Ibovespa avança 0,89% após queda de 3%, mas segue pressionado por temores com liquidez

A velha economia dança ao ritmo das commodities; a tecnologia desaba quando os juros sobem
Reflexo de como dois mundos do mercado responderam diferentemente à sinalização de aperto monetário americano.
Mark

Por que o Ibovespa subiu tão pouco depois de uma queda tão grande?

Mimi

Porque a recuperação não foi impulsionada por confiança real. Foi apenas o mercado mais corajoso aproveitando descontos. Os medos que causaram a queda — a redução de estímulos do Fed — não desapareceram.

Mark

E por que a tecnologia caiu enquanto a velha economia subiu?

Mimi

Porque são dois mundos diferentes. A tecnologia viveu dos juros baixos e do dinheiro fácil. A velha economia, baseada em commodities, se beneficia quando a economia americana fica forte o suficiente para prescindir de ajuda.

Mark

Jerome Powell realmente mudou o tom do mercado em poucas horas?

Mimi

Sim. Ele sinalizou que a inflação pode exigir juros mais altos mais rápido. Isso assustou quem apostava em juros baixos para sempre. Os rendimentos dos títulos americanos subiram imediatamente.

Mark

O Brasil está preso nessa dinâmica ou tem alguma margem de manobra?

Mimi

Está preso. O Banco Central pode tentar atrair capital com Selic alta, mas se os juros americanos subirem muito, o dólar fica mais atrativo. É um jogo em que o Fed sempre tem a última palavra.

Mark

A inflação brasileira de 10% é um problema ou uma solução neste momento?

Mimi

Paradoxalmente, é uma solução temporária. Ela infla a arrecadação, criando um superávit primário que acalma a curva de juros local. Mas é artificial. O futuro ainda é trevoso.

  • Ibovespa subiu 0,89% nesta quarta, recuperação parcial após queda de 3%, acumulando perdas de 6,46% no mês
  • Banco Inter caiu 3,70%; Banco Pan caiu 1,93%; Magazine Luíza caiu 1,69%
  • Jerome Powell sinalizou que inflação pode exigir juros mais altos; retirada de estímulos pode começar em novembro
  • Usiminas subiu 6,15%; Vale subiu 1,27%; minério de ferro subiu 2% a 114 dólares por tonelada

Ibovespa subiu 0,89% nesta quarta, recuperação parcial após queda de 3% no pregão anterior, acumulando perdas de 6,46% no mês. Ações de tecnologia e bancos digitais caem com perspectiva de alta de juros nos EUA; velha economia e commodities se beneficiam do cenário.

Ibovespa fechou em alta de 0,89% após mergulho de 3%, recuperação parcial impulsionada pela velha economia enquanto tecnologia sofre com temores sobre redução de estímulos do Fed.

A bolsa brasileira respirou fundo nesta quarta-feira, 29 de setembro, depois de quase se afogar no dia anterior. O Ibovespa havia despencado mais de 3% no pregão passado — um movimento violento que deixou cicatrizes. Desta vez, a recuperação foi tímida: apenas 0,89% de alta, o suficiente para fechar nos 111.107 pontos, mas longe de compensar os danos acumulados. Na semana, o índice já acumula queda de 1,92%. No mês, as perdas chegam a 6,46%, com apenas um pregão restante até setembro terminar.

O padrão que se repete há meses — um passo para frente, dois ou três para trás — continuou em vigor. Mas desta vez, o movimento não era principalmente sobre o Brasil. A atenção estava fixa nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve segue ditando o ritmo dos mercados globais. O medo que assombra investidores é concreto: a bolha de liquidez que o Fed inflou durante a pandemia está começando a vazar. Quando o banco central americano iniciar o chamado tapering — a redução gradual de suas compras mensais de 120 bilhões de dólares em títulos — as consequências serão especialmente severas para dois grupos de ativos: ações de tecnologia e mercados emergentes como o Brasil.

A dinâmica é clara para quem acompanha os fluxos de capital. Durante a contração econômica forçada pela pandemia, a velha economia — mineração, commodities, transações financeiras tradicionais — sofreu mais. O e-commerce disparou, surfando na onda de compras obrigatórias feitas de casa. Suas ações atingiram patamares recordes, alimentadas não apenas por fundamentos sólidos, mas pela chuva de dólares que o Fed despejava no sistema desde março de 2020. Quando os juros americanos permaneciam próximos de zero, havia pouco atrativo em títulos seguros. Os trilhões de dólares precisavam ir para algum lugar. Encontraram emoção nos mercados emergentes, inflando preços que nem sempre tinham justificativa nos números reais das empresas.

Nesta quarta, a tensão veio de duas vozes do Fed. Pela manhã, Patrick Harker, presidente do banco central regional de Filadélfia, ofereceu algum alívio ao afirmar que não via urgência em elevar juros antes dos primeiros meses de 2023. Parecia um jato de água em brasa. Mas seu chefe, Jerome Powell, rapidamente reacendeu o fogo. Powell sinalizou que a inflação americana pode, sim, exigir aumentos de juros mais rápidos do que o esperado — especialmente se o descompasso entre oferta e demanda de matérias-primas se prolongar além do que considera transitório. Essa retórica funcionou como gatilho. Os rendimentos dos títulos de dívida americana subiram, afastando-se da marca de 1,5% e atingindo os maiores níveis em três meses. O Nasdaq, que havia aberto em alta, inverteu para baixa de 0,24%, puxado pela queda de ações de tecnologia.

No Brasil, o efeito foi imediato. Papéis ligados à disrupção digital foram os mais pressionados. O Banco Inter, cujas ações estão entre as mais esticadas da carteira teórica do índice, despencou 3,70%. O Banco Pan caiu 1,93%. A Totvs, fabricante de software para empresas, recuou 0,34%. A Magazine Luíza, do e-commerce, escorregou 1,69%. Todos compartilhavam a mesma vulnerabilidade: seus preços dependiam de um mundo de juros baixos e liquidez abundante. Conforme essa realidade se desvanecia, seus valores desabavam.

Mas enquanto a tecnologia sofria, a velha economia comemorava. A perspectiva de aperto monetário é sinal de que a economia americana consegue caminhar com as próprias pernas — e isso beneficia quem lucra com commodities e operações financeiras tradicionais. O minério de ferro, em particular, seguia seu padrão errático, dançando ao ritmo das decisões de Pequim. Depois de abrir a semana em alta de 7% e cair 6%, os preços subiram 2% nesta quarta, chegando a 114 dólares por tonelada nos portos de Qingdao. A Vale subiu 1,27%. A Usiminas, que depende menos do consumo externo, disparou 6,15%. A CSN, mais exposta aos chineses, subiu apenas 0,94%.

Do total de 91 ações do Ibovespa, 54 fecharam em alta. O volume de negociação movimentou 24 bilhões de reais. No câmbio, as forças se equilibravam de forma precária. A perspectiva de a Selic subir até perto de 10%, sinalizada pelo Banco Central brasileiro, favorecia a queda do dólar. Mas a perspectiva de juros americanos em alta pressionava para cima. Prevaleceu levemente a segunda força, e o dólar à vista subiu 0,08%, fechando em 5,4298 reais. Na semana, já havia ficado 1,62% mais caro.

O cenário adiante é nebuloso. A retirada de estímulos monetários americanos pode começar em novembro e se estender até o segundo semestre de 2022. Se, além disso, os juros americanos começarem a subir assim que a chuva de dólares terminar, o efeito será devastador para a renda variável como um todo. Investidores migrarão para a segurança dos títulos americanos, agora rentáveis novamente. Por enquanto, a inflação brasileira em torno de 10% ao ano mascara o futuro sombrio, mantendo a curva de juros local relativamente calma apesar da pressão vinda de fora. Mas essa calma é artificial, e todos sabem disso.

Jerome Powell sinalizou que a inflação pode exigir juros subindo mais rapidamente, dependendo de a oferta mundial de matérias-primas conseguir se adequar à demanda crescente
— Presidente do Federal Reserve
Patrick Harker afirmou não ver tanta urgência assim para subir juros, sendo coisa só para depois dos primeiros meses de 2023
— Presidente do Federal Reserve da Filadélfia
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