Fed elevou taxa básica em 0,25 ponto para 3,75%-4,00% e projeta mais aumentos este ano, sinalizando postura hawkish sobre inflação. Petrobras caiu 4,27% acompanhando queda do petróleo Brent; Braskem desabou 15% após rebaixamento do UBS BB para venda.
Ibovespa cai 0,51% com Petrobras após Fed elevar juros e sinalizar mais aperto
Mais alto por mais tempo volta a predominar
Por que o Banco Central americano elevar juros no mesmo dia em que o Brasil reduz a Selic é tão problemático para a bolsa?
Porque reduz o diferencial de juros entre os dois países. Um investidor estrangeiro que tinha razão para manter dinheiro em reais — porque ganhava mais com juros altos aqui — agora tem menos incentivo. Justamente quando há incerteza política e risco de crédito.
Mas espera. O corte da Selic ainda é só uma expectativa, não foi anunciado. O que realmente aconteceu foi o Fed apertar. Então tecnicamente o diferencial ainda não encolheu.
Verdade, mas o mercado já precifica isso. Os investidores já sabem que o corte vem, então já estão ajustando suas posições.
E por que o Fed está tão firme em apertar se a economia está forte? Não deveria estar relaxando?
Porque a inflação ainda não voltou à meta. O Fed quer deixar claro que vai manter juros altos por mais tempo — é o "higher for longer" que os economistas mencionam.
Mas o próprio Warsh disse que as condições financeiras não são restritivas o suficiente. Isso significa que, na visão dele, os juros atuais ainda não estão freando a economia. É um sinal de que pode haver mais apertos à frente.
Então o investidor estrangeiro está saindo porque vê juros caindo aqui e subindo lá?
Exatamente. E não é só o diferencial. É também o timing — uma eleição decisiva no Brasil e o crédito corporativo sob estresse. É muita incerteza de uma vez.
Os dados mostram saída líquida, mas é modesta — R$ 300 milhões em três dias. Não é um êxodo. Pode ser apenas reposicionamento.
O que o Banco Central brasileiro deveria fazer agora?
Comunicar com cautela. Não se comprometer com mais cortes automáticos. Deixar claro que está atento ao cenário externo.
E isso é exatamente o que os analistas esperam que ele faça. Se ele fizer isso, talvez o mercado respire melhor amanhã.
Il Polso
- Federal Reserve elevou taxa básica em 0,25 ponto para 3,75%-4,00%; 16 autoridades do Fed projetam mais um aumento até fim do ano
- Ibovespa recuou 0,51% para 185.547,66 pontos; volume financeiro de R$ 72,48 bilhões
- Petrobras PN caiu 3,53% e Petrobras ON perdeu 4,27%; Braskem desabou 15,17% após rebaixamento do UBS BB
- Selic esperada em 13,75% ao ano; diferencial de juros Brasil-EUA diminui com corte esperado
Fed elevou taxa básica em 0,25 ponto para 3,75%-4,00% e projeta mais aumentos este ano, sinalizando postura hawkish sobre inflação. Petrobras caiu 4,27% acompanhando queda do petróleo Brent; Braskem desabou 15% após rebaixamento do UBS BB para venda.
O Ibovespa recuou 0,51% após o Federal Reserve elevar juros e sinalizar mais apertos monetários em 2024, enquanto investidores aguardam decisão do Copom sobre redução da Selic.
A bolsa brasileira fechou em queda nesta quarta-feira, com o Ibovespa recuando 0,51% para 185.547,66 pontos. O movimento refletiu uma sessão marcada por cautela e posicionamento tático, enquanto investidores processavam dois sinais monetários simultâneos: o aperto nos Estados Unidos e a expectativa de alívio no Brasil.
O Federal Reserve elevou sua taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando-a para a faixa de 3,75% a 4,00%, na primeira alta desde 2023. A decisão foi unânime, mas o que mais pesou sobre os mercados foi o tom da comunicação que se seguiu. Kevin Warsh, presidente do Fed, afirmou que a economia americana se fortaleceu desde junho, enquanto a inflação mostrou pouca melhora. Ele também sinalizou que as condições financeiras atuais ainda não são restritivas o suficiente — ou seja, os juros ainda não estão freando a economia como gostariam. As projeções do Fed indicam que 16 autoridades esperam pelo menos mais um aumento de 0,25 ponto até o final do ano, enquanto apenas duas estimam estabilidade. Esse discurso, conforme avaliação de economistas, é claramente hawkish e reforça a perspectiva de "mais alto por mais tempo" para as taxas americanas.
No Brasil, o cenário era inverso. Investidores aguardavam a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central, com apostas apontando para uma redução da taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. Essa convergência de movimentos — aperto nos EUA e alívio no Brasil — criou uma dinâmica delicada para o mercado acionário local. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, resumiu o dia como uma sessão "refém da superquarta", marcada mais por posicionamento do que por convicção. O volume financeiro somou R$ 72,48 bilhões, em um pregão também afetado pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa.
O impacto mais imediato foi sobre o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Com o Fed sinalizando mais apertos e o Banco Central brasileiro cortando a Selic, a vantagem de manter recursos em reais diminui significativamente. Para investidores estrangeiros, essa redução do prêmio de juros ocorre em um momento particularmente sensível: às vésperas de uma eleição decisiva e com o crédito corporativo sob pressão. Os dados da B3 confirmaram essa dinâmica: houve saída líquida de capital externo em ações brasileiras, com o saldo positivo de setembro reduzindo de R$ 7,3 bilhões (até 11 de setembro) para R$ 7 bilhões (até 14 de setembro).
As ações mais sensíveis aos movimentos de juros sofreram o impacto mais direto. A Petrobras PN caiu 3,53% e a Petrobras ON perdeu 4,27%, acompanhando a queda do petróleo Brent, que recuou 2,69% para US$ 105,83 o barril. A Braskem, que não integra o Ibovespa, desabou 15,17% após analistas do UBS BB cortarem a recomendação para venda e reduzirem o preço-alvo de R$ 10,50 para R$ 3,75. Os analistas afirmaram não enxergar uma saída fácil para a situação atual da petroquímica, que havia enviado aos credores termos mais detalhados para reestruturação financeira, incluindo previsão de deságio na dívida.
Nem todos os setores sofreram igualmente. O varejo se beneficiou da expectativa de alívio monetário no Brasil. A Magazine Luiza avançou 6,64%, o Assaí subiu 4,66% e as Lojas Renner valorizaram-se 3,14%, endossadas pelo alívio nas taxas dos DIs com prazos mais longos. No setor bancário, o Banco do Brasil ON fechou em alta de 3,04%, enquanto o Itaú Unibanco PN caiu 0,12%, o Bradesco PN variou positivamente 0,05% e o Santander Brasil Unit recuou 0,96%. A Vale ON caiu 2,14%, em um pregão de oscilação modesta dos futuros do minério de ferro na China.
O grande ponto de atenção agora é como o Banco Central brasileiro comunicará sua decisão. Trevisan destacou que o que definirá o pregão de quinta-feira não é necessariamente o corte da Selic, mas sim o tom do comunicado. Ele espera um Banco Central cauteloso, sem se comprometer com a continuidade do ciclo de redução de juros. A questão que paira é como o governo Trump reagirá aos sinais do Fed — uma incógnita que economistas monitoram de perto, já que qualquer movimento do governo americano pode reconfigurar as expectativas de juros globais.
Citazioni salienti
A bolsa passou o dia refém da 'superquarta' e o pregão foi mais de posicionamento do que de convicção— Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital
A estabilidade dos preços vem sendo o problema há mais de cinco anos e meio— Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve