Impasse em Hormuz eleva petróleo e espalha risco inflacionário pelo mundo

Um regime iraniano que existe mais em expectativas do que na realidade
Pesquisadora do Chatham House alerta sobre risco de Washington combater uma versão imaginária do Irã.
Mark

Por que um impasse em um estreito no Golfo Pérsico afeta tanto a inflação no Brasil?

Mimi

Porque petróleo é commoditie global. Quando a oferta fica restrita, o preço sobe em todo lugar. E energia cara empurra para cima o custo de tudo — transporte, produção, alimentos. Os bancos centrais precisam apertar os juros para conter a inflação, o que machuca a economia real.

Mark

Mas Trump disse que a passagem está aberta e segura. Por que ninguém acredita?

Mimi

Porque os dados contradizem. A agência de energia americana calcula que o fluxo caiu para um quarto do normal. Os navios desligam os transponders porque estão sendo atacados. Não é opinião — é fato observável.

Mark

O Irã quer o quê, exatamente?

Mimi

Quer que o bloqueio naval termine, que os ativos congelados sejam liberados, que as sanções ao petróleo caiam. Mas mais que isso, quer demonstrar que consegue impor desgaste. Cada navio atacado, cada terminal atingido, é uma mensagem: vocês não podem ignorar a gente.

Mark

E se isso continuar até 2027?

Mimi

A EIA não espera normalização antes disso. Significa petróleo caro por mais um ano. Significa juros altos em economias que já estão frágeis. Significa que a inflação segue acima das metas.

Mark

Omã está tentando mediar. Tem chance de funcionar?

Mimi

Omã está sob ameaça de bombardeio se atrapalhar. Quando a mediação acontece sob coação, fica difícil construir confiança. Além disso, as posições estão muito distantes. Não é claro que alguém quer realmente negociar.

  • Acordo de junho entre EUA e Irã desmoronou em semanas
  • Fluxo de petróleo por Hormuz caiu para menos de um quarto do nível pré-guerra
  • Petróleo Brent ultrapassou US$ 91, maior valor desde julho
  • EIA projeta restrições severas até início de 2027
  • Brasil projeta Selic em 13,75% e inflação em torno de 5% no fim do ano

Acordo de junho entre americanos e iranianos desmoronou após retomada de ataques iranianos e restabelecimento do bloqueio naval dos EUA ao Irã. Petróleo Brent ultrapassou US$ 91 por barril, maior valor desde julho, impactando inflação em países como Brasil e Europa, onde gás natural também sofre pressão.

Colapso de acordo entre EUA e Irã sobre navegação em Hormuz provoca alta de petróleo e pressão inflacionária mundial, com fluxo de combustível caindo para um quarto dos níveis pré-guerra.

O verão no hemisfério norte está terminando e ninguém sabe ao certo quanto petróleo consegue atravessar o estreito de Hormuz. Os navios que ainda se arriscam pela passagem desligam seus transponders — os aparelhos que transmitem identificação e localização — para não se tornarem alvo. O rastreamento virou um exercício de adivinhação baseado em imagens de satélite. Antes da guerra, um quinto de todo o petróleo mundial passava por ali. Agora, o fluxo caiu para menos de um quarto daquele volume.

Há dois meses tudo parecia resolvido. Em junho, americanos e iranianos assinaram um memorando que previa a retomada gradual da navegação. O mercado respirou fundo. O barril caiu abaixo de 70 dólares no início de julho. Mas o acordo desmoronou em semanas. O Irã voltou a atacar navios. Washington restabeleceu o bloqueio aos portos iranianos. Na segunda-feira 17 de agosto, o prazo de 60 dias para negociar um substituto venceu sem nada no lugar.

No dia seguinte, Donald Trump publicou em sua rede social a imagem de um mapa com o estreito circulado e a legenda "novo território dos Estados Unidos". Horas depois negou que houvesse conversas em curso com Teerã, afirmando que a passagem está aberta e as minas, removidas. O Irã chamou o mapa de delírio. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, listou o preço da reabertura: fim do bloqueio naval, liberação de ativos congelados, suspensão das sanções ao petróleo e fim das operações militares em todas as frentes. Omã tenta mediar, mas sob ameaça de bombardeio do próprio Trump caso atrapalhe.

Fontes respeitadas não confirmam a versão americana. A Administração de Informação sobre Energia, braço estatístico do Departamento de Energia dos Estados Unidos, calcula que o fluxo pelo estreito caiu para menos de um quarto do nível anterior à guerra. A agência trabalha com a hipótese de que os embarques sigam severamente restritos ao longo de agosto e não espera que a produção e as rotas de comércio voltem ao padrão pré-conflito antes do início de 2027. Enquanto isso, os estoques mundiais continuam sendo consumidos. Na segunda-feira, Trump afirmou que os preços do petróleo estavam caindo. Na manhã seguinte, o Brent passava de 91 dólares, o maior valor desde julho.

Petróleo caro é, antes de tudo, um problema inflacionário. Por isso a guerra reaparece na conta de juros de países que nada têm a ver com o Golfo. No Brasil, o Boletim Focus do Banco Central projeta a Selic em 13,75% no fim do ano, com a inflação em torno de 5%, acima do teto da meta. Nem tudo é petróleo — o quadro fiscal pesa cada vez mais — mas a aposta em juros bem menores foi engavetada. Na Europa, o problema aparece com mais nitidez no gás do que no petróleo. Os carregamentos do Qatar estão retidos. Os estoques do continente são repostos abaixo do ritmo necessário. Cada carga disponível é disputada com compradores asiáticos, com o preço de referência perto do dobro do de um ano atrás.

A geografia da escalada também muda diariamente. O Financial Times informou que comandantes iranianos avaliaram atacar instalações americanas no sudeste europeu, entre elas a Bulgária, que autorizou no mês passado o uso de uma base aérea por aviões de reabastecimento dos Estados Unidos. Aniseh Bassiri Tabrizi, pesquisadora do Chatham House, argumenta que a guerra falhou nas apostas que a justificaram: o regime não caiu, a capacidade militar iraniana não foi destruída e Teerã não capitulou. O que o Irã faz desde então não é buscar vitória militar, e sim impor desgaste. Atacar os petroleiros que cruzam o estreito, os terminais e portos dos vizinhos do Golfo e as bases americanas na região custa pouco em armamento e cobra caro do adversário em economia e política. Foi por essa lógica que o controle de Hormuz entrou na lista de interesses que o regime considera inegociáveis. Se Washington seguir partindo de premissas já desmentidas, adverte ela, corre o risco de combater "um regime iraniano que existe mais em suas expectativas do que na realidade".

A epidemia está longe de estar sob controle e o risco de disseminação internacional segue alto
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
A doença avança a uma velocidade que nunca havíamos observado
— Jean-Jacques Muyembe, virologista congolês
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