Nos primeiros dias de 2024, o Ibovespa sentiu o peso de uma promessa que o mundo havia feito a si mesmo: a de que os juros americanos cairiam rápido e fundo. Dados de emprego e atividade econômica nos Estados Unidos, mais robustos do que o esperado, abalaram essa narrativa e afastaram o capital estrangeiro que havia inundado a bolsa brasileira nos meses anteriores. O que parecia uma virada de ano promissora revelou-se, em seu terceiro pregão, uma ressaca — lembrete de que mercados construídos sobre expectativas são tão frágeis quanto elas.
Ibovespa cai com desvanecimento da aposta em cortes de juros americanos
Os bilhões perigavam ir embora da bolsa nacional
Por que exatamente dados bons de emprego e atividade econômica assustaram o mercado?
Porque o mercado havia apostado tudo em uma economia fraca. Se a economia está forte, o Federal Reserve não precisa cortar juros. E sem cortes de juros americanos, o Brasil perde seu principal atrativo para capital estrangeiro neste momento.
Mas isso não deveria ser bom para a economia americana?
Sim, é bom para a economia americana. Mas o mercado não quer uma economia americana boa agora. Quer uma economia fraca o suficiente para justificar cortes de juros. É a diferença entre o que é bom para a economia real e o que é bom para os preços dos ativos.
Então R$ 45 bilhões entraram no Brasil baseados em uma suposição que pode não se concretizar?
Exatamente. Entraram entre novembro e dezembro porque o mercado tinha certeza de que haveria seis cortes de juros em 2024. Agora o Federal Reserve sinaliza apenas três. Essa mudança de expectativa é suficiente para fazer bilhões saírem.
Os investidores brasileiros também estão saindo?
Alguns estão realizando lucros e migrando para renda fixa. Mas o movimento mais preocupante é o dos estrangeiros. Eles têm alternativas globais. Se o Brasil não oferece mais o prêmio de juros menores, por que ficar aqui?
E o que o Brasil pode fazer?
Pouco, no curto prazo. O Brasil está refém das decisões do Federal Reserve. O que importa agora é se a inflação americana cede ou não. Se ceder, talvez haja espaço para cortes. Se não ceder, os juros americanos podem ficar altos por muito mais tempo.
Isso significa que o Ibovespa pode cair mais?
Depende de como os próximos dados americanos saírem. Mas sim, se a narrativa de juros menores desaparecer completamente, o fluxo de capital estrangeiro pode se reverter de forma mais agressiva.
El Pulso
- A tese que sustentou a alta da bolsa brasileira no fim de 2023 — seis cortes de juros pelo Fed ao longo de 2024 — começou a desmoronar com dados americanos surpreendentemente fortes.
- O Ibovespa caiu 1,21% e acumula perda de 2,21% nos três primeiros pregões do ano, com 80 das 87 ações listadas no vermelho.
- Os R$ 45 bilhões em capital estrangeiro que chegaram ao mercado acionário brasileiro entre novembro e dezembro estão em risco de reversão, pressionando setores como varejo, tecnologia e construção.
- Ações como MRV, Alpargatas e Casas Bahia lideraram as perdas, refletindo a fuga de ativos mais sensíveis ao ciclo de juros.
- O mercado aguarda os dados consolidados do emprego americano e os índices de inflação para calibrar se a narrativa de cortes pode ser parcialmente recuperada — ou definitivamente enterrada.
Nos primeiros dias de 2024, o Ibovespa sentiu o peso de uma promessa que o mundo havia feito a si mesmo: a de que os juros americanos cairiam rápido e fundo. Dados de emprego e atividade econômica nos Estados Unidos, mais robustos do que o esperado, abalaram essa narrativa e afastaram o capital estrangeiro que havia inundado a bolsa brasileira nos meses anteriores. O que parecia uma virada de ano promissora revelou-se, em seu terceiro pregão, uma ressaca — lembrete de que mercados construídos sobre expectativas são tão frágeis quanto elas.
O ano começou com uma ressaca. A tese que havia sustentado os ganhos da bolsa brasileira nos últimos meses — a de que o Federal Reserve cortaria juros seis vezes ao longo de 2024 — foi abalada logo no terceiro pregão, quando dados americanos de atividade econômica e emprego vieram mais fortes do que o esperado. O Ibovespa encerrou a quinta-feira em queda de 1,21%, aos 131.226 pontos, com 80 das 87 ações listadas no vermelho e volume 17% abaixo da média anual.
A culpa não era do Brasil. Uma economia americana resiliente destruía a premissa central do otimismo global: se os dados são fortes, o Fed não precisa cortar juros. E sem cortes, os ativos de mercados emergentes perdem parte de seu apelo. O Brasil havia sido o grande beneficiário dessa aposta — entre novembro e dezembro, o fluxo anual de dólares estrangeiros no mercado acionário saltou de R$ 6 bilhões para R$ 45 bilhões. Agora, esse capital ameaçava se retirar.
O Fed vinha sinalizando, por meio de seus dirigentes, que a batalha contra a inflação não estava vencida — a meta é 2% ao ano, e a inflação americana fechou 2023 em 3%. O mercado havia ignorado esses avisos. Com os novos dados, não havia mais como fazê-lo. A curva de juros futuros no Brasil reagiu, e economistas revisaram para cima suas projeções para a taxa básica ao fim do ciclo de cortes.
As maiores perdas do dia concentraram-se nos setores que mais haviam se beneficiado da narrativa de juros menores: varejo, tecnologia e construção. Alpargatas recuou 6,47%, MRV caiu 6,12% e Casas Bahia perdeu 5,57%. O dólar cedeu levemente no dia, mas acumula alta de 1,13% no início do ano.
O que vem a seguir depende de dados ainda por divulgar — o relatório consolidado do mercado de trabalho americano e, depois, os índices de inflação. Os sinais, porém, não favorecem quem apostou em um ciclo de afrouxamento rápido e profundo. O Fed parece disposto a manter os juros elevados por mais tempo, e o sonho de um pouso suave da economia americana pode estar mais distante do que o mercado imaginou na virada do ano.
O ano começou com uma ressaca. Quem fechou 2023 apostando em recordes sucessivos na bolsa brasileira acordou na quinta-feira com notícias que desmantelavam a tese que havia sustentado os ganhos dos últimos meses. O Ibovespa caiu 1,21%, encerrando em 131.226 pontos, e acumula queda de 2,21% nos primeiros três pregões de 2024. De 87 ações listadas, 80 caíram. O volume de negócios ficou em R$ 15 bilhões, 17% abaixo da média dos últimos doze meses.
A culpa não era do Brasil. Era da América. Dados econômicos americanos divulgados na quinta-feira mostraram uma economia mais resiliente do que o mercado esperava. A atividade econômica acelerou em dezembro além das projeções. Pedidos de seguro-desemprego caíram mais que o previsto. A geração de empregos na iniciativa privada em novembro superou as expectativas. Nenhuma dessas notícias seria ruim em circunstâncias normais. Mas estas não eram circunstâncias normais. O mercado global havia construído uma narrativa inteira sobre o próximo ano: o Federal Reserve, o banco central americano, começaria a cortar juros em março, reduzindo a taxa básica seis vezes ao longo de 2024. Uma economia fraca justificaria esses cortes. Uma economia forte destruía a premissa.
O Brasil havia sido o beneficiário direto dessa aposta. Entre novembro e dezembro, o fluxo anual de dólares estrangeiros no mercado acionário brasileiro disparou de R$ 6 bilhões para R$ 45 bilhões. Investidores globais, buscando retornos em mercados emergentes, viram no Brasil um destino mais atrativo que a maioria dos concorrentes. A certeza de que juros americanos cairiam tornava os ativos brasileiros ainda mais atraentes: com juros menores nos EUA, o Brasil ofereceria prêmios maiores. Máximas foram renovadas no fim do ano passado graças a essa onda de capital estrangeiro.
Mas a tese carecia de bases sólidas. O Federal Reserve, através de seus dirigentes, vinha sinalizando reiteradamente que a luta contra a inflação não estava vencida. A inflação americana havia caído para 3% em 2023, mas a meta do banco central é 2% ao ano. Alguns dirigentes do Fed chegavam a especular sobre pequenos aumentos de juros antes de qualquer redução. Três cortes em 2024, não seis. Talvez nenhum corte se a inflação não cedesse. O mercado, satisfeito com os 3%, havia ignorado essas sinalizações. Agora, com dados mostrando uma economia forte, não havia como ignorar mais.
A reação foi imediata. Os prêmios pagos pela renda fixa americana, que precificavam seis cortes de juros espalhados por 2024, começaram a se reajustar. A curva de juros futuros no Brasil acusou o golpe. Economistas que vislumbravam quedas dos atuais 11,75% ao ano até 9% agora miravam em 9,50%. As taxas de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2025 subiram de 10,03% para 10,06%. Para janeiro de 2034, subiram de 10,41% para 10,55%. Quanto mais longo o prazo, maior a influência do que os mercados chamam de risco fiscal — o cheiro de calote do governo brasileiro.
E assim como vieram, os bilhões perigavam ir embora. Investidores mais ressabiados começaram a realizar lucros dos últimos meses, refazendo posições em renda fixa. O dólar caiu 0,15% no Brasil, a R$ 4,91, mas acumula alta de 1,13% no comecinho de 2024. As maiores quedas do dia foram em ações de varejo, tecnologia e construção — setores que mais se beneficiavam da narrativa de juros menores. Magalu caiu 3,50%. Cyrela recuou 3,61%. Arezzo despencou 4,50%. Casas Bahia perdeu 5,57%. MRV caiu 6,12%. Alpargatas recuou 6,47%.
O que vem a seguir dependerá de dados que ainda não foram divulgados. Nesta sexta-feira, o mercado aguardava números consolidados do mercado de trabalho americano. Depois viriam os dados de inflação em si. Os indícios, porém, não eram promissores para quem esperava a taxa básica americana descendo a ladeira sem freio em 2024. O Fed parecia disposto a frustrar o sonho de um pouso suave da economia americana — aquela recessão prevista que nunca chega. Com juros mantidos altos por bem mais tempo, talvez chegasse agora.
Citas Notables
O Fed parece disposto a frustrar o sonho de um pouso suave da economia americana, mantendo juros altos por bem mais tempo— Análise de mercado