Na fronteira entre a medicina e a inteligência artificial, investigadores da Universidade do Porto encontraram uma forma de escutar o silêncio do glaucoma antes que ele se torne irreversível. Através da análise de uma única fotografia do nervo ótico, o sistema prevê, com precisão inédita, como a doença evoluirá nos próximos dois a cinco anos — devolvendo aos médicos uma clareza que o tempo, até agora, não permitia. Numa doença que afeta 250 mil portugueses e que metade desconhece ter, esta ferramenta pode ser a diferença entre preservar a visão e perdê-la para sempre.
IA da Universidade do Porto previne cegueira por glaucoma com diagnóstico precoce
Uma fotografia, uma consulta, o futuro da visão revelado
Como é que uma fotografia do nervo ótico consegue prever o que vai acontecer daqui a cinco anos?
O modelo de IA foi treinado com quase 162 mil imagens de doentes reais, aprendendo padrões que os médicos humanos não conseguem ver. Identifica características microscópicas que indicam agressividade futura.
Mas isso foi validado em populações diferentes? Porque treinar com dados belgas e depois testar em finlandeses e chineses é importante, mas ainda assim há sempre variação genética e ambiental.
Sim, foi validado externamente em cinco grupos de doentes de centros mundiais diferentes. Isso reduz o risco de o modelo funcionar apenas nos dados com que foi treinado.
E na prática, o que muda para um doente português que vai à consulta?
Muda que o oftalmologista pode agora dizer-lhe: "O seu glaucoma é agressivo, vamos começar com tratamento intenso já" — em vez de esperar seis meses para ver como a doença evolui.
Mas o modelo está ainda em avaliação. Não está aprovado para uso clínico rotineiro. É importante não confundir investigação promissora com ferramenta já disponível.
Verdade. Mas quando estiver aprovado, pode mudar significativamente como os oftalmologistas gerem os recursos e o tempo dos doentes.
Metade das pessoas com glaucoma em Portugal não sabem que têm a doença. Esta tecnologia ajuda com isso?
Não diretamente — ela ajuda quem já foi diagnosticado. O desafio maior é ainda a detecção inicial, que depende de rastreios e de as pessoas irem ao oftalmologista.
Exatamente. Esta é uma ferramenta para otimizar o tratamento de quem já entrou no sistema. Não resolve o problema do diagnóstico tardio em massa.
Il Polso
- O glaucoma avança em silêncio: metade dos doentes em Portugal não sabe que tem a doença, e quando os sintomas surgem, a perda de visão já pode ser irreversível.
- Até agora, os oftalmologistas não conseguiam prever, no momento do diagnóstico, a rapidez com que a doença progrediria — uma incerteza clínica com consequências graves para os doentes.
- O modelo de IA, treinado com mais de 161 mil imagens de quase 14 mil doentes, analisa uma fotografia do nervo ótico e projeta a agressividade da progressão a dois e cinco anos.
- Validado internacionalmente em centros da Finlândia, China e outros países, o sistema demonstrou funcionar de forma fiável em populações diversas, reforçando a sua aplicabilidade global.
- Com esta ferramenta, os médicos poderão concentrar tratamentos mais intensivos nos casos de maior risco desde o primeiro contacto, personalizando a resposta clínica com uma precisão antes impossível.
Na fronteira entre a medicina e a inteligência artificial, investigadores da Universidade do Porto encontraram uma forma de escutar o silêncio do glaucoma antes que ele se torne irreversível. Através da análise de uma única fotografia do nervo ótico, o sistema prevê, com precisão inédita, como a doença evoluirá nos próximos dois a cinco anos — devolvendo aos médicos uma clareza que o tempo, até agora, não permitia. Numa doença que afeta 250 mil portugueses e que metade desconhece ter, esta ferramenta pode ser a diferença entre preservar a visão e perdê-la para sempre.
Investigadores da Universidade do Porto desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de identificar, numa única consulta, quais os doentes com glaucoma enfrentam maior risco de perder a visão nos anos seguintes. A tecnologia analisa uma fotografia do nervo ótico e prevê a velocidade de progressão da doença até dois e cinco anos — uma informação que, até agora, escapava à medicina no momento do diagnóstico inicial.
O projeto foi coordenado pelo professor João Barbosa Breda, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e envolveu colaboradores da Bélgica, Singapura, Áustria, Finlândia, Alemanha, França e China. O modelo foi treinado com 161.827 imagens do nervo ótico de 13.913 doentes, recolhidas num centro académico em Leuven, e validado externamente em cinco grupos de doentes de diferentes partes do mundo, garantindo a sua fiabilidade em populações diversas.
O glaucoma é uma doença silenciosa que destrói gradualmente as células da visão ao danificar o nervo ótico, conduzindo a cegueira irreversível quando não tratada. O seu maior perigo está precisamente nesse silêncio: cerca de metade das 250 mil pessoas que vivem com glaucoma em Portugal ainda não foram diagnosticadas.
Com o novo modelo, atualmente em fase de avaliação, os oftalmologistas poderão identificar os casos mais agressivos logo no primeiro contacto e implementar planos terapêuticos mais intensivos desde cedo. A doença não tem cura, mas pode ser controlada se detetada a tempo — e é nesse intervalo decisivo que a inteligência artificial pode fazer a diferença. O estudo foi publicado em agosto na revista The Lancet Digital Health.
Investigadores da Universidade do Porto desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de identificar, numa única consulta oftalmológica, quais os doentes com glaucoma que enfrentam maior risco de perda de visão nos próximos anos. A tecnologia analisa uma fotografia do nervo ótico e prevê a velocidade e agressividade da progressão da doença até dois e cinco anos no futuro — informação que, até agora, os médicos não conseguiam obter com precisão no momento do diagnóstico inicial.
O trabalho foi desenvolvido por uma equipa internacional coordenada pelo professor João Barbosa Breda, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, único investigador português no projeto. Para treinar o modelo de inteligência artificial, os investigadores utilizaram 161.827 imagens do nervo ótico recolhidas de 13.913 doentes, dados obtidos retrospetivamente num centro académico em Leuven, na Bélgica. A validação externa do sistema foi realizada em cinco grupos de doentes provenientes de centros de investigação em diferentes partes do mundo, incluindo instituições na Finlândia e na China, garantindo que o modelo funciona de forma fiável em populações diversas.
O glaucoma é uma doença silenciosa e progressiva que afeta o nervo ótico, a estrutura responsável por transmitir as imagens do olho para o cérebro. O principal fator de risco é o aumento da pressão intraocular, que, quando não controlado, destrói gradualmente as células da visão e conduz a cegueira irreversível. O grande desafio clínico reside no facto de a doença raramente apresentar sintomas nas fases iniciais — cerca de metade das pessoas que têm glaucoma ainda não foram diagnosticadas, segundo alerta Barbosa Breda.
Com este novo modelo, atualmente em fase de avaliação, os oftalmologistas poderão identificar os casos mais agressivos logo no primeiro contacto com o doente. Isso permitirá aos médicos implementar planos terapêuticos mais intensivos desde cedo nos doentes de maior risco, concentrando recursos e consultas de acompanhamento nos casos que requerem intervenção mais assertiva. Barbosa Breda explica que, no presente, quando um doente é diagnosticado com glaucoma, o médico não consegue determinar com precisão a rapidez com que a doença progredirá — uma incerteza que agora pode ser reduzida significativamente.
Em Portugal, estima-se que cerca de 250 mil pessoas vivem com glaucoma. Embora a doença não tenha cura, pode ser controlada e a progressão travada se for diagnosticada e tratada atempadamente em consulta de oftalmologia, permitindo preservar a visão do doente. O sistema de inteligência artificial representa um avanço potencial na detecção precoce, oferecendo aos clínicos uma ferramenta objetiva para estratificar o risco e personalizar o tratamento desde o início.
O estudo foi publicado em agosto na revista científica The Lancet Digital Health, uma das principais publicações internacionais na área da saúde digital. A investigação envolveu colaboradores da Bélgica, Singapura, Áustria, Finlândia, Alemanha, França e China, refletindo um esforço genuinamente global para resolver um problema oftalmológico que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.
Citazioni salienti
Com uma única consulta, o médico não consegue saber quão rápido ou agressivo aquele glaucoma será — mas com este novo modelo, espera-se que seja possível detetar os casos mais agressivos atempadamente.— Professor João Barbosa Breda, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Na grande maioria dos casos não dá qualquer sintoma. Essa é a razão pela qual cerca de 50% das pessoas com glaucoma ainda não estão diagnosticadas.— Professor João Barbosa Breda