No coração do Pacífico Sul, um arquipélago de 15 mil almas tornou-se, quase de repente, palco de uma rivalidade que moldará o século: a corrida pelas terras raras do fundo do oceano. As Ilhas Cook, cujo território marítimo rivaliza em extensão com a Arábia Saudita, receberam navios de investigação norte-americanos e chineses em poucas semanas, cada um a mapear silenciosamente o leito do mar. Neste jogo entre gigantes, um pequeno povo tenta transformar a cobiça alheia em soberania própria — sem perder, no processo, o chão que pisa.
Ilhas Cook aproveitam disputa EUA-China por terras raras no Pacífico
Um pequeno arquipélago equilibra-se entre duas superpotências
Porque é que um arquipélago tão pequeno se tornou de repente importante para os EUA e a China?
Porque tem terras raras no seu leito marinho, e a China controla 90% do fornecimento mundial refinado. Para Washington, isto é uma ameaça estratégica. Qualquer fonte alternativa torna-se valiosa.
Mas as Ilhas Cook têm capacidade técnica para explorar isto sozinhas?
Não. É por isso que ambas as potências estão a oferecer ajuda — navios, financiamento, formação. Mas isto cria uma dependência que preocupa os ambientalistas locais.
A Nova Zelândia suspendeu financiamento. Porquê?
Porque o acordo com a China foi visto como uma mudança de alianças. A Nova Zelândia é o parceiro tradicional, o doador maior. Sentiu-se traída.
Qual é o risco real para as Ilhas Cook?
Que aceitem exploração que não traz benefícios reais, ou que danifica o ambiente de forma irreversível. Não têm instituições fortes o suficiente para negociar de igual para igual com superpotências.
E se recusarem ambas as ofertas?
Ficam sem investimento, sem infraestruturas, sem oportunidade de receitas. Para um país que importa quase tudo, é uma escolha impossível.
El Pulso
- A China controla 90% do fornecimento mundial de terras raras refinadas, e os EUA sentem a pressão estratégica a cada bateria, motor elétrico e avião de combate que dependem desses minerais.
- Em meses, as Ilhas Cook passaram de destino turístico remoto a epicentro de acordos diplomáticos com Pequim e Washington, cada superpotência oferecendo infraestruturas, financiamento e formação em troca de acesso ao fundo do mar.
- A competição gerou fraturas internas: protestos em Rarotonga, suspensão de financiamento pela Nova Zelândia e dúvidas crescentes sobre se o arquipélago tem capacidade institucional para negociar de igual para igual com potências mundiais.
- Organizações ambientais locais alertam que a urgência geopolítica pode atropelar a sustentabilidade, questionando se os benefícios prometidos chegarão realmente à população ou ficarão retidos nas margens do poder.
No coração do Pacífico Sul, um arquipélago de 15 mil almas tornou-se, quase de repente, palco de uma rivalidade que moldará o século: a corrida pelas terras raras do fundo do oceano. As Ilhas Cook, cujo território marítimo rivaliza em extensão com a Arábia Saudita, receberam navios de investigação norte-americanos e chineses em poucas semanas, cada um a mapear silenciosamente o leito do mar. Neste jogo entre gigantes, um pequeno povo tenta transformar a cobiça alheia em soberania própria — sem perder, no processo, o chão que pisa.
Um arquipélago de pouco mais de 15 mil habitantes dispersos pelo Pacífico Sul tornou-se, em 2025, um tabuleiro inesperado da rivalidade entre as duas maiores potências do mundo. As Ilhas Cook, com um território marítimo do tamanho da Arábia Saudita, viram chegar em poucas semanas dois navios de investigação — um norte-americano, outro chinês — enviados para mapear o leito do oceano em busca de terras raras, minerais essenciais para automóveis, aviões de combate, baterias e tecnologia.
O interesse tem raízes profundas. A China domina cerca de 90% do fornecimento global de terras raras refinadas, uma vantagem que lhe confere enorme poder de pressão sobre Washington. No início de 2025, Pequim assinou um acordo com o arquipélago que incluía exploração submarina em troca de investimentos em infraestruturas, pesca, bolsas de estudo e formação. Os EUA responderam em agosto com o seu próprio entendimento, apoiado por visitas pessoais de responsáveis da administração Trump a Rarotonga, que chegaram a propor a construção de um aeroporto, navios oceanográficos e até a doação de um autocarro.
Para as Ilhas Cook, as ofertas são quase irrecusáveis. A economia depende do turismo e de ajuda externa, a emigração para a Nova Zelândia esvaziou a população, e nas ilhas mais remotas o acesso a cuidados médicos pode implicar dias de viagem de barco. Mas o súbito assédio das superpotências está a criar tensões: houve protestos em Rarotonga, e a Nova Zelândia suspendeu financiamento ao arquipélago após o acordo com a China.
Organizações ambientais locais soam o alarme. Kelvin Passfield, da associação Te Ipukarea Society, questiona se o país tem capacidade para negociar de igual para igual com gigantes globais e garantir que a exploração respeite o ambiente e produza benefícios reais para a população. O arquipélago encontra-se numa encruzilhada delicada: entre a promessa de desenvolvimento e o risco de se tornar apenas mais um peão numa partida jogada por outros.
Um pequeno arquipélago no Pacífico Sul, com pouco mais de 15 mil habitantes, tornou-se de repente um tabuleiro de xadrez geopolítico. As Ilhas Cook, dispersas por um território marítimo do tamanho da Arábia Saudita, atraíram em poucas semanas dois navios de investigação — um norte-americano, outro chinês — enviados para mapear e fotografar em alta definição o leito do oceano. O objetivo era claro: avaliar o potencial de exploração de terras raras, minerais que dominaram as conversas entre líderes mundiais ao longo de 2025.
O interesse não é casual. A China controla cerca de 90% do fornecimento global de terras raras refinadas, uma vantagem estratégica que lhe permite exercer pressão considerável sobre os Estados Unidos e outras potências. Estes minerais são essenciais para fabricar desde automóveis até aviões de combate, e alimentam cadeias inteiras de produção de baterias e tecnologia. O vasto território marítimo das Ilhas Cook permanece praticamente intocado, o que o torna particularmente atraente. Durante décadas, a mineração em águas profundas foi mais promessa que realidade, travada por custos elevados e preocupações ambientais. Mas a tensão geopolítica atual parece estar a ressuscitar a ideia, e o pequeno arquipélago vê uma oportunidade de transformar o interesse das superpotências em ganho económico.
No início de 2025, as autoridades das Ilhas Cook assinaram um acordo polémico com a China que permitia exploração e investigação do fundo marinho em troca de investimentos em infraestruturas e pesca. Pequim levou líderes do arquipélago até à China para apresentar tecnologia de mineração, ofereceu formação e bolsas de estudo a estudantes locais. Washington, temendo ficar para trás, reagiu rapidamente. Em agosto, fechou seu próprio acordo com o arquipélago para apoiar exploração científica e financiar projetos de mineração submarina. David Copley, antigo oficial da Marinha dos EUA e agora responsável pela pasta dos minerais na administração Trump, viajou pessoalmente para Rarotonga, a ilha mais populosa, e participou em reuniões formais num ambiente descontraído. Os representantes norte-americanos chegaram a sugerir ajudas concretas: construção de um aeroporto, disponibilização de navios oceanográficos, doação de um autocarro.
Esta competição reflete uma estratégia mais ampla de Washington. Em julho, a administração Trump anunciou planos para adquirir uma participação de 15% na MP Materials, a maior empresa de terras raras dos EUA, avaliada em vários milhares de milhões de dólares. Antes disso, pressionou a Ucrânia a assinar um acordo que facilitasse o acesso norte-americano a minerais ucranianos como compensação pelo apoio militar. Em abril, Trump assinou uma ordem executiva para acelerar projetos de mineração em alto-mar e prometeu começar a aprovar licenças para exploração em águas internacionais, embora estas áreas sejam tecnicamente governadas por tratados das Nações Unidas.
Para as Ilhas Cook, o quadro legal parece mais favorável aos EUA porque muitos depósitos estão dentro da zona económica exclusiva do arquipélago, o que teoricamente dá ao governo poder para conceder licenças. Mas o súbito interesse de delegações estrangeiras está a criar fraturas numa sociedade onde muitas negociações decorrem em calções e chinelos. Organizações ambientais locais soam o alarme. Kelvin Passfield, dirigente técnico da associação ambiental Te Ipukarea Society, questiona se o país consegue negociar de igual para igual com as superpotências. A dúvida não é apenas económica, mas também de soberania: conseguirá o arquipélago garantir que a exploração respeita regras ambientais e produz benefícios sustentáveis para a população?
O contexto económico das Ilhas Cook torna estas ofertas quase irrecusáveis. A economia depende fortemente do turismo e de ajuda externa. A emigração para a Nova Zelândia esvaziou a população e deixou lacunas na força de trabalho e nos serviços públicos. Quase todos os alimentos têm de ser importados, excepto peixe, cocos e alguns tubérculos. Nas ilhas mais remotas, acesso a cuidados médicos pode implicar dias de viagem de barco. A China tem investido no arquipélago há anos, financiando esquadras de polícia, escolas primárias e sistemas de irrigação. No acordo de fevereiro, Pequim comprometeu-se com cerca de 2,3 milhões de dólares em ajuda e projetos. Este entendimento agravou tensões internas e regionais. Houve protestos em Rarotonga, e a Nova Zelândia, tradicionalmente o maior parceiro e doador, suspendeu financiamento, argumentando que era preciso reconstruir confiança entre os dois países. O pequeno arquipélago encontra-se agora numa encruzilhada, equilibrando-se entre ofertas de duas superpotências enquanto tenta proteger seu futuro ambiental e económico.
Citas Notables
Questiona se o país consegue negociar de igual para igual com as superpotências e garantir que a exploração respeita regras ambientais— Kelvin Passfield, Te Ipukarea Society