Em um país onde metade da renda familiar já está comprometida com dívidas, o Sicredi revelou que associados que apostaram em plataformas online em 2025 apresentam inadimplência 40% superior à dos não apostadores — o dobro do índice encontrado em pesquisas anteriores. O achado, extraído de 1,3 milhão de contratos de crédito ativos, sugere uma degradação progressiva e proporcional à intensidade das apostas, colocando as bets no centro de um debate urgente sobre saúde financeira, regulação e o papel do Estado na proteção do consumidor.
Inadimplência de apostadores em bets é 40% maior, revela estudo do Sicredi
O que está disponível para pagar fica menor e leva a maior inadimplência
Por que esse número do Sicredi é tão diferente do que o Insper e a Stone encontraram? Eles disseram 20%, e agora temos 40%.
O Sicredi tem uma base de dados muito grande — 1,3 milhão de associados — e conseguiu rastrear especificamente quem apostou em 2025. Talvez a metodologia seja diferente, ou talvez o Sicredi capture um perfil de cliente que aposta mais intensamente.
Mas a gente não sabe isso com certeza. Os estudos podem estar medindo coisas ligeiramente diferentes, ou a população do Sicredi pode ser diferente da população geral. O importante é que ambos mostram uma correlação clara — não sabemos ainda se é causal.
E esse segundo achado, sobre frequência e valor das apostas? Isso significa que quanto mais você aposta, pior fica?
Exatamente. Dentro do grupo de apostadores, quem aposta com mais frequência e em valores maiores tem inadimplência 40% superior aos que apostam ocasionalmente. É como se houvesse um efeito dose-resposta.
Mas novamente, a pesquisa é preliminar. Não sabemos se são as apostas que causam a inadimplência ou se pessoas com problemas financeiros já existentes tendem a apostar mais. A correlação está lá, mas a causalidade ainda é uma pergunta aberta.
O Banco Central está levando isso a sério?
Sim. Já apresentaram os dados preliminares à diretoria do BC, e o diretor de Fiscalização já falou publicamente que as bets são um "elemento central" no endividamento. Eles estão particularmente preocupados com o impacto no Pronaf, que é crédito para pequenos produtores rurais.
Mas o BC não comentou quando foi procurado. Então enquanto há preocupação, ainda não há medidas concretas anunciadas.
E o governo? Lula disse algo?
Lula prometeu acabar com as bets se dependesse dele. Mas o ministro da Fazenda disse que ainda não há nada definido. É mais um sinal de intenção do que uma política pronta.
E há uma tensão real aqui: o setor diz que proibir publicidade vai favorecer sites clandestinos que não pagam impostos e não têm segurança. Isso pode ser verdade, mas também é o argumento que qualquer indústria faz quando ameaçada de regulação.
Então o que muda agora?
Bochi está pedindo uma mobilização nacional — governo, BC, imprensa, sociedade civil — para produzir mais dados e ações de proteção. Ele acha que o que foi feito até agora em conscientização não é suficiente.
The Pulse
- A inadimplência entre apostadores no Sicredi é 40% maior que entre não apostadores — o dobro do que estudos anteriores haviam indicado, sinalizando um problema mais grave do que se imaginava.
- Quanto mais frequente e volumosa a aposta, maior o atraso nos pagamentos: a degradação financeira segue uma lógica progressiva que aprofunda o endividamento das famílias.
- O Banco Central já monitora o impacto das bets no crédito rural do Pronaf e seu diretor de Fiscalização classificou as apostas como 'elemento central' no endividamento dos brasileiros.
- O presidente Lula promete agir, mas o governo ainda não definiu medidas concretas; o setor de apostas alerta que restrições de publicidade podem fortalecer sites clandestinos.
- Cooperativas, reguladores e sociedade civil são convocados a produzir dados e ações coordenadas, enquanto a análise do Sicredi ainda está em fase preliminar e sem recortes detalhados de perfil.
Em um país onde metade da renda familiar já está comprometida com dívidas, o Sicredi revelou que associados que apostaram em plataformas online em 2025 apresentam inadimplência 40% superior à dos não apostadores — o dobro do índice encontrado em pesquisas anteriores. O achado, extraído de 1,3 milhão de contratos de crédito ativos, sugere uma degradação progressiva e proporcional à intensidade das apostas, colocando as bets no centro de um debate urgente sobre saúde financeira, regulação e o papel do Estado na proteção do consumidor.
O Sicredi, rede com mais de 90 cooperativas e 10,5 milhões de associados, identificou que quem apostou em plataformas online durante 2025 tem inadimplência 40% superior à de quem não apostou — resultado que o presidente da instituição, César Gioda Bochi, descreveu como uma surpresa negativa de peso. A pesquisa examinou 1,3 milhão de associados com crédito ativo em julho de 2026 e revelou ainda uma correlação interna: entre os próprios apostadores, os que jogam com maior frequência e valores mais altos apresentam inadimplência 40% superior à dos apostadores ocasionais. Bochi chamou isso de "um achado dentro do outro achado".
O número ganha força quando comparado a estudos anteriores. Uma pesquisa conjunta do Insper e da Stone havia apontado inadimplência 20% maior entre apostadores — os dados do Sicredi são o dobro desse índice, sugerindo que o impacto real das bets na saúde financeira das famílias pode ser mais profundo do que se estimava. O Banco Central acompanha esses achados preliminares com atenção especial ao crédito rural do Pronaf, e seu diretor de Fiscalização já havia declarado publicamente que as apostas são um "elemento central" no endividamento dos brasileiros.
Para Bochi, o problema ultrapassa o indivíduo: com 50% da renda familiar já comprometida com dívidas, qualquer erosão adicional da capacidade de pagamento compromete a recuperação econômica mais ampla. O presidente Lula prometeu agir contra os sites de apostas, mas o ministro da Fazenda admitiu que nada está definido. O setor argumenta que restrições de publicidade beneficiariam plataformas clandestinas, que não geram empregos, não pagam impostos e não adotam salvaguardas para o jogador.
Bochi defende uma mobilização ampla — imprensa, governo, Banco Central e sociedade civil — para produzir dados, conscientizar e regular com base em experiências internacionais. A análise do Sicredi ainda não contempla recortes por renda, perfil ou localização, mas o que já se sabe é suficiente para colocar as apostas online no centro do debate sobre endividamento no Brasil.
O sistema Sicredi, que reúne mais de 90 cooperativas de crédito e 10,5 milhões de associados espalhados por todos os estados, realizou um levantamento que traz números preocupantes sobre o comportamento financeiro de quem aposta em plataformas online. Entre os associados que fizeram apostas durante 2025, a taxa de inadimplência é 40% superior à registrada entre aqueles que não apostaram no mesmo período — um achado que o próprio presidente da instituição, César Gioda Bochi, descreveu como uma surpresa negativa de importância significativa.
A pesquisa analisou 1,3 milhão de associados com operações de crédito ativas em julho de 2026, verificando quem havia realizado apostas online entre janeiro e dezembro de 2025. O que tornou o resultado ainda mais relevante foi a descoberta de uma correlação clara: quanto maior a frequência das apostas e quanto maiores os valores apostados, maior também a inadimplência. Dentro do grupo de apostadores, aqueles que apostam com mais frequência e em valores maiores apresentam uma inadimplência 40% superior à dos que apostam ocasionalmente — o que Bochi chamou de "um achado dentro do outro achado". Esse padrão sugere que não se trata simplesmente de uma questão de quem aposta versus quem não aposta, mas de uma degradação progressiva da capacidade de pagamento conforme a intensidade das apostas aumenta.
O resultado do Sicredi é particularmente significativo quando comparado com pesquisas anteriores. Um estudo conjunto do Insper e da Stone, divulgado recentemente pela Folha, havia mostrado que a proporção de pessoas com pagamentos em atraso é, em média, 20% maior entre apostadores. Os números do Sicredi, portanto, são o dobro daquele índice — um sinal de que o impacto das apostas online na saúde financeira das famílias pode ser ainda mais profundo do que se imaginava.
O Banco Central já está ciente desses achados preliminares. A instituição tem concentrado esforços em entender o impacto das bets no endividamento dos brasileiros, com atenção especial à correlação entre apostas e inadimplência no Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que oferece crédito rural com juros reduzidos para pequenos produtores. Há cerca de 20 dias, o diretor de Fiscalização do BC, Aílton de Aquino, já havia alertado publicamente que as bets são um "elemento central" no endividamento das famílias, e que qualquer visão contrária seria "fake news". Na mesma ocasião, questionou a publicidade de apostas em aplicativos financeiros, sinalizando possíveis medidas regulatórias.
Para Bochi, o problema vai além da pessoa física urbana. A redução da capacidade de pagamento causada pelas apostas compromete a recuperação econômica em sentido amplo. Ele aponta que 50% da renda anual das famílias já está comprometida com dívidas, tornando o cenário ainda mais complexo quando as apostas online aceleram a degradação dessa capacidade. "O que está disponível para pagar as parcelas de crédito fica menor e leva a uma maior inadimplência", afirmou, destacando que isso é "algo relevante no processo de recuperação econômica".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem prometido medidas contra os sites de apostas. Na sexta-feira anterior à publicação desta reportagem, voltou a afirmar a apoiadores que, se dependesse de sua vontade pessoal, iria "acabar com as bets". Porém, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ainda não há nada definido. O setor de apostas argumenta que ações como a proibição de publicidade podem dificultar a competição com sites clandestinos, que não empregam pessoas no Brasil, não arrecadam impostos e não adotam políticas de segurança para o jogador.
Bochi defende uma mobilização nacional ampla, envolvendo imprensa, associações, governo, Banco Central e outras esferas públicas e da sociedade civil para produzir dados, estudos e ações que protejam o consumidor. Na sua avaliação, os esforços alocados para gerar conscientização e transparência têm sido insuficientes. Ele sugere que experiências internacionais, como restrições mais relevantes de publicidade e patrocínio, sejam consideradas. "Temos que assegurar que essa expansão das apostas online seja compatível efetivamente com a proteção do consumidor, em especial na questão de bem-estar financeiro, na questão de saúde pública inclusive", ressaltou.
A análise do Sicredi ainda está em fase preliminar e de aprofundamento. Ela não contempla recortes sobre quantidade ou perfil dos apostadores, faixa de renda, localização, atividade econômica ou participação em linhas específicas de crédito — detalhes que poderiam oferecer uma visão ainda mais precisa do fenômeno. O que se sabe até agora, porém, é suficiente para colocar as apostas online no centro do debate sobre endividamento das famílias brasileiras.
Notable Quotes
Foi uma surpresa negativa. Nossos achados aqui em relação a esse projeto são importantíssimos— César Gioda Bochi, diretor-presidente do Sicredi
As bets são elemento central no endividamento das famílias, e qualquer visão contrária é fake news— Aílton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central