Em um momento em que a pandemia aprofundava sua sombra sobre o Brasil, o Ibovespa encontrou sustento nas forças mais antigas do capitalismo: as commodities. Na terça-feira, 6 de janeiro de 2021, o índice fechou em alta de 0,44%, impulsionado por Petrobras e Vale, enquanto tensões geopolíticas no Oriente Médio e acordos da Opep+ elevavam o petróleo a patamares que o mercado financeiro soube aproveitar. Era o retrato de um tempo em que a lógica dos mercados e a lógica da vida humana pareciam orbitar em mundos distintos.
Ibovespa fecha em alta com commodities superando preocupações pandêmicas
Os ganhos nas commodities eram suficientemente robustos para ofuscar as angústias pandêmicas
Por que o Ibovespa subiu se o Brasil estava enfrentando mais casos de coronavírus naquele momento?
As commodities — especialmente petróleo e minério de ferro — tiveram um dia muito forte. A Petrobras e a Vale puxaram o índice para cima, e isso foi suficiente para superar as preocupações com a pandemia.
Mas isso é uma decisão consciente dos investidores ou apenas uma coincidência de timing? O mercado estava realmente ignorando a pandemia, ou simplesmente reagindo a notícias de curto prazo?
E quanto às eleições na Geórgia? Por que isso importava tanto para o mercado brasileiro?
Porque investidores temem um Congresso democrata. Eles acreditam que isso poderia significar mais regulação e intervenção estatal na economia americana, o que afetaria mercados globais.
Mas é importante notar que essa preocupação era especulativa. Não havia certeza sobre o que um Congresso democrata faria; era mais sobre o medo do desconhecido.
O Trump realmente tinha chances de reverter o resultado na Geórgia?
Não, praticamente nenhuma. Mesmo que conseguisse uma recontagem, o voto de Kamala Harris como vice-presidente desempataria qualquer resultado próximo.
E vale lembrar que Trump não apresentou provas de fraude. Ele pediu a recontagem, mas sem fundamentação concreta.
Então o mercado estava certo em ignorar esse risco político?
Talvez. Os ganhos nas commodities eram reais e imediatos. O risco político era mais distante e, no fim, menos provável.
Mas "ignorar" é uma palavra forte. O mercado estava ponderando riscos diferentes com pesos diferentes. Nem sempre isso dá certo.
El Pulso
- A captura de um navio sul-coreano pelo Irã acendeu alarmes no Oriente Médio e disparou o petróleo Brent em mais de 5%, alimentando os ganhos da Petrobras e reaquecendo o Ibovespa.
- Vale e Petrobras dominaram o pregão como locomotivas do índice, com a mineradora flertando com a marca histórica de R$ 100,00 por ação.
- O volume financeiro de R$ 31,6 bilhões e a queda do dólar comercial sinalizaram um ambiente de apetite por risco, mesmo com o coronavírus avançando no país.
- As eleições na Geórgia dividiam a atenção dos investidores: um Congresso americano inteiramente democrata representava, para muitos, um risco de maior intervenção estatal e mudanças regulatórias.
- A matemática constitucional americana, com Kamala Harris como desempatadora no Senado, tornava a vitória democrata praticamente inevitável — e os mercados já calculavam as consequências.
Em um momento em que a pandemia aprofundava sua sombra sobre o Brasil, o Ibovespa encontrou sustento nas forças mais antigas do capitalismo: as commodities. Na terça-feira, 6 de janeiro de 2021, o índice fechou em alta de 0,44%, impulsionado por Petrobras e Vale, enquanto tensões geopolíticas no Oriente Médio e acordos da Opep+ elevavam o petróleo a patamares que o mercado financeiro soube aproveitar. Era o retrato de um tempo em que a lógica dos mercados e a lógica da vida humana pareciam orbitar em mundos distintos.
Na terça-feira, 6 de janeiro de 2021, o Ibovespa fechou em alta de 0,44%, atingindo 119.376 pontos, em um pregão marcado pela contradição entre o avanço do mercado e o agravamento da crise sanitária no Brasil. Os ganhos vieram, sobretudo, de Petrobras e Vale — dois gigantes das commodities que funcionaram como escudo contra o pessimismo pandêmico.
O cenário internacional ofereceu combustível precioso para a alta. Um navio de bandeira sul-coreana capturado pelo Irã acirrou as tensões no Oriente Médio, empurrando o barril de Brent 5,07% para cima, a US$ 53,68. A Opep+ reforçou o movimento ao oficializar cortes na oferta de petróleo. A Vale, por sua vez, aproximou-se da marca de R$ 100,00 por ação. O volume total negociado chegou a R$ 31,6 bilhões, enquanto o dólar comercial recuou 0,15%, fechando em R$ 5,2598 na compra.
Nem tudo era euforia, porém. As eleições na Geórgia dominavam os cálculos dos investidores: a possibilidade de os democratas conquistarem também a Câmara dos Representantes gerava temor de maior intervenção estatal e avanço acelerado das pautas do governo Biden. Donald Trump, ainda contestando sua derrota, pedia recontagem de votos no estado sem apresentar evidências concretas.
A aritmética constitucional, contudo, trabalhava contra Trump: em caso de empate no Senado, seria Kamala Harris — vice-presidente eleita e democrata — quem desempataria. Biden tinha, portanto, duas rotas para a vitória. Enquanto o impasse político americano se desenrolava, o Brasil avançava em sua campanha de vacinação, e o mercado seguia mais atento ao preço do barril do que às cifras crescentes da pandemia.
Na terça-feira, o Ibovespa encerrou o pregão em alta de 0,44%, alcançando 119.376 pontos, enquanto o Brasil registrava um aumento preocupante no número de casos de coronavírus. A contradição entre a trajetória ascendente do mercado e a crise sanitária que se aprofundava revelava uma dinâmica que caracterizava aquele momento: os ganhos nas commodities eram suficientemente robustos para ofuscar as angústias pandêmicas que cercavam investidores e cidadãos.
Dois nomes dominaram o movimento de alta. A Petrobras (PETR3 e PETR4) e a Vale (VALE3) foram os principais motores do índice. A mineradora aproximou-se da marca de R$ 100,00, continuando a otimizar ganhos que vinham se acumulando. Para a petroleira, o cenário internacional oferecia combustível: um navio de bandeira sul-coreana havia sido capturado pelo Irã, acirramento que elevou a tensão no Oriente Médio e, consequentemente, os preços do petróleo em escala global. Além disso, a Opep+ havia oficializado um acordo para reduzir a oferta de crude, movimento que pressionou os preços para cima. O barril de Brent subiu 5,07%, fechando em US$ 53,68.
O volume de negociações foi expressivo: R$ 31,6 bilhões movimentados durante o dia. A moeda americana também recuou, com o dólar comercial caindo 0,15% e fechando em R$ 5,2598 para compra e R$ 5,2603 para venda. O dólar futuro com vencimento em fevereiro recuou 0,21%, atingindo R$ 5,291. O mercado de juros futuros acompanhou o movimento positivo, com as taxas futuras registrando altas significativas: o contrato de DI para janeiro de 2022 avançou 9 pontos-base, fechando em 2,91%; o de janeiro de 2023 subiu 13 pontos-base para 4,31%; o de 2025 ganhou 14 pontos-base e alcançou 5,80%; e o de 2027 avançou 11 pontos-base, chegando a 6,51%.
Porém, nem tudo era otimismo nos cálculos dos investidores. As eleições na Geórgia, que ocorriam naquele primeiro fim de semana de 2021, capturavam atenção significativa. Para os operadores de mercado, era crucial que os republicanos mantivessem o controle da Câmara dos Representantes. A vitória democrata na presidência com Joe Biden já havia gerado preocupação; agora, a possibilidade de que os democratas também conquistassem a Câmara representava um cenário que muitos investidores temiam. Um Congresso inteiramente sob controle democrata poderia acelerar pautas do Executivo, mas também poderia significar maior intervenção estatal na economia e mudanças regulatórias mais agressivas.
Donald Trump, inconformado com sua derrota, havia pedido a recontagem de votos na Geórgia, alegando que teria vencido naquele estado, embora não apresentasse evidências que sustentassem a afirmação. Esse impasse político preocupava os investidores porque um Congresso dividido — com a Câmara e o Senado em mãos diferentes — tornaria mais difícil a aprovação de medidas ambiciosas do governo Biden. Projetos importantes demorariam para avançar, e alguns poderiam ficar completamente travados.
Há, porém, um detalhe constitucional que tornava os esforços de Trump praticamente inúteis. Caso houvesse um empate no Senado, seria o vice-presidente quem desempataria a votação presidencial. E o vice-presidente eleito era Kamala Devi Harris, democrata. Isso significava que, mesmo que a Geórgia recontasse seus votos, Biden teria duas oportunidades de vencer: uma pela votação direta e outra pelo voto de Harris em caso de empate. A matemática política, portanto, apontava para uma vitória democrata praticamente garantida.
Enquanto esses impasses políticos se desenrolavam nos Estados Unidos, o Brasil prosseguia com sua campanha de vacinação, buscando proteger a população durante a pandemia que ainda marcava o início de 2021. O mercado, porém, parecia mais atento aos preços do petróleo e aos ganhos das grandes mineradoras do que às cifras crescentes de infectados e mortos pelo coronavírus.
Citas Notables
Um Congresso inteiramente sob controle democrata poderia acelerar pautas do Executivo, mas também poderia significar maior intervenção estatal na economia— análise de investidores sobre as eleições na Geórgia