Ibovespa sobe 1,11% e recupera 103 mil pontos contra aversão externa

Juros mais altos afetam diretamente as empresas mais alavancadas
Analista explica o efeito em cascata da política monetária sobre setores sensíveis da economia.
Mark

Por que a bolsa brasileira subiu quando o resto do mundo caía?

Mimi

As commodities ajudaram. Com a tensão entre China e Taiwan elevando os preços do petróleo, setores como mineração e energia ganharam fôlego. A Vale sozinha puxou bastante.

Mark

Mas isso é suficiente para explicar um ganho de 1,11% contra a aversão externa?

Mimi

Não é só isso. O mercado brasileiro estava muito deprimido. Às vezes um dia de recuperação técnica acontece mesmo quando o cenário externo é ruim. Além disso, investidores locais podem estar apostando que o Banco Central vai parar de subir juros em breve.

Mark

E essa história de Nancy Pelosi em Taiwan — isso realmente move o mercado de ações?

Mimi

Move, sim. Qualquer sinal de escalada militar entre potências nucleares assusta o mercado global. Mas curiosamente, neste caso, elevou o preço do petróleo, o que beneficia empresas brasileiras.

Mark

Então o Brasil ganhou com a tensão geopolítica?

Mimi

Ganhou, mas de forma limitada e frágil. A Vale subiu 3%, mas ainda está 6% abaixo do ano. É um alívio, não uma reversão.

Mark

O que preocupa mais — o Fed ou o Copom?

Mimi

Ambos. O Fed sinalizando 75 pontos-base assusta porque afeta fluxos globais. O Copom subindo 50 pontos-base amanhã afeta diretamente empresas endividadas e o crédito. São pressões que vêm de direções diferentes.

  • O Federal Reserve enviou sinais cada vez mais hawkish, com a probabilidade de um aumento de 75 pontos-base em setembro saltando de 29% para 40,5% em um único dia.
  • A visita de Nancy Pelosi a Taiwan elevou a tensão geopolítica entre Washington e Pequim, levando a China a anunciar exercícios militares e pressionando levemente os preços do petróleo para cima.
  • Enquanto o dólar subia 1,94% para R$ 5,2792 e derrubava setores como aviação e construção civil, as commodities sustentaram a bolsa brasileira contra a maré externa.
  • Vale ON disparou 3,19% e Locaweb avançou 8,72%, enquanto Via caiu 3,69% e Azul desabou 2,70%, revelando um mercado dividido entre vencedores e perdedores do cenário atual.
  • O Copom decide amanhã sobre a Selic, e especialistas alertam que juros mais altos já pesam sobre empresas alavancadas, crédito e consumo — setores que não encontram abrigo nas commodities.

Em meio a um cenário externo marcado por tensões geopolíticas em torno de Taiwan e sinais de aperto monetário nos Estados Unidos, o Ibovespa encontrou sua própria direção nesta terça-feira, encerrando em alta de 1,11% e alcançando 103.361 pontos. O suporte das commodities — com a Vale liderando os ganhos — funcionou como contrapeso ao pessimismo que dominava os mercados internacionais e ao dólar em valorização. No horizonte doméstico, a decisão do Copom sobre a Selic se aproxima, lembrando que os ciclos de juros têm consequências que se espalham silenciosamente por toda a economia.

Nesta terça-feira, o Ibovespa desafiou o pessimismo externo e fechou em alta de 1,11%, aos 103.361,70 pontos, com giro financeiro de R$ 25,3 bilhões. A performance contrastou com a queda dos mercados internacionais e a valorização do dólar, que subiu 1,94% para R$ 5,2792.

No exterior, dirigentes do Federal Reserve reforçaram o tom duro sobre a inflação. Loretta Mester, de Cleveland, foi direta ao afirmar que os preços ainda não arrefeceram. Com isso, os mercados futuros passaram a precificar com mais força um aumento de 75 pontos-base em setembro — a probabilidade subiu de 29% para 40,5% em apenas um dia. Paralelamente, a visita planejada de Nancy Pelosi a Taiwan acirrou as tensões com a China, que anunciou exercícios militares para o período da visita e havia ameaçado retaliar caso ela ocorresse. O episódio contribuiu para uma leve alta no petróleo.

Esse suporte das commodities foi o principal motor da bolsa brasileira. A Vale ON liderou os ganhos com alta de 3,19%, e o setor minero-siderúrgico performou bem no geral. Locaweb (+8,72%), Hapvida (+5,23%) e IRB (+3,65%) figuraram entre os destaques positivos. No campo negativo, Via caiu 3,69%, Cyrela recuou 3,02% e Azul desabou 2,70%, penalizada diretamente pelo dólar forte. O setor bancário teve dia positivo, com Bradesco PN subindo 1,73% na véspera da reunião do Copom.

No front doméstico, o mercado aguarda a decisão do Copom sobre a Selic, com expectativa de alta de 50 pontos-base. Romero de Oliveira, da Valor Investimentos, lembrou que juros mais altos encarecem o serviço da dívida das empresas alavancadas, restringem o crédito — especialmente na construção civil — e freiam o consumo. Assim, enquanto as commodities sustentavam a bolsa, os efeitos do aperto monetário continuavam a se acumular nos bastidores da economia.

Enquanto os mercados internacionais recuavam e o dólar subia contra o real, a bolsa brasileira encontrou seu próprio caminho nesta terça-feira. O Ibovespa fechou em alta de 1,11%, alcançando 103.361,70 pontos — um resultado que surpreendeu pela contramão em relação ao pessimismo que dominava o exterior. O índice operou entre a mínima de 101.693,98 e a máxima de 103.659,68 pontos, começando o dia aos 102.225,08. O giro financeiro, ainda em recuperação gradual, somou R$ 25,3 bilhões. Na semana, o Ibovespa avança 0,19%, e a perda acumulada no ano ficou limitada a 1,39%.

O cenário internacional permanecia tenso. Autoridades do Federal Reserve — Charles Evans de Chicago, Mary Daly de São Francisco e Loretta Mester de Cleveland — fizeram declarações que o mercado interpretou como sinais de endurecimento. Mester foi particularmente clara ao afirmar que a inflação não havia arrefecido. Os mercados futuros na CME começaram a precificar com mais força a possibilidade de um aumento de 75 pontos-base na taxa de juros em 21 de setembro, acima dos 50 pontos-base que vinham sendo esperados. A probabilidade de um corte maior subiu de 29% para 40,5% em apenas um dia, enquanto a expectativa por 50 pontos-base caiu de 71% para 59,5%.

Outro fator de tensão geopolítica ganhou relevância ao longo do dia: a visita planejada de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, à ilha de Taiwan. A Guide Investimentos apontou em nota que o desembarque de Pelosi poderia ser visto como uma afronta à autoridade chinesa, que já havia ameaçado retaliar caso a visita ocorresse. Taiwan, reivindicada por Pequim como parte indivisível de seu território e descrita pelos líderes chineses como uma "província rebelde" desde o fim da Guerra Civil Chinesa, tornou-se novamente ponto de fricção em um cenário já marcado por disputas geopolíticas entre Ocidente e Oriente. A China programou exercícios militares para ocorrer entre quinta e domingo, durante a visita, o que contribuiu para elevar ligeiramente os preços do petróleo.

Este suporte das commodities foi decisivo para o desempenho da bolsa brasileira. A Petrobras, embora com ganhos enfraquecidos no fechamento (ON +0,05%, PN +0,45%), recebeu algum amparo. As ações do complexo minero-siderúrgico saíram-se melhor, com a Vale ON liderando os ganhos ao subir 3,19%, apesar de ainda acumular queda de 6,42% no ano. No topo do índice, Locaweb disparou 8,72%, Hapvida avançou 5,23% e IRB subiu 3,65%. Do lado oposto, Via caiu 3,69%, Cyrela recuou 3,02%, Eztec perdeu 2,80% e Azul desabou 2,70%, esta última afetada diretamente pela valorização do dólar, que subiu 1,94% na sessão para R$ 5,2792. O setor bancário teve dia positivo, com Bradesco PN à frente com ganho de 1,73%, na véspera da reunião do Copom e próximo à divulgação dos resultados trimestrais da instituição.

No front doméstico, o mercado se preparava para a decisão do Copom sobre a taxa Selic, marcada para amanhã. A expectativa é por um novo aumento de 50 pontos-base. Romero de Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos, explicou os efeitos em cascata dessa trajetória de juros crescentes. "Juros mais altos afetam diretamente as empresas mais alavancadas, com serviços de dívida mais altos, com impacto negativo sobre a parte financeira dessas empresas", disse. Além do endividamento corporativo, a elevação de juros restringe a disponibilidade de crédito, especialmente em setores como construção civil que dependem fortemente do financiamento. Por fim, juros maiores reduzem o consumo e o aquecimento geral da atividade econômica. Assim, enquanto a bolsa respirava com o suporte das commodities, os sinais de aperto monetário continuavam a pesar sobre setores sensíveis à taxa de juros.

A inflação não esfriou de forma alguma
— Loretta Mester, Federal Reserve de Cleveland
Juros mais altos afetam diretamente as empresas mais alavancadas, com serviços de dívida mais altos, com impacto negativo sobre a parte financeira dessas empresas
— Romero de Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos
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