Três edições de mapas colocam Brasil no centro e Hemisfério Sul no topo, rompendo com modelo eurocêntrico tradicional usado há séculos. Projeção Equal Earth foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU em setembro, validando internacionalmente a iniciativa brasileira de representação cartográfica mais equilibrada.
IBGE libera mapas-múndi gratuitos com Brasil no centro, invertendo cartografia tradicional
Todo mapa é resultado de escolhas que são simultaneamente técnicas e políticas
Por que o IBGE escolheu exatamente este momento para liberar esses mapas gratuitamente?
O lançamento coincidiu com o Dia da Independência, mas há um padrão: cada mapa foi lançado durante um momento de liderança brasileira internacional — G20 em 2024, Brics em 2025, e agora os 90 anos do instituto. É uma estratégia de visibilidade.
Mas precisamos ser claros: a aprovação da ONU não torna a projeção Equal Earth obrigatória. É um reconhecimento, não uma mudança de padrão global.
O que exatamente muda quando você inverte o mapa dessa forma?
Muda a perspectiva psicológica e política. O Hemisfério Sul, historicamente representado como "embaixo", passa a estar no topo. O Brasil deixa de ser uma periferia visual e se torna centro.
Mas a distância geográfica entre os continentes permanece a mesma. A mudança é simbólica, não material — embora símbolos importem muito em cartografia.
Quantas pessoas realmente vão usar esses mapas?
Não sabemos. Mas o acesso gratuito remove uma barreira. Escolas, pesquisadores, qualquer pessoa com internet pode baixar.
O IBGE não divulgou números de downloads ou projeções de alcance. Estamos falando de potencial, não de impacto medido.
A projeção Equal Earth é realmente mais precisa?
Sim, ela representa com maior fidelidade as proporções reais de área dos continentes, diferentemente de Mercator, que distorce sistematicamente.
Mais precisa em um aspecto específico — proporção de área. Toda projeção cartográfica envolve compromissos. Nenhuma é "perfeita" em todos os sentidos.
The Pulse
- Três mapas lançados entre 2024 e 2026 colocam Brasil no centro e Hemisfério Sul no topo
- Projeção Equal Earth aprovada pela Assembleia Geral da ONU em setembro de 2026
- Downloads gratuitos disponíveis no site da loja virtual do IBGE mediante cadastro
Três edições de mapas colocam Brasil no centro e Hemisfério Sul no topo, rompendo com modelo eurocêntrico tradicional usado há séculos. Projeção Equal Earth foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU em setembro, validando internacionalmente a iniciativa brasileira de representação cartográfica mais equilibrada.
O IBGE disponibiliza gratuitamente série de mapas-múndi (2024-2026) que centralizam o Brasil e invertem a orientação tradicional, com validação internacional da ONU para a projeção Equal Earth.
Na segunda-feira, 7 de setembro de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística colocou à disposição do público, gratuitamente, uma série de mapas-múndi que desafia séculos de convenção cartográfica. Os três arquivos, produzidos entre 2024 e 2026, fazem algo simples e radical: colocam o Brasil no centro do globo e invertem a orientação tradicional, posicionando o Hemisfério Sul na parte superior do mapa. O lançamento coincidiu com as celebrações do Dia da Independência do Brasil, e os downloads estão disponíveis no site da loja virtual do instituto, acessíveis a qualquer pessoa que crie um cadastro ou use uma conta já existente na plataforma.
A coleção reúne três momentos distintos de uma mesma provocação cartográfica. Em 2024, durante a presidência brasileira do G20, o IBGE lançou o primeiro mapa, rompendo abertamente com o modelo eurocêntrico que domina a representação do mundo há gerações. Um ano depois, em 2025, quando o Brasil assumiu a liderança do Brics, veio a segunda edição, que manteve a centralização do país e adicionou a inversão dos polos. Agora, em 2026, a terceira versão — intitulada "Riqueza de Espécies 2025" — preserva essa orientação invertida mas acrescenta dados sobre a distribuição da biodiversidade global, marcando também os 90 anos de existência do instituto.
Todas as três edições utilizam a projeção chamada Equal Earth, um método desenvolvido especificamente para representar com maior fidelidade as proporções reais de área dos continentes. Essa escolha técnica ganhou validação internacional quando, na sexta-feira anterior ao lançamento, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução favorável ao uso dessa projeção. A aprovação não a torna obrigatória, mas representa um reconhecimento oficial de que existe uma alternativa viável e mais equilibrada à cartografia tradicional.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, enfatizou que a adoção dessa nova projeção e a mudança de orientação revelam uma verdade fundamental: todo mapa é resultado de escolhas que são simultaneamente técnicas e políticas. Não se trata apenas de uma questão de como desenhar linhas e continentes, mas de qual visão de mundo se escolhe transmitir. Maria do Carmo Bueno, diretora de Geociências do instituto, reforçou essa perspectiva ao afirmar que a decisão da ONU intensifica o debate sobre o uso de representações cartográficas que busquem maior equilíbrio na apresentação do planeta.
O gesto do IBGE toca em algo que permaneceu invisível por séculos: a arbitrariedade das convenções que aceitamos como naturais. A projeção de Mercator, criada no século XVI, distorce sistematicamente as proporções dos continentes, ampliando os do Norte e reduzindo os do Sul — uma distorção que reflete e reforça hierarquias geopolíticas antigas. Ao oferecer gratuitamente uma alternativa que coloca o Brasil e o Hemisfério Sul em posição central, o instituto não apenas disponibiliza um recurso educativo, mas convida a uma reflexão sobre quem decide como o mundo é representado e para quem essas decisões importam.
Notable Quotes
A adoção da nova projeção e a alteração da orientação convencionada mostram que todo mapa resulta de escolhas técnicas e também políticas— Marcio Pochmann, presidente do IBGE
A decisão da ONU reforça o debate sobre o uso de representações cartográficas alinhadas a demandas por maior equilíbrio na apresentação do planeta— Maria do Carmo Bueno, diretora de Geociências do IBGE