Iberê utiliza estratégia de 'cavalo de troia' para atrair atenção com conteúdo chamativo, depois explicar conceitos científicos complexos de forma simples e intuitiva. O Manual do Mundo alcança 20 milhões de inscritos e influencia educadores como Alcy Freitas, que adapta ciência ao contexto local de seus alunos na EJA.
Iberê desperta fascínio pela ciência em Londrina com metodologia do 'cavalo de troia'
No nosso vídeo, você precisa sair com algo na mão
Como você consegue fazer com que uma criança de três anos e um bisavó de noventa fiquem igualmente fascinados pelo mesmo conteúdo?
A chave é não subestimar ninguém. A criança quer ver algo acontecer, quer sentir a magia. O bisavó quer entender por que aquilo funciona. Se você consegue satisfazer ambos na mesma narrativa, você acertou.
Mas não é arriscado usar essa estratégia do "cavalo de troia" — atrair com algo chamativo e depois enfiar conteúdo complexo?
Não é risco, é honestidade. Você está dizendo: "Olha, isso é bonito, mas tem substância por dentro". As pessoas não são burras. Elas sabem quando estão sendo enganadas. O que elas não sabem é que gostam de aprender quando ninguém as força.
Você parece preocupado com as IAs. Mas não são elas que deveriam estar preocupadas com você?
Não é sobre competição. É sobre velocidade. A mudança está acontecendo tão rápido que as pessoas não têm tempo de processar. Em 1850 para 1900 levou 50 anos. Agora leva meses. Isso assusta porque ninguém sabe para onde vai.
Marleni Malikosky tinha 57 anos, longe da escola há 46 anos, e ainda assim construiu um protótipo funcional. O que isso diz sobre educação?
Diz que educação não é sobre idade, é sobre permissão. Ninguém tinha dado permissão para ela tentar. Quando alguém diz "você pode", coisas incríveis acontecem. A escola tradicional nega essa permissão para a maioria das pessoas.
Alcy Freitas usa umidade de Londrina para ensinar chuva ácida. Isso é genialidade ou bom senso?
É ambos. Genialidade é perceber que a ciência já está ali, na vida das pessoas. Bom senso é não tentar ensinar abstração quando você pode apontar para a janela e dizer: "Vê aquele Ipê? Vê como perdeu cor?"
O que você acha que Iberê viu em sua infância que o fez querer fazer isso?
Ele viu que era possível aprender sem sofrer. Viu que a curiosidade era mais forte que a obrigação. E decidiu que ninguém mais precisava passar pelo que ele passou — aquela sensação de estar na escola o dia todo e voltar para casa sem ter aprendido nada.
The Pulse
- Iberê Thenório criou o Manual do Mundo em 2006, que hoje tem 20 milhões de inscritos
- A 3ª Feira de Iniciação Científica do Sesi em Londrina reuniu 170 projetos
- Marleni Malikosky, aos 57 anos, construiu protótipo de detector de gás em menos de 2 meses
Iberê utiliza estratégia de 'cavalo de troia' para atrair atenção com conteúdo chamativo, depois explicar conceitos científicos complexos de forma simples e intuitiva. O Manual do Mundo alcança 20 milhões de inscritos e influencia educadores como Alcy Freitas, que adapta ciência ao contexto local de seus alunos na EJA.
O divulgador científico Iberê Thenório apresenta sua metodologia de ensino em Londrina, inspirando estudantes e adultos a descobrir a ciência no cotidiano através de conteúdo acessível e envolvente.
Você já parou para pensar na física por trás de um carro em movimento, ou nos princípios gravitacionais de uma bola de basquete caindo durante uma partida na praça? Provavelmente não. A maioria das pessoas vive imersa em problemas e compromissos diários, deixando essa curiosidade científica afundar sob o peso de objetivos que parecem mais reais, mais simples de visualizar. Nem mesmo quem usa uma panela de pressão todos os dias para cozinhar feijão para o almoço para para pensar que está aplicando ciência na prática — apenas sabe fazer, sem questionar o porquê.
É exatamente essa fagulha de interesse que Iberê Thenório, jornalista e divulgador científico criador do canal Manual do Mundo, dedica sua carreira a despertar. Ele esteve em Londrina na manhã de quinta-feira para abrir a terceira edição da Feira de Iniciação Científica do Sesi, reunindo estudantes do ensino fundamental, médio e educação de jovens e adultos, além de professores apresentando projetos de iniciação científica em diferentes áreas. Em conversa com o Portal Bonde, Thenório explicou a metodologia que sustenta seu trabalho: o que ele chama de estratégia do "cavalo de troia". Referenciando a tática grega descrita na Ilíada de Homero, a ideia é atrair a atenção do público com algo chamativo, burlando assim a barreira do preconceito sobre a complexidade. "A ideia é fazer com que as pessoas entendam e gostem das coisas, não necessariamente será uma aula. Sempre de uma maneira muito simples, leve e intuitiva. Nós buscamos encontrar um chamariz, algo que seja o fator mais importante. Depois que conquistamos essa atenção, aproveitamos para explicar outros assuntos. Por isso o 'cavalo', algo bonito por fora, mas recheado de informação relevante por dentro", explicou.
O alcance do Manual do Mundo — que chegou aos 20 milhões de inscritos — é resultado direto dessa acessibilidade de linguagem. Thenório conseguiu atingir uma faixa etária que vai desde crianças de três anos até bisavós de noventa. Ele reconhece a necessidade constante de se atualizar, especialmente quanto aos formatos predominantes como vídeos curtos e verticais que atraem principalmente os jovens. Mas alerta sobre o risco: "Eles precisam tomar cuidado, pois acabam assistindo vários vídeos e nem sempre absorvem todo o conteúdo apresentado. Como eles vivem um momento de provas, isso acaba sendo um tempo desperdiçado, não proveitoso." No canal, a insatisfação é permanente — sempre buscando maneiras de melhorar no próximo vídeo produzido.
Quando questionado sobre o impacto das inteligências artificiais na sociedade, Thenório faz uma comparação histórica: "Se você olhar para como era a vida em 1850 para como mudou em 1900, é totalmente diferente. É exatamente a mesma mudança que enxergo no cenário atual." Ele usa ferramentas como Perplexity e Gemini na pesquisa e construção de pautas, vendo-as como portas de entrada para questionamentos, não como destinos finais. Um exemplo que cita é como uma IA o ajudou a descobrir que o presidente americano Theodore Roosevelt ficou muito doente no Brasil quando visitou a Amazônia ao lado do Marechal Cândido Rondon — uma história genuinamente brasileira que ele nunca teria encontrado naturalmente. Mas também expressa temor: na criação de conteúdo, está tendo que disputar atenção com produtores que fazem tudo com alguns prompts, cujos resultados não condizem com a realidade.
O paulista de 46 anos, nascido em Sorocaba, celebra sua origem rural como catalisadora para sua sede de saber. Cresceu em um sítio onde via muita coisa do dia a dia, e na infância acompanhou a coleção de livros "Manuais do Escoteiro Mirim" da Disney — que explicavam desde código morse até como esquentar um copo de papel com chá no fogão usando dobraduras. Também foi influenciado por programas de TV Cultura dos anos 1990 como Beakman, X-Tudo, O Professor e Castelo Rá-Tim-Bum. Diferente das metodologias monótonas das salas de aula de sua infância, esses programas transformaram conteúdos aparentemente desnecessários em algo proveitoso e instigante. "Sempre estudei em escolas ruins, passava o dia estudando mas voltava para casa sem ter aprendido nada. Comecei a pensar: 'isso não pode continuar acontecendo'. No nosso vídeo, você precisa sair com, pelo menos, alguma coisa na mão."
Os frutos dessa metodologia não são rastros de morte e destruição como na versão de Homero, mas histórias de transformação. Alcy Santana Costa Freitas, baiano de 34 anos, deixou sua terra natal há seis meses e cruzou o país do nordeste ao sul com sua esposa e cachorro para lecionar na Educação para Jovens e Adultos de Maringá. Ele conecta a história de cada aluno com o conteúdo, aproveitando características locais — como a umidade de Londrina — para explicar conceitos como chuva ácida através da perda de coloração dos Ipês. Planeja um projeto chamado "Meu Prato, Minha História" onde fará um cuscuz nordestino para mostrar a ciência do café da manhã brasileiro, misturando culturas.
Marleni Malikosky, são-joseense de 57 anos, construiu sozinha em menos de dois meses um protótipo de equipamento para detecção e prevenção de vazamento de gás de cozinha. Longe da escola há 46 anos, ela duvidava de sua capacidade quando recebeu o convite para participar da iniciativa. Quando os dois rapazes que dominavam o assunto deixaram o projeto, pensou em desistir. Mas persistiu, aprendendo como cada peça funcionava. Seu sensor, instalado próximo ao fogão, detecta presença anormal de gás e emite aviso sonoro — e em caso de desatenção, interrompe automaticamente o fluxo, prevenindo explosões. A filha, Alessandra Beatriz Nunes de 17 anos, a incentivou a retomar os estudos e agora desenvolve seu próprio projeto: um sistema de monitoramento para narcolepsia que identifica e cataloga episódios de sonolência extrema, fornecendo dados sólidos para especialistas tratarem melhor seu irmão e outras pessoas com o distúrbio. A primeira edição da feira em Londrina reuniu 170 projetos no parque de exposições Ney Braga, cada um deles uma semente de dúvida que pavimentou um caminho de colaboração e transformação.
Notable Quotes
A ideia é fazer com que as pessoas entendam e gostem das coisas, não necessariamente será uma aula. Sempre de uma maneira muito simples, leve e intuitiva.— Iberê Thenório, sobre sua metodologia do 'cavalo de troia'
Isso abriu muitas portas, quero incentivar o despertar disso em mais pessoas. Não vou desistir fácil, vou morrer atirando.— Marleni Malikosky, refletindo sobre seu retorno aos estudos