Aos 87 anos, María del Carmen Abascal foi retirada à força do apartamento em Madri onde vivia há sete décadas — não por inadimplência, mas porque o mercado imobiliário decidiu que sua presença valia menos do que o lucro possível. O caso dela não é apenas uma tragédia individual: é o espelho de uma crise que transforma lares em ativos e inquilinos vulneráveis em obstáculos ao rendimento. Quando nem um pedido da ONU, nem a oferta de um doador anônimo, nem o clamor de artistas e governantes foram suficientes para deter o despejo, ficou evidente que algo fundamental sobre o direito à moradia está
Idosa despejada após 70 anos em apartamento de Madri simboliza crise habitacional espanhola
Sete décadas de vida dentro das mesmas paredes, nunca deixando de pagar
Como uma mulher consegue viver no mesmo lugar por 70 anos sem que ninguém a tire de lá?
Porque o contrato era antigo, de quando seu pai alugou em 1956. Ela herdou aquele direito, pagava regularmente, e ninguém tinha razão legal para removê-la — até a empresa imobiliária comprar o prédio em 2018 e argumentar que o contrato não podia ser transferido.
Mas espera. Ela realmente nunca deixou de pagar? Porque se ela pagava 500 euros e a empresa exigia 1.650, como ela conseguia?
Ela pagava os 500 que sempre havia pago. Recusava pagar o aumento. A empresa dizia que era insuficiente e levava para tribunal.
E ninguém conseguiu resolver isso? Um doador anônimo apareceu, certo?
Sim, ofereceu cobrir a diferença. Mas a Urbagestión recusou. Não era sobre o dinheiro — era sobre estabelecer que o contrato antigo não valia mais.
Então a empresa rejeitou uma solução que a deixaria com o aluguel completo?
Exatamente. E também rejeitou alternativas que os serviços sociais ofereceram a Maricarmen.
Por que ela recusou essas alternativas?
Porque tinha 87 anos, deficiência reconhecida, e queria morrer na casa onde viveu toda sua vida. Não era capricho — era dignidade.
A ONU pediu para suspender o despejo?
Pediu. Um comitê da ONU solicitou que as autoridades garantissem moradia alternativa antes de removê-la. Um tribunal de Madri ignorou o pedido.
E agora? Onde ela está?
No hospital. Ninguém sabe onde ela vai morar. Mas o caso dela está no centro do debate sobre fundos imobiliários e proteção de idosos na Espanha.
The Pulse
- Uma empresa imobiliária exigiu aumento de 275% no aluguel de uma idosa de 87 anos, tornando impossível que ela permanecesse na única casa que conheceu em toda a sua vida.
- Três tentativas de despejo ao longo de quase um ano mobilizaram vizinhos, artistas, sindicatos e até o primeiro-ministro espanhol — mas nenhuma pressão foi suficiente para dobrar a Urbagestión.
- O Comitê da ONU pediu suspensão do processo e um doador anônimo ofereceu cobrir a diferença do aluguel; a empresa recusou ambas as saídas e um tribunal ignorou o pedido internacional.
- Na manhã de 23 de setembro, a polícia usou spray de pimenta contra ativistas e removeu Maricarmen em uma maca, levada de ambulância para o hospital sem destino certo de moradia.
- A empresa ainda apresentou denúncia criminal contra o Sindicato dos Inquilinos, transformando quem defendia a idosa em réu — e revelando a disposição de usar o sistema jurídico como arma.
Aos 87 anos, María del Carmen Abascal foi retirada à força do apartamento em Madri onde vivia há sete décadas — não por inadimplência, mas porque o mercado imobiliário decidiu que sua presença valia menos do que o lucro possível. O caso dela não é apenas uma tragédia individual: é o espelho de uma crise que transforma lares em ativos e inquilinos vulneráveis em obstáculos ao rendimento. Quando nem um pedido da ONU, nem a oferta de um doador anônimo, nem o clamor de artistas e governantes foram suficientes para deter o despejo, ficou evidente que algo fundamental sobre o direito à moradia está em colapso na Espanha.
María del Carmen Abascal chegou àquele apartamento no bairro do Retiro, em Madri, em 1956. Tinha 17 anos. Quando a polícia bateu à sua porta na manhã de 23 de setembro de 2026, ela tinha 87 — e nunca havia deixado de pagar o aluguel de 500 euros mensais que cabia em sua aposentadoria de 1.350 euros.
Tudo mudou em 2018, quando o prédio foi adquirido pela imobiliária Urbagestión. A empresa exigiu que o aluguel passasse para 1.650 euros — um aumento de 275%. Maricarmen continuou pagando o valor de sempre. A resposta foi uma ordem de despejo.
Ao longo de quase um ano, três tentativas de remoção foram organizadas e, por três vezes, vizinhos e ativistas conseguiram adiar o inevitável. Artistas como Rozalén e Ismael Serrano foram às ruas. O primeiro-ministro Pedro Sánchez chamou o caso de tragédia. O Comitê da ONU pediu a suspensão do processo — pedido que um tribunal de Madri simplesmente ignorou.
Nos dias finais, um doador anônimo se ofereceu para cobrir a diferença entre o que Maricarmen podia pagar e o que a empresa exigia. A Urbagestión recusou. Os serviços sociais ofereceram uma vaga em residência pública. Maricarmen também recusou: ela queria apenas continuar onde havia vivido toda a sua vida.
Na manhã do despejo, a polícia isolou o quarteirão desde as 7h30. Dezenas de ativistas do Sindicato dos Inquilinos tentaram bloquear o acesso ao prédio e foram dispersados com spray de pimenta. Às 13h05, Maricarmen saiu em uma maca, levada de ambulância para o hospital. Ninguém sabia ainda onde ela dormiria.
O caso tornou-se o rosto mais visível de uma crise que se alastra pela Espanha: fundos de investimento adquirindo imóveis antigos, triplicando aluguéis e expulsando os mais vulneráveis. Como resposta à campanha de apoio à idosa, a Urbagestión ainda apresentou denúncia criminal contra o Sindicato dos Inquilinos e sua porta-voz. Uma mulher de 87 anos, despejada da única casa que conheceu, virou símbolo de um sistema que aprendeu a calcular o valor de tudo — exceto o de uma vida.
María del Carmen Abascal tinha 87 anos quando a polícia chegou ao seu apartamento no bairro do Retiro, em Madri, na manhã de 23 de setembro. Ela morava naquele lugar desde 1956 — sete décadas de vida dentro das mesmas paredes, primeiro com seus pais, depois sozinha após a morte deles. O aluguel que pagava era de aproximadamente 500 euros por mês, um valor que cabia em sua aposentadoria de 1.350 euros. Nunca havia deixado de pagar.
Em 2018, o prédio mudou de proprietário. A empresa imobiliária Urbagestión Desarrollo e Inversión SL, especializada em compra e gestão de ativos imobiliários, alegou que o contrato antigo não poderia ser mantido. Exigiu um aumento de 275 por cento, elevando o aluguel para 1.650 euros mensais. Para uma mulher vivendo de aposentadoria, a conta não fechava. Maricarmen continuou pagando os 500 euros que sempre havia pago. A imobiliária respondeu com ordens de despejo.
O primeiro despejo foi marcado para outubro de 2025. Seus vizinhos se mobilizaram, conseguindo impedir a remoção. Uma segunda tentativa foi agendada para junho de 2026, depois uma terceira. Cada vez, a comunidade ao redor dela se organizava. Artistas espanhóis como Rozalén e Ismael Serrano participaram de manifestações em frente ao prédio. O primeiro-ministro Pedro Sánchez chamou o despejo de tragédia. O Comitê da ONU solicitou a suspensão do processo até que alternativas de moradia fossem garantidas — um pedido que um tribunal de Madri ignorou.
Nos últimos momentos antes do despejo final, um doador anônimo apareceu disposto a cobrir a diferença entre o que Maricarmen podia pagar e o aluguel exigido. A Urbagestión recusou a oferta. Sua advogada, Beatriz Duro, confirmou que a empresa rejeitou essa solução. Os serviços sociais ofereceram alternativas — uma vaga em residência pública, um apartamento de moradia assistida. Maricarmen, que tinha deficiência reconhecida, recusou. Ela queria apenas continuar onde havia vivido toda sua vida.
No dia 23 de setembro, a polícia isolou a área a partir das 7h30 da manhã. Por volta das 10h45, agentes chegaram ao prédio. Dezenas de vizinhos e ativistas do Sindicato dos Inquilinos estavam lá para tentar impedir o despejo. A polícia usou spray de pimenta contra quem tentava bloquear o caminho. Às 13h05, Maricarmen foi removida em uma maca e levada de ambulância para o hospital. Ninguém sabia ainda onde ela moraria daqui para frente.
O caso havia se tornado o rosto visível de uma crise habitacional que assola a Espanha há meses. Fundos de investimento comprando propriedades antigas, aumentando aluguéis além do que inquilinos — especialmente idosos — conseguem pagar. Em junho, a Urbagestión havia apresentado uma denúncia criminal contra o Sindicato dos Inquilinos e sua porta-voz Valeria Racu, acusando-os de coação e difamação pela campanha em apoio a Maricarmen. A organização descreveu a ação como resposta aos meses de reivindicações.
Maricarmen expressou sua tristeza à imprensa espanhola. Agradeceu aos vizinhos e grupos que tentaram salvá-la. Enquanto isso, vozes por toda a Espanha exigem que os governos nacional e municipal responsabilizem a empresa, que esse tipo de ação seja evitado. Uma mulher de 87 anos, despejada da única casa que conheceu, tornou-se o símbolo de um sistema que prioriza lucro sobre pessoas.
Notable Quotes
Maricarmen expressou sua tristeza por ter que deixar a casa onde morava há anos e agradeceu aos vizinhos e grupos que tentaram impedir o despejo— Maricarmen, em declaração à imprensa espanhola
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez condenou o despejo, chamando-o de tragédia— Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha