrevem o que ocorreu como um luto — a perda não apenas de equipamentos, mas de amostras biológicas únicas e irreplacíveis que levaram anos para serem coletadas e armazenadas.

Ryan Cordeiro, pesquisador de 29 anos que fazia pós-doutorado em inovação terapêutica, perdeu um banco de amostras de sangue e tecidos de animais utilizados em testes de novos fármacos para a Covid-19. Essas amostras eram guardadas justamente para permitir pesquisas contínuas sobre a doença e o desenvolvimento de novos medicamentos. Um dos estudos desenvolvidos naquele laboratório havia detectado que a Covid-19 leve não causava dano prolongado ao cérebro dos pacientes — achado que foi incorporado em material educativo da Organização Pan-Americana da Saúde. Cordeiro também trabalhava com amostras de animais para pesquisas sobre esclerose sistêmica, doença crônica e rara. Estava próximo de sintetizar fármacos para combater a condição, mas os testes e as amostras foram perdidos. "É começar do zero", resumiu. Entre o material destruído estavam amostras biológicas de tumores, sangue, urina, plasma, soro e células imortalizadas. Algumas eram de pacientes com tumores raros que já faleceram — material que não pode ser recuperado. Cordeiro descreveu a perda como duas décadas de trabalho reduzidas a cinzas.

Jamile Taniele, bióloga de 39 anos, desenvolvia pesquisas sobre dores crônicas associadas a Chikungunya em seu pós-doutorado. Perdeu um acervo que era referência mundial sobre a doença: mais de 10 mil amostras de pacientes acompanhados durante três anos. Ela tinha amostras de sangue e urina de quase mil desses pacientes. A pesquisa buscava respostas sobre por que a Chikungunya causa tantas dores e como manejar esse sintoma. As amostras vinham de pacientes com diferentes trajetórias da doença, e o trabalho estava no caminho de encontrar respostas. "Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça", disse Taniele, descrevendo a situação como desesperadora.

A professora Michelle Melgarejo, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino, que funcionava no prédio destruído, destacou a amplitude do trabalho que ali era realizado: estudos sobre câncer de pâncreas, câncer de pulmão, doenças infecciosas, doenças inflamatórias, doenças imunológicas, saúde mental, aprendizado e neuro-oncologia. Ela caracterizou o incêndio como representando a perda de mestrados e doutorados, ou pelo menos um atraso significativo nesses processos — um golpe não apenas para a ciência pernambucana, mas para a pesquisa brasileira como um todo.

José Rafael Soares, biólogo que cursava doutorado em inovação terapêutica, perdeu todas as suas amostras coletadas no Sertão de Araripe para pesquisa sobre biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias. Pesquisadores descrevem o espaço como mais que um laboratório — era um ambiente de vivência e troca entre cientistas, um lugar onde desenvolveram amizades e que se tornou segunda família. Agora, a comunidade científica enfrenta não apenas o desafio técnico de reconstruir pesquisas, mas também o impacto emocional de ver décadas de trabalho destruídas em uma única noite.

Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho
— Ryan Cordeiro, pesquisador de pós-doutorado em inovação terapêutica
Perdemos um dos maiores estudos do mundo em Chikungunya. Tínhamos mais de 10 mil amostras de pacientes que foram acompanhados por três anos
— Jamile Taniele, bióloga pesquisadora de doenças crônicas
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