Oito anos após a madrugada em que 242 jovens morreram asfixiados na boate Kiss, em Santa Maria, o Brasil ainda não concluiu o julgamento dos quatro acusados pela tragédia. A espera, que se arrasta sem data definida, revela não apenas as lentidões do sistema judicial, mas também o peso que o tempo impõe sobre quem perdeu alguém e ainda busca alguma forma de justiça. Entre leis aprovadas e prazos prorrogados, a pergunta que persiste é se uma sociedade aprende com suas tragédias — ou apenas as comemora.
Incêndio da Kiss completa oito anos sem julgamento dos quatro réus
Partimos do luto para a luta, transformando dor em ato de amor
Por que o julgamento levou tanto tempo? Oito anos é uma eternidade.
O processo é complexo — mais de 85 volumes de documentação. Mas há também questões procedimentais. Os réus conseguiram transferir o julgamento de Santa Maria para Porto Alegre, argumentando que a comoção local comprometeria a imparcialidade. Agora aguardam a nomeação de um novo juiz titular. Cada etapa se arrasta.
Os familiares estão apenas esperando, então?
Não apenas esperando. Flávio Silva e a associação transformaram o luto em ativismo — pressionando por mudanças legislativas, participando de homenagens, lutando para que o julgamento seja público. Mas a espera prolongada cobra um preço: alguns pais das vítimas morreram durante esses oito anos, agravados pela dor da perda.
E quanto às leis que foram aprovadas? Não resolveram o problema?
Resolveram em parte. A Lei Kiss estadual e federal aumentaram as exigências de segurança. Mas o prazo para adequação foi prorrogado até 2023. Silva vê isso como fracasso — um sinal de que os governantes não aprenderam nada.
Qual é a maior preocupação agora?
Que o júri seja realizado a portas fechadas, sob alegação de restrições da pandemia. Os familiares temem ser excluídos do julgamento após oito anos de espera. É uma questão de dignidade e participação.
E quando finalmente acontecerá?
Ninguém sabe. Tudo depende de quando um novo juiz for designado. Na melhor das hipóteses, segundo semestre de 2021. Mas essa é uma esperança frágil.
The Pulse
- Quatro réus respondem por 242 homicídios e 636 tentativas, mas oito anos depois ainda não há data marcada para o julgamento pelo júri popular.
- Familiares relatam que pais de vítimas morreram durante a espera, com doenças agravadas pela dor da perda — o sofrimento não parou com o incêndio.
- A transferência do processo de Santa Maria para Porto Alegre e a troca do juiz titular atrasam ainda mais a definição de data e local do julgamento.
- A pandemia ameaça fechar as portas do tribunal aos familiares, que prometem resistir: 'São longos anos de espera. A gente espera que se faça justiça.'
- As leis Kiss, aprovadas após a tragédia, tiveram seus prazos de adequação prorrogados até 2023, o que os familiares interpretam como descaso com a prevenção.
Oito anos após a madrugada em que 242 jovens morreram asfixiados na boate Kiss, em Santa Maria, o Brasil ainda não concluiu o julgamento dos quatro acusados pela tragédia. A espera, que se arrasta sem data definida, revela não apenas as lentidões do sistema judicial, mas também o peso que o tempo impõe sobre quem perdeu alguém e ainda busca alguma forma de justiça. Entre leis aprovadas e prazos prorrogados, a pergunta que persiste é se uma sociedade aprende com suas tragédias — ou apenas as comemora.
Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, um sinalizador aceso dentro da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, incendiou a espuma acústica do teto. A fumaça carregada de cianeto e gases letais matou 242 jovens — a maioria universitários — que não conseguiram sair. Alguns foram impedidos pelos próprios seguranças. Oito anos depois, quatro réus ainda aguardam julgamento, sem data definida.
Os acusados são os dois sócios da boate, o vocalista da banda que se apresentava na noite do incêndio e o produtor musical do grupo. Respondem por 242 homicídios simples e 636 tentativas. O processo, com mais de 85 volumes, foi transferido para Porto Alegre após os réus alegarem que a comoção em Santa Maria comprometeria a imparcialidade dos jurados.
Flávio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes, perdeu sua filha Andrielle, de 22 anos, que comemorava o aniversário com quatro amigas — todas morreram. Ele descreve os oito anos como de sofrimento ininterrupto, agravado pela morte de outros pais de vítimas durante a espera. 'Partimos do luto para a luta', diz, descrevendo o esforço de transformar a dor em prevenção.
O julgamento agora depende da nomeação de um novo juiz titular em Porto Alegre, após a magistrada responsável assumir cargo no Tribunal de Justiça. Os familiares temem ainda que o júri ocorra a portas fechadas por causa da pandemia — e prometem resistir a essa possibilidade com todas as forças.
A tragédia gerou as Leis Kiss estadual e federal, que endureceram normas de segurança contra incêndios. Mas os prazos para adequação dos edifícios foram prorrogados até 2023, o que Silva critica duramente: 'A impressão que fica é que o risco de mais matança segue legalizado.' Neste 27 de janeiro, uma sirene do Corpo de Bombeiros soou às 2h30 em Santa Maria, e uma cerimônia online reuniu artistas e familiares para homenagear as vítimas.
Oito anos se passaram desde a madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando um sinalizador aceso dentro da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, incendiou a espuma que isolava acusticamente o local. A fumaça tóxica que se seguiu — carregada de cianeto e outros gases letais — matou 242 jovens, a maioria universitários, que não conseguiram sair do estabelecimento. Muitos foram impedidos de deixar o local por seguranças, sob ordens de um dos donos, que temia que os clientes não pagassem suas contas. Oito anos depois, quatro réus ainda aguardam julgamento pelo júri popular. Não há data marcada. Na melhor das hipóteses, o julgamento ocorrerá em algum momento do segundo semestre de 2021.
Os quatro acusados são Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, sócios e empresários da boate; Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda Gurizada Fandangueira que se apresentava na noite do incêndio; e Luciano Bonilha Leão, produtor do grupo musical. Respondem por 242 homicídios simples — um para cada morte — e 636 tentativas de homicídio, conforme o número de feridos. O processo, que já reúne mais de 85 volumes, foi transferido de Santa Maria para Porto Alegre no ano anterior, após os réus argumentarem que a comoção local comprometeria a imparcialidade dos jurados. O Ministério Público do Rio Grande do Sul concordou com a transferência para todos os quatro, permitindo que sejam julgados numa única data pelo mesmo júri.
Flávio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, perdeu sua filha Andrielle, de 22 anos, que estava na discoteca celebrando seu aniversário com quatro amigas. Todas morreram asfixiadas. Ele descreve os oito anos de espera como um período de sofrimento ininterrupto. "Essa situação é muito injusta. São oito anos de sofrimento e dor e, durante esses anos, a gente perdeu muitos familiares, pais de vítimas, que tiveram outras doenças, agravadas pela dor da perda, e acabaram morrendo", lamenta. A associação, fundada cerca de dois meses após a tragédia, reúne pais e familiares em busca de reparação e transformação. Silva afirma que os familiares "não tiveram tempo de curtir o luto, porque partimos do luto para a luta", tentando converter a dor em atos de prevenção que salvem vidas.
O processo agora aguarda a designação de um novo juiz titular para a 1ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre. A magistrada que ocupava o cargo, Taís Culau de Barros, assumirá novo posto no Tribunal de Justiça do estado a partir de fevereiro. Só após a nomeação de seu substituto é que a data e o local do julgamento serão definidos. Uma preocupação imediata dos familiares é que o júri seja realizado a portas fechadas, sob alegação de restrições impostas pela pandemia de covid-19. Silva avisa que lutarão com todas as forças contra essa possibilidade, pois desejam participar do julgamento. "Se acontecer, vamos lutar com todas as forças para reverter. São longos anos de espera. Aconteça o que acontecer, não teremos nossos filhos de volta, mas a gente espera que se faça justiça."
A tragédia provocou mudanças legislativas. Em 2013, meses após o incêndio, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou a Lei Kiss, aumentando o rigor das normas sobre segurança, prevenção e proteção contra incêndios em edificações. Em 2017, uma lei federal de mesmo nome foi aprovada pelo Congresso Nacional com objetivos similares. Porém, o prazo para adequação dos edifícios às novas normas foi prorrogado em 2019 por mais quatro anos, começando a vigorar apenas a partir de 2023. Silva critica essas prorrogações como sinal de que os governantes não aprenderam com a tragédia. "Essas prorrogações mostram que os nossos governantes não aprenderam nada com a tragédia. A impressão que fica é que o risco de mais matança segue legalizado."
Todo 27 de janeiro marca homenagens às vítimas. Este ano, por causa da pandemia, a Associação de Familiares organizou uma transmissão online para as 20h30, mediada pelo jornalista Marcelo Canellas, com participação de atores como Tony Ramos e Christiane Torloni, da autora Glória Perez, de Ligiane Righi (mãe de uma das vítimas) e do jurista Jair Krischke. Mais cedo, por volta das 2h30 da madrugada, uma sirene do Corpo de Bombeiros tocou na cidade para marcar o exato momento em que o incêndio começou. Silva encerra sua reflexão sobre prevenção: "O que salva vidas mesmo é a prevenção. Ela é um investimento. Enquanto esses empresários pensarem na prevenção como despesa, o Brasil não vai pra frente em termos de garantia de segurança."
Notable Quotes
São oito anos de sofrimento e dor e, durante esses anos, a gente perdeu muitos familiares, pais de vítimas, que tiveram outras doenças, agravadas pela dor da perda, e acabaram morrendo— Flávio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas
Essas prorrogações mostram que os nossos governantes não aprenderam nada com a tragédia. A impressão que fica é que o risco de mais matança segue legalizado— Flávio Silva