Hypers Kids Africa promete devolver criptomoedas após reação a vídeo pró-Bolsonaro

Crianças e jovens de 7 a 15 anos de Uganda foram utilizadas em esquema de propaganda eleitoral sem consentimento informado, perdendo 100 mil seguidores após a polêmica.
Uma maneira muito engenhosa, mas perigosa, de desinformar
Especialista em direito eleitoral descreve o esquema de criptomoedas vinculado à campanha de Flávio Bolsonaro.
Mark

Como um grupo de crianças dançarinas de Uganda acabou envolvido em propaganda eleitoral brasileira?

Mimi

Eles têm 12,9 milhões de seguidores no Instagram porque dançam ao som de músicas brasileiras. Alguém viu ali uma oportunidade: ofereceu criptomoedas para publicarem um vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro. O grupo pensou que os tokens ajudariam a construir sua casa em Uganda.

Luke

Mas quem exatamente fez essa oferta? O site Brasil 22 Token? Alguém da campanha? A reportagem deixa isso em aberto.

Mimi

Sim, é um ponto obscuro. O site diz que não tem vínculo com a campanha, a campanha diz que não tem vínculo com o site. Mas o vídeo marca os perfis de Flávio, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal.

Mark

E quanto ao valor? US$ 20 mil é muito dinheiro para crianças de Uganda?

Mimi

É significativo, mas o ponto não é só o dinheiro. É que a criptomoeda se valoriza conforme mais pessoas compartilham o conteúdo. Então quem posta está sendo remunerado indiretamente por propaganda eleitoral.

Luke

A lei eleitoral brasileira proíbe isso?

Mimi

Segundo especialistas, sim. Proíbe influenciadores remunerados e abuso de poder econômico. Mas há entraves: o site não é hospedado no Brasil, o registro é privado.

Mark

O grupo devolveu os tokens?

Mimi

Prometeu devolver, mas não disse quando nem como. Perdeu 100 mil seguidores após a polêmica.

Luke

Então a promessa de devolução pode ser apenas para apaziguar a situação?

Mimi

É possível. O grupo disse que não sabia que as pessoas não gostariam. Parece genuína a confusão deles sobre o que estavam fazendo.

Mark

Isso pode resultar em ações judiciais?

Mimi

A campanha de Flávio já anunciou que vai processar o site. Mas investigar será complexo porque a infraestrutura está fora do Brasil.

Luke

E o TSE? Vai investigar?

Mimi

O tribunal não se manifestou. Disse que não comenta casos que possam ser analisados na Justiça Eleitoral.

  • Hypers Kids Africa recebeu 120 milhões de tokens $B22 (US$ 20 mil) por vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro
  • Grupo tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram e perdeu 100 mil após a polêmica
  • Crianças e jovens de 7 a 15 anos de Uganda foram utilizadas em esquema de propaganda eleitoral
  • Especialista identifica possível violação de lei eleitoral similar ao caso Pablo Marçal de 2024

O grupo de dança infantil com 12,9 milhões de seguidores no Instagram recebeu criptomoedas avaliadas em US$ 20 mil para publicar propaganda eleitoral, gerando críticas do público. Advogado especialista em direito eleitoral identifica possível financiamento ilegal de influenciadores e abuso de poder econômico, similar ao caso Pablo Marçal de 2024.

Grupo ugandês Hypers Kids Africa promete devolver 120 milhões de tokens $B22 recebidos por publicar vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro, após reação negativa. Especialistas apontam possíveis irregularidades eleitorais no esquema de criptomoedas vinculado à campanha.

Um grupo de dança infantil de Uganda com quase 13 milhões de seguidores no Instagram publicou um vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro na noite de 7 de outubro e recebeu 120 milhões de tokens de uma criptomoeda chamada $B22 pela parceria. O Hypers Kids Africa, formado por crianças e jovens de 7 a 15 anos do subúrbio de Kampala, anunciou que devolveria os ativos digitais — avaliados em cerca de US$ 20 mil — após a reação negativa do público. A decisão marca um recuo diante de críticas que questionam se o esquema viola a legislação eleitoral brasileira.

O grupo, que viralizou no Brasil dançando ao som de sucessos brasileiros como "Sequência de Lovezinho" e "Zona de Perigo", publicou um vídeo mostrando crianças em camisetas amarelas cantando "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". A legenda marcava os perfis de Nikolas Ferreira, deputado federal pelo PL de Minas Gerais, de Flávio Bolsonaro e do influenciador Pablo Marçal, pedindo que seguidores comprassem a criptomoeda e compartilhassem o conteúdo. O vídeo acumulou mais de 3,5 milhões de visualizações até a noite de 8 de outubro. Em resposta à BBC News Brasil, o grupo disse que pensava que os tokens ajudariam a financiar a construção de sua casa dos sonhos em Uganda, mas não esperava a reação política. "Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política", afirmaram. "Não queremos que as pessoas reclamem sempre na nossa página." O grupo perdeu 100 mil seguidores após a publicação.

A $B22 é uma meme coin — moeda digital criada a partir de memes ou tendências da internet — lançada na terça-feira 6 de outubro. O site Brasil 22 Token, que distribui a criptomoeda, afirma que parte das vendas financiará projetos para crianças em Uganda e que a defesa do voto 22 é uma posição própria, não das crianças do projeto. Simultaneamente, o site anuncia que distribui tokens a usuários que compartilhem conteúdos incentivando o voto em Flávio Bolsonaro. Em uma publicação no X, a Brasil 22 Token revelou que tem mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos prontos para publicação e que a distribuição continuará diariamente até 25 de outubro, quando ocorre o segundo turno da eleição presidencial entre Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Especialistas em direito eleitoral identificam possíveis irregularidades no modelo. Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, descreve o esquema como "uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara". Segundo ele, a lei eleitoral veda o uso de influenciadores remunerados, e o modelo remuneraria quem posta e reposta — quanto mais postagens vinculadas ao conteúdo, mais a criptomoeda se valoriza e mais o influenciador recebe. Fernandes Neto vê semelhança com o caso do influenciador Pablo Marçal nas eleições de 2024, que oferecia incentivos financeiros a quem conseguisse mais visualizações em cortes de seus vídeos. Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e teve sua inelegibilidade mantida por oito anos em dezembro de 2025.

Para o especialista, o caso envolve a "junção de dois abusos": o dos meios de comunicação, já que o Tribunal Superior Eleitoral considera as plataformas digitais meios de comunicação social, e o abuso de poder econômico. Fernandes Neto avalia que o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas seria irregular "independentemente do pagamento direto ou não". Ele destaca que o conteúdo é "nitidamente eleitoral" e desinformativo, porque o apelo filantrópico das crianças de Uganda estaria no fim da cadeia. Mesmo que o site exponha avisos de que não há vínculo com a campanha, a campanha de Flávio ainda poderia ser responsabilizada, pois há uma vinculação direta da página no Instagram e um benefício direto de imagem e propaganda. Segundo a jurisprudência, a análise de abuso de poder econômico recai sobre o benefício que o conteúdo pode trazer à campanha, não sobre a responsabilidade pessoal do candidato.

A campanha de Flávio Bolsonaro afirmou em nota que desconhece a autoria do site, não tem relação com seu conteúdo nem com a venda de criptomoedas, e que vai entrar com medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site. A campanha disse ainda que não há perfis contratados para fazer propaganda e que todas as páginas e canais oficiais foram informados ao TSE e seguem a legislação eleitoral. A assessoria de Nikolas Ferreira afirmou desconhecer o conteúdo, e Pablo Marçal não respondeu até a publicação. Uma resolução do TSE proíbe o pagamento por perfis no exterior para publicar propaganda eleitoral a favor de candidatos brasileiros, mesmo que as contas estejam em outros países e direcionem conteúdo ao público brasileiro.

Fernandes Neto avalia que há uma série de entraves que tornam uma possível investigação mais complexa. Derrubar os perfis é uma possibilidade que precisaria ser analisada, já que a página não é hospedada no Brasil e o registro do site aparece como privado em repositórios de domínios na internet. O especialista classifica o mecanismo como "uma maneira muito engenhosa, mas perigosa também, de desinformar", com possíveis dividendos tanto eleitorais quanto financeiros. Ele destaca que o direito eleitoral precisa se amoldar à realidade digital, porque o objetivo é tornar a disputa igualitária. O TSE afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser ou são objetos de análise na Justiça Eleitoral.

Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos, porque pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos.
— Hypers Kids Africa, em mensagem à BBC News Brasil
É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara.
— Raimundo Fernandes Neto, especialista em direito eleitoral
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