Ibovespa fecha setembro em alta de 0,47%, descolando-se de quedas globais

Brasil apostava em queda de juros enquanto o mundo apertava
O Ibovespa fechou setembro no verde graças a dinâmicas internas distintas daquelas que moviam os mercados externos.
Mark

Por que o Ibovespa conseguiu fechar setembro no verde quando tudo lá fora estava caindo?

Mimi

O Brasil estava em um momento diferente do ciclo de juros. Enquanto o Fed apertava a política monetária, o Banco Central mantinha a Selic inalterada e o mercado já precificava quedas de juros para frente. Isso beneficiou setores ligados à economia interna.

Luke

Mas isso é uma aposta, certo? O mercado está precificando quedas de juros que ainda não aconteceram. Se as eleições trouxerem sinalizações fiscais ruins, essa curva pode virar.

Mimi

Exatamente. Por isso os analistas dizem que fica difícil traçar cenários sem saber o resultado das eleições. É uma aposta condicional.

Mark

E o dólar? Subiu 3% no mês, mas fechou praticamente estável na sexta. Como isso se encaixa?

Mimi

O dólar subiu ao longo de setembro porque o Fed sinalizou juros mais altos por mais tempo, fortalecendo a moeda americana globalmente. Mas na sexta-feira, quando o Ibovespa disparou 2,20%, o real recuperou um pouco.

Luke

Recuperou 0,02%, para ser preciso. Não é exatamente uma reversão. O real ainda está 3% mais fraco no mês.

Mark

Quais setores puxaram o Ibovespa para cima?

Mimi

Construção civil, educação e financeiro. As construtoras como Cyrela subiram quase 30% porque juros mais baixos tornam projetos imobiliários mais viáveis. Educação também se beneficia de um ambiente com juros em queda.

Luke

Mas isso pressupõe que os juros vão cair. Se não caírem, essas ações podem cair tanto quanto subiram.

Mark

E o que vem agora?

Mimi

Outubro é crucial. As eleições vão definir muito do que acontece com juros, câmbio e Bolsa. Além disso, dados de inflação tanto aqui quanto nos EUA continuam em foco.

Luke

E se a inflação americana não ceder? Aí a pressão externa volta com força total.

Mimi

Sim. O mercado brasileiro está apostando em um cenário específico. Se esse cenário não se concretizar, a descolagem do Brasil em relação ao mundo pode ser breve.

  • O Federal Reserve elevou juros em 75 pontos-base com tom mais duro que o esperado, derrubando Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq em mais de 8% no mês — o maior pessimismo em meses nos mercados desenvolvidos.
  • O dólar disparou globalmente, com o índice DXY saltando para 112 pontos, pressionando moedas emergentes e fazendo o real ceder quase 3% frente à moeda americana em setembro.
  • Enquanto o mundo apertava o cinto monetário, o Banco Central brasileiro manteve a Selic estável e a curva de juros local fechou em queda — sinalizando um ciclo diferente e abrindo espaço para apostas domésticas.
  • Construtoras como Cyrela (+29,59%), MRV (+22,86%) e EzTec (+17,61%) lideraram os ganhos do Ibovespa, beneficiadas diretamente pela expectativa de crédito mais barato à frente.
  • Outubro chega carregado: eleições presidenciais, dados de inflação e sinalizações fiscais dos candidatos prometem redesenhar os cenários de juros, câmbio e Bolsa nos próximos meses.

Em setembro de 2022, enquanto os mercados americanos e europeus sucumbiam ao peso dos juros crescentes e do pessimismo global, o Ibovespa encerrou o mês no terreno positivo — um desvio raro da corrente dominante. O Brasil vivia um momento distinto do ciclo econômico: com a inflação já em trajetória de queda e a expectativa de juros menores à frente, setores sensíveis ao crédito floresceram onde outros murchavam. É o velho paradoxo dos mercados: o mesmo mundo, lido por ângulos diferentes, produz histórias opostas.

Setembro de 2022 terminou com o Ibovespa nadando contra a maré. Enquanto Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq acumulavam quedas superiores a 8% no mês, o índice brasileiro fechou com modesta alta de 0,47%, aos 110.036 pontos — sustentado por um avanço de 2,20% apenas na última sexta-feira. O contraste era revelador: o Brasil e o mundo estavam em momentos distintos do ciclo econômico.

A pressão sobre os mercados internacionais vinha do Federal Reserve, que elevou juros em 75 pontos-base com um comunicado mais duro que o esperado, alimentando o temor de recessão. O dólar se fortaleceu globalmente — o índice DXY saltou de 108 para 112 pontos —, e o real cedeu quase 3% no mês, embora tenha mostrado estabilidade na última sessão.

No Brasil, o movimento era inverso. O Banco Central manteve a Selic inalterada e a curva de juros local fechou em queda: os contratos para 2027 recuaram 14 pontos-base, para 11,53%. Essa perspectiva de juros menores beneficiou diretamente setores sensíveis ao crédito. As construtoras foram as protagonistas do mês — Cyrela subiu 29,59%, MRV avançou 22,86% e EzTec ganhou 17,61%. Empresas de educação como Cogna e Yduqs também se destacaram, assim como o setor financeiro.

Nem tudo foi celebração: IRB Brasil despencou 32,93%, Marfrig recuou 24,94% e São Martinho perdeu quase 20%. Mas o saldo geral foi positivo, sustentado pela aposta coletiva em uma trajetória de juros decrescentes no país.

Outubro, porém, prometia complexidade. As eleições presidenciais lançavam sombra de incerteza sobre juros, câmbio e Bolsa, e analistas admitiam dificuldade em traçar cenários sem conhecer ao menos o resultado do primeiro turno. Dados de inflação — no Brasil e nos EUA — e sinalizações fiscais dos candidatos seriam determinantes para o próximo capítulo dessa história.

Setembro terminou com o Ibovespa navegando contra a corrente global. Enquanto os principais índices americanos — Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq — fechavam a sexta-feira em queda de 1,71%, 1,51% e 1,51% respectivamente, o benchmark brasileiro avançava 2,20% no dia, encerrando o mês com ganho modesto de 0,47%, aos 110.036 pontos. A performance mensal americana foi bem mais severa: quedas acumuladas de 8,68%, 8,91% e 9,66% para os três índices, deixando claro que o Brasil estava fora do padrão de pessimismo que dominava os mercados internacionais.

O cenário global que pressionava os ativos americanos era conhecido: o Federal Reserve havia elevado a taxa de juros em 75 pontos-base no dia 21, movimento amplamente esperado, mas acompanhado de um comunicado em tom mais duro que levou investidores a precificar uma taxa terminal ainda mais elevada. Jerome Powell e seus colegas não conseguiram convencer o mercado de que conseguiriam controlar a inflação sem desencadear uma recessão. Antes disso, dados de inflação americana acima das expectativas já haviam abalado a confiança. Na Europa, aumentos de juros e a crise energética do continente somavam-se ao quadro. Notícias da China completavam o cenário de desânimo. Tudo isso fortalecia o dólar: o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a outras de países desenvolvidos, saltou de 108 pontos para 112,12 pontos no mês.

O real, porém, mostrou relativa estabilidade nesta sexta-feira, perdendo apenas 0,02% frente ao dólar. No acumulado de setembro, porém, a moeda americana subiu quase 3% frente ao real, refletindo a pressão global sobre ativos emergentes. Apesar disso, o Ibovespa conseguiu fechar no verde graças a dinâmicas internas distintas daquelas que moviam os mercados externos.

O Brasil estava em um momento diferente do ciclo de juros. Enquanto o Fed apertava, o Banco Central brasileiro mantinha a Selic inalterada no mesmo dia 21 de setembro. Mais significativo: a curva de juros brasileira fechou em queda nesta sexta-feira, movimento contrário à tendência internacional. Os treasuries de dez anos subiram 7,8 pontos-base para 3,825%, mas os contratos de juros brasileiros caíram — os DIs para 2024 recuaram nove pontos-base para 12,77%, os para 2027 caíram 14 pontos para 11,53%, e os para 2031 cederam 15 pontos para 11,80%. Essa expectativa de queda de juros no Brasil beneficiou setores específicos da economia.

As construtoras foram as grandes vedetes de setembro. As ações ordinárias da Cyrela subiram 29,59%, liderando os ganhos do índice, seguidas pela MRV com 22,86% e pela EzTec com 17,61%. O setor de construção civil fazia sentido como destaque: em um cenário de provável queda de juros, as empresas do setor ganham apelo. O Brasil havia conseguido controlar sua inflação primeiro em relação a outras economias, com as projeções e índices caindo há algum tempo. O setor financeiro também se destacou, impulsionado pelo fim do ciclo de aperto monetário. Companhias de educação também tiveram bom desempenho — Cogna subiu 18,55% e Yduqs avançou 17,38%.

Nem tudo foi ganho. As ações do IRB Brasil caíram 32,93%, Marfrig recuou 24,94% e São Martinho perdeu 19,90%. Mas o saldo do mês foi positivo para o índice como um todo, sustentado pela aposta em uma trajetória de juros decrescentes no Brasil enquanto o mundo enfrentava aperto monetário.

Octubro traria novos desafios. As eleições presidenciais brasileiras, marcadas para o final do mês, pairavam como incerteza sobre o cenário de juros, câmbio e Bolsa. Analistas admitiam dificuldade em traçar cenários sem conhecer o resultado eleitoral ou, pelo menos, uma prévia. Se houvesse segundo turno, o resultado do primeiro turno seria crucial. Dados de inflação, tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos, continuariam em foco. No Brasil, as atualizações recentes sugeriam melhoria, o que poderia aliviar o temor de juros altos por tempo prolongado. Mas qualquer sinalização fiscal dos próximos presidentes seria determinante para a curva de juros brasileira. E se a inflação americana permanecesse elevada, as movimentações no exterior tenderiam a pressionar os ativos brasileiros novamente.

No contexto global, os mercados em setembro continuaram o movimento de queda, levando seus índices a revisitar as mínimas do ano
— Roberto Chagas, head de renda variável da EQI Asset
Faz algum sentido o setor de construção civil ser destaque no mês, dado o cenário que temos daqui para a frente, de provável queda dos juros
— Luiz Adriano Martinez, portfólio manager da Kilima Asset
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