Ibovespa cai 2,52% em maior queda de 2022 com temor inflacionário global

O governo estudava medidas para conter preços que o mercado sabia que viriam
Petrobras caiu 7% enquanto executivos buscavam aprovação para aumentar combustíveis.
Mark

Por que a Petrobras caiu tanto se o petróleo subiu?

Mimi

Porque o mercado sabe que o governo vai pressionar a companhia para não repassar esses aumentos aos consumidores. Bolsonaro já tinha dito que a paridade internacional "não pode continuar". Os investidores viram sinais de que mudanças na política de preços estavam sendo estudadas.

Mark

E a Vale subiu enquanto tudo caía. Como isso faz sentido?

Mimi

O minério de ferro é visto como indicador de saúde econômica global. Quando sobe, significa que a demanda por construção e infraestrutura continua. A China também sinalizou uma desaceleração menos severa que o esperado, o que ajudou.

Mark

As companhias aéreas caíram 17% e 18%. Isso é só pelo combustível?

Mimi

É principalmente isso. Quando o petróleo sobe, o custo operacional delas dispara. Não há como repassar isso integralmente aos passageiros sem perder demanda. É um aperto de margem direto.

Mark

O que preocupa mais os investidores neste momento — a inflação ou a recessão?

Mimi

Os dois simultaneamente. É o cenário mais assustador: preços subindo enquanto a economia desacelera. Não há saída fácil. Você não pode cortar gastos se está em recessão, mas precisa controlar inflação.

Mark

E o Brasil está particularmente vulnerável?

Mimi

Está. Porque depende de importações de petróleo e de insumos agrícolas. A guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia criam choques de oferta que o Brasil não controla. E politicamente, há pressão para não repassar custos, o que comprime margens.

  • Ibovespa caiu 2,52% para 111.593,46 pontos, maior queda desde 26 de novembro
  • Petrobras desabou 7,1% (PN) e 7,7% (ON), maiores quedas desde fevereiro de 2021
  • Petróleo Brent atingiu 139,13 dólares, maior nível desde julho de 2008
  • Azul caiu 18% e Gol 17,4%, maiores quedas desde março de 2020
  • Volume financeiro: 38,7 bilhões de reais

Ibovespa recuou 2,52% para 111.593,46 pontos, maior queda desde novembro, com volume de 38,7 bilhões de reais negociados. Petrobras desabou 7%, pressionada por temores sobre mudanças em sua política de preços, enquanto Vale subiu 3% com ganhos do minério de ferro.

O Ibovespa caiu 2,52% nesta segunda-feira, sua maior queda de 2022, acompanhando quedas globais em Wall Street. Investidores temem inflação e estagnação econômica após disparada do petróleo causada por sanções à Rússia.

A bolsa brasileira registrou sua pior sessão do ano na segunda-feira, com o Ibovespa desabando 2,52% para fechar em 111.593,46 pontos. Foi a queda mais acentuada desde 26 de novembro, com 38,7 bilhões de reais movimentados. O movimento acompanhou o pânico que tomou conta dos mercados globais, onde investidores enfrentavam um cenário duplo de temor: inflação acelerada e possível estagnação econômica, tudo alimentado pela disparada dos preços do petróleo após as sanções ocidentais contra a Rússia.

O barril de Brent ultrapassou 123 dólares no fechamento, tendo tocado 139,13 dólares durante o pregão — o maior nível desde julho de 2008. Os Estados Unidos e a Europa estudavam a possibilidade de banir importações de petróleo russo, o que tornaria ainda mais apertada uma oferta já reduzida. O presidente Joe Biden ainda não havia tomado decisão sobre o tema, segundo a Casa Branca. Havia também incerteza sobre negociações nucleares com o Irã, que poderiam resultar em sanções levantadas e mais petróleo no mercado — uma pressão que vinha pesando sobre os preços nas semanas anteriores.

O índice S&P 500 caiu quase 3% e o Nasdaq Composite desabou 3,6%, estabelecendo o tom para o dia. Daniel Xavier, economista do Banco ABC Brasil, observou que o Ibovespa estava alinhado com a aversão ao risco global, mas chamou atenção para um movimento específico: as ações da Petrobras caíram 7,1% (PN) e 7,7% (ON), as maiores quedas desde que o governo de Jair Bolsonaro trocou a liderança da companhia em fevereiro de 2021. O mercado reagiu a sinalizações de que o governo estudava medidas para conter os preços dos combustíveis, incluindo possíveis mudanças na metodologia de precificação da estatal. O próprio Bolsonaro havia declarado pela manhã que a paridade internacional nos preços "não pode continuar".

Enquanto isso, executivos da Petrobras se movimentavam nos bastidores para obter aprovação governamental a um aumento nos preços dos combustíveis em suas refinarias — um sinal de que a pressão política sobre a companhia era real e imediata. A Vale, por sua vez, subiu 3% após o minério de ferro atingir máxima de seis meses na China, impulsionado pela alta do petróleo e por projeções chinesas de desaceleração econômica menos severa que o esperado. CSN Mineração avançou 0,6% e Bradespar, que tem participação em Vale, ganhou 3,6%.

As companhias aéreas foram entre as maiores vítimas do dia. Azul desabou 18% e Gol afundou 17,4%, ambas registrando as piores quedas desde março de 2020, com o aumento dos custos de combustível pesando diretamente sobre suas perspectivas. CVC perdeu 10,5%. Os bancos também cederam: Itaú Unibanco caiu 2,2%, Bradesco cedeu 2,6%, Banco do Brasil perdeu 4,3% e Santander Brasil desvalorizou-se 3,1%.

O varejo sofreu pressão similar. Americanas desabou 10,2%, Lojas Renner cedeu 8,9% e Petz perdeu 9%, com ações ligadas ao consumo doméstico operando sob pressão dos temores com inflação e crescimento econômico. Em contraste, empresas do agronegócio — não integrantes do Ibovespa — mantiveram trajetória de alta. SLC Agrícola subiu 5,4%, Brasilagro avançou 2,2% e Vittia teve alta de 1,4%, beneficiadas pela disparada dos preços de grãos e insumos provocada pela guerra na Ucrânia. O dia deixava claro que o mercado brasileiro estava dividido entre setores que sofrem com a inflação e aqueles que lucram com ela.

O mercado reagiu a sinalizações de que medidas estavam sendo estudadas para baixar os preços dos combustíveis, incluindo possíveis mudanças na metodologia de precificação da Petrobras
— Daniel Xavier, Banco ABC Brasil
A paridade internacional nos preços não pode continuar
— Presidente Jair Bolsonaro
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