Mercadante representa uma visão que o mercado associa a gastos maiores
Em um momento de transição política, os mercados brasileiros revelam sua sensibilidade às escolhas de pessoas e às sinalizações de política econômica: o Ibovespa recuou 2,38% na manhã de segunda-feira, reagindo a especulações sobre a possível nomeação de Aloizio Mercadante para o BNDES ou a Petrobras e ao temor de que a Lei das Estatais seja revogada. O episódio evoca memórias do governo Dilma e lembra que, nos mercados, o futuro é sempre julgado pelo peso do passado. Enquanto o país aguarda a votação da PEC da Transição e a composição da equipe econômica de Fernando Haddad, o capital faz o que sempre faz diante da incerteza: recua e espera.
- O Ibovespa despencou quase 2.600 pontos em menos de uma hora, com ações de estatais como Petrobras e Banco do Brasil liderando as perdas em meio a rumores sobre nomeações políticas.
- A possível chegada de Aloizio Mercadante ao BNDES ou à Petrobras acendeu o alerta do mercado, que teme uma gestão mais política do que técnica, evocando o legado econômico do governo Dilma.
- A ameaça de revogação da Lei das Estatais via medida provisória agrava o cenário, com analistas alertando que isso aumentaria despesas governamentais e ampliaria o rombo fiscal.
- No exterior, a expectativa de novas altas de juros nos EUA, Reino Unido e zona do euro, somada à incerteza sobre a política de covid na China, retira o fôlego de qualquer recuperação.
- Investidores fixam os olhos na votação da PEC da Transição na quarta-feira e nos nomes que Haddad escolherá para sua equipe econômica, buscando qualquer sinal de ancoragem fiscal.
A bolsa brasileira abriu a semana em queda abrupta, com o Ibovespa perdendo quase 2.600 pontos em menos de uma hora e chegando a recuar 2,73% durante a manhã. O gatilho foi uma onda de especulações sobre a possível nomeação de Aloizio Mercadante — coordenador técnico da equipe de transição do governo Lula — para a presidência do BNDES ou da Petrobras. A perspectiva gerou aversão ao risco imediata: Petrobras caiu mais de 5% nas preferenciais, Banco do Brasil recuou 3,37% e Eletrobras perdeu até 3,54%, mesmo com o petróleo em alta no mercado internacional.
O mercado teme dois cenários em particular. O primeiro é a revogação da Lei das Estatais por medida provisória, legislação criada no governo Temer que os investidores enxergam como um freio a gastos e à politização das empresas públicas. O segundo é o próprio perfil de Mercadante: analistas alertam que sua nomeação remeteria à política econômica do governo Dilma, marcada por uma gestão mais política do que técnica. Declarações recentes do economista sobre a intenção de 'abrasileirar' o preço dos combustíveis reforçaram esse temor.
O cenário externo também pesa. A expectativa de altas de juros nos Estados Unidos, no Reino Unido e na zona do euro reduz o apetite global por risco, enquanto a incerteza sobre a política de covid na China pressiona commodities como o minério de ferro, arrastando as ações da Vale.
O Ibovespa já acumulava queda de quase 4% na semana anterior, e o mercado segue sem sinais claros de alívio. As atenções se voltam para a votação da PEC da Transição na quarta-feira e para o anúncio dos nomes da equipe econômica de Fernando Haddad. A pesquisa Focus elevou marginalmente a projeção de inflação para 2025, sinal que analistas interpretam como uma desancoragem incipiente das expectativas. A ata do Copom e o Relatório Trimestral de Inflação, previstos para os próximos dias, serão lidos com atenção redobrada por um mercado que busca, acima de tudo, previsibilidade.
A bolsa brasileira entrou em queda acentuada na manhã de segunda-feira, perdendo quase 2.600 pontos em menos de uma hora de negociações. O Ibovespa saiu do patamar dos 107.500 pontos e caiu até 104.961,65 pontos, marcando uma retração de 2,38% — movimento que se intensificou ao longo do dia, chegando a recuar 2,73% por volta das 11h43, quando o índice operava em 104.584,34 pontos.
O gatilho para a queda foi uma onda de especulações sobre possíveis nomeações na estrutura do governo de transição. Aloizio Mercadante, ex-ministro e coordenador técnico da equipe que prepara a transição para o governo Lula, é apontado como possível presidente do BNDES ou da Petrobras. A perspectiva gerou aversão ao risco imediata na B3, contrastando com a leve alta dos índices futuros de ações norte-americanos. As ações das estatais desabaram: Petrobras recuou 5,02% nas preferenciais e 3,78% nas ordinárias, apesar da alta do petróleo no mercado internacional. Banco do Brasil caiu 3,37%, Eletrobras recuou entre 2,28% e 3,54%, e Vale perdeu quase 3%, ainda pressionada pela queda do minério de ferro na China.
O mercado financeiro teme duas coisas em particular. A primeira é a possibilidade de revogação da Lei das Estatais através de medida provisória. Essa legislação, aprovada durante o governo Temer, é vista pelos investidores como um freio importante para gastos e para a flexibilização de políticas. Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus, alertou que se a lei for revogada, as estatais trarão mais despesa ao governo e o BNDES aumentará o rombo fiscal. A segunda preocupação é a própria nomeação de Mercadante. O economista Matheus Pizzani, da CM Capital, explicou que sua ida para o BNDES seria vista negativamente pelo mercado porque remeteria à política econômica do governo Dilma — uma comparação que traz consigo memórias de gestão mais política do que técnica.
Recentemente, Mercadante reforçou a intenção do PT de ampliar a capacidade nacional de refino de petróleo para reduzir a exposição aos preços externos. Ele afirmou que o governo tentaria "abrasileirar" o preço do combustível. Essa declaração foi criticada por especialistas e agentes financeiros, que veem nela um sinal de que a Petrobras pode ganhar menos autonomia técnica e mais direcionamento político.
Além das preocupações domésticas, o mercado também digere notícias do exterior. Há expectativa de novas altas de juros esta semana nos Estados Unidos, Inglaterra e zona do euro. Pizzani destacou que juros mais altos reduzem o ritmo de crescimento global e afetam particularmente o setor externo. Na China, há incerteza sobre se a política zero de covid será mantida ou se o governo vai de fato flexibilizar as restrições.
O Ibovespa já acumulava queda de 3,94% na semana anterior, pressionado por preocupações fiscais que têm afastado as expectativas do mercado sobre um possível corte da Selic em breve. Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, observou que sem sinais claros do exterior, os ativos aguardam a tramitação da PEC da Transição na Câmara e continuam avaliando a formação do novo governo.
O Brasil aguarda dois eventos importantes nos próximos dias: a votação da PEC da Transição na quarta-feira e o possível anúncio de nomes que comporão a equipe econômica do futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Hoje, a pesquisa Focus manteve inalteradas as projeções para a Selic até 2025, mas elevou a expectativa de inflação para 2025, de 3,00% para 3,02%. Étore Sanchez e André Coelho, da Ativa Investimentos, alertaram que essa revisão, ainda que marginal, indica uma desancoragem das expectativas. Amanhã, a ata do Comitê de Política Monetária e, na quinta-feira, o Relatório Trimestral de Inflação devem ganhar atenção redobrada dos investidores, que buscam sinais sobre o rumo da política monetária em um cenário de incerteza fiscal.
Notable Quotes
Se a Lei das Estatais for revogada, as estatais vão dar mais gasto ao governo e o BNDES vai trazer mais rombo fiscal— Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus
Na perspectiva do mercado, seria negativa a ida de Mercadante para o BNDES, pois remeteria muito à política do governo Dilma— Matheus Pizzani, economista da CM Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o mercado reagiu tão dramaticamente a uma especulação sobre nomes? Não é comum?
É comum haver volatilidade com incerteza sobre nomeações, mas aqui há algo mais profundo. Mercadante representa uma visão de política econômica que o mercado associa a gastos maiores e menos autonomia técnica nas estatais.
E a Lei das Estatais? Por que ela importa tanto?
Ela é um freio. Limita quanto as estatais podem gastar e como podem ser usadas politicamente. Se for revogada, o governo ganha mais flexibilidade, mas o mercado vê isso como risco fiscal — mais despesa, menos disciplina.
Mercadante falou em "abrasileirar" o preço do combustível. Isso é ruim?
Para o mercado, sim. Significa usar a Petrobras para fins de política de preços, não apenas para lucro. Reduz a autonomia da empresa e aumenta o risco de que ela seja usada para controlar inflação em vez de ser gerida como negócio.
Mas o petróleo subiu lá fora. Por que Petrobras caiu tanto?
Porque o mercado está precificando o risco político, não apenas o preço do barril. Se há risco de que a empresa seja usada politicamente, o valor das ações cai independentemente do preço do petróleo.
O que o mercado está esperando agora?
A votação da PEC da Transição na quarta e os nomes que Haddad vai anunciar para sua equipe. Se forem nomes técnicos, o mercado respira. Se forem nomes mais políticos, a queda continua.
E se nada disso se resolver?
A incerteza permanece. Sem clareza sobre a direção fiscal e sobre quem vai comandar as estatais, os investidores vão continuar vendendo, especialmente em um cenário global de juros subindo.