Grupo de dança infantil de Uganda com 12,9 milhões de seguidores recebeu criptomoedas avaliadas em US$ 20 mil para publicar apoio eleitoral, mas decidiu devolver após críticas públicas. Advogado especialista em direito eleitoral aponta que o modelo configura remuneração ilegal de influenciadores e abuso de poder econômico, similar ao caso condenado de Pablo Marçal.
Hypers Kids Africa promete devolver criptomoedas após polêmica com vídeo pró-Bolsonaro
Estamos aqui para dançar, não para política
Por que um grupo de crianças de Uganda aceitaria fazer propaganda para um candidato brasileiro?
Eles não viam como propaganda. Viram como uma oportunidade de financiar o sonho que tinham desde o início — construir uma casa e uma escola em Kampala. O grupo foi abordado com uma proposta de parceria que prometia US$ 20 mil em criptomoedas.
Mas quem fez essa abordagem? O texto não deixa claro. O grupo não informou quem negociou, quem aprovou o vídeo, nem se houve contato direto com campanhas ou partidos.
E por que devolveram o dinheiro tão rápido?
Porque a reação foi imediata e massiva. Perderam 100 mil seguidores em poucas horas. Receberam comentários críticos dizendo que não queriam política em uma página de dança. Eles disseram claramente: "Não sabíamos que as pessoas não iam gostar".
Isso sugere falta de compreensão real sobre o que estavam fazendo. Crianças de 7 a 15 anos dançando em um vídeo que diz "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro" — elas entendiam o que significava?
O especialista em direito eleitoral vê ilegalidades no esquema. Qual é exatamente o problema legal?
O problema é que a criptomoeda funciona como remuneração indireta. Quanto mais pessoas compartilham o conteúdo, mais a moeda valoriza, e quem postou ganha com isso. É como pagar influenciadores para fazer propaganda, mas de forma disfarçada.
Mas o site diz que não há vínculo com a campanha de Flávio. Isso não protege a campanha?
Segundo o especialista, não. Porque há uma vinculação direta na página do Instagram e um benefício direto de imagem e propaganda. A lei eleitoral analisa o benefício que o conteúdo traz à campanha, não a responsabilidade pessoal do candidato.
E como isso é diferente de um influenciador comum apoiando um candidato?
Um influenciador pode apoiar gratuitamente. O que é proibido é remunerar — direta ou indiretamente. Aqui, quanto mais o conteúdo se espalha, mais a moeda vale, e quem postou lucra.
Mas há um detalhe importante: a Brasil 22 Token é uma meme coin, sem valor intrínseco. Esses tokens podem virar pó amanhã. Então qual é o valor real da "remuneração"?
Nesse momento, são avaliados em US$ 20 mil. Mas você está certo — é volátil. O risco é real.
O que acontece agora?
A campanha de Flávio anuncia ações judiciais. O TSE enfrenta o desafio de regular algo que nunca tinha visto antes — propaganda eleitoral financiada por criptomoedas, vindo de fora do país, usando crianças como rosto.
E o grupo Hypers Kids Africa? Eles devolvem o dinheiro, mas a reputação já foi abalada.
Der Puls
- Grupo Hypers Kids Africa, com 12,9 milhões de seguidores, recebeu 120 milhões de tokens $B22 (US$ 20 mil) por vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro
- Crianças e jovens de 7 a 15 anos de Kampala, Uganda, perderam 100 mil seguidores após publicação
- Especialista em direito eleitoral identifica remuneração indireta de influenciadores e abuso de poder econômico no esquema
- Brasil 22 Token é meme coin sem valor intrínseco, extremamente volátil
- Campanha de Flávio anuncia ações judiciais contra o site em esferas eleitoral, cível e criminal
Grupo de dança infantil de Uganda com 12,9 milhões de seguidores recebeu criptomoedas avaliadas em US$ 20 mil para publicar apoio eleitoral, mas decidiu devolver após críticas públicas. Advogado especialista em direito eleitoral aponta que o modelo configura remuneração ilegal de influenciadores e abuso de poder econômico, similar ao caso condenado de Pablo Marçal.
Hypers Kids Africa promete devolver 120 milhões de tokens recebidos por vídeo apoiando Flávio Bolsonaro após reação negativa. Especialista identifica possíveis ilegalidades eleitorais no esquema de financiamento via criptomoeda.
Na noite de quarta-feira, 7 de outubro, o perfil Hypers Kids Africa publicou um vídeo de crianças dançando em camisetas amarelas, cantando "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". O grupo, formado por jovens de 7 a 15 anos do subúrbio de Kampala, em Uganda, recebeu 120 milhões de tokens da criptomoeda $B22 pela publicação — ativos digitais avaliados em cerca de US$ 20 mil. Menos de 24 horas depois, diante da reação negativa do público, o grupo anunciou que devolveria o dinheiro.
Hypers Kids Africa conquistou 12,9 milhões de seguidores no Instagram desde 2023 com coreografias ao som de sucessos brasileiros. O fundador, Butindo Moses, criou o grupo após perder os pais em um acidente de carro em 2009 e viver nas ruas de Kampala. Nas entrevistas que deu durante sua participação no America's Got Talent, Moses explicou que o sonho era arrecadar recursos para construir uma casa e uma escola em Uganda. Quando a Brasil 22 Token ofereceu os tokens em troca do vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro, o grupo viu a oportunidade de financiar esse projeto.
Em mensagem à BBC News Brasil, o grupo explicou sua decisão de devolver o dinheiro: "Pensamos que os tokens nos ajudariam a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos. Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política." O grupo perdeu 100 mil seguidores após o vídeo ser publicado. Não informou quando ou como os tokens serão devolvidos, nem revelou quem negociou a parceria ou aprovou o conteúdo.
O vídeo acumulou mais de 3,5 milhões de visualizações. A legenda marcava os perfis de Nikolas Ferreira, deputado federal pelo PL de Minas Gerais, de Flávio Bolsonaro e do influenciador Pablo Marçal, pedindo que as pessoas comprassem a $B22 e compartilhassem o conteúdo nas redes sociais. A Brasil 22 Token é uma meme coin — moeda digital sem valor intrínseco, criada a partir de memes ou tendências da internet, extremamente volátil e de alto risco.
Para Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, o esquema reúne elementos que configuram ilegalidades eleitorais. "É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara", afirma. Segundo a lei eleitoral brasileira, o uso de influenciadores remunerados é vedado. No modelo da Brasil 22 Token, cada pessoa que posta e reposta o conteúdo recebe de acordo com o valor que a criptomoeda ganha — o que configuraria remuneração indireta por propaganda eleitoral.
Fernandes Neto vê semelhança com o caso de Pablo Marçal nas eleições de 2024, quando o influenciador oferecia incentivos financeiros a quem conseguisse mais visualizações em trechos de seus vídeos. Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e permanece inelegível por oito anos. "O princípio é o mesmo: eu pagar influenciadores ou pessoas quaisquer que se tornam influenciadores para fazer propaganda", diz o especialista. Para ele, o conteúdo é "nitidamente eleitoral" e ainda desinformativo, porque o apelo filantrópico das crianças de Uganda estaria no fim da cadeia.
A campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que desconhece a autoria do site, não tem relação com seu conteúdo nem com a venda de criptomoedas, e que vai entrar com medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site. A assessoria de Nikolas Ferreira disse desconhecer o conteúdo. Pablo Marçal foi procurado e não respondeu. O site Brasil 22 Token afirma que a defesa do voto 22 é uma posição própria, não manifestação das crianças, e que parte das vendas financiará projetos em Uganda. Também anuncia que está integrando o Pix nos próximos dias e que tem mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos prontos para publicação até 25 de outubro, data do segundo turno da eleição presidencial.
Fernandes Neto avalia que há entraves que tornam uma possível investigação complexa, já que a página não é hospedada no Brasil. Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral proíbe o pagamento por perfis no exterior para publicar propaganda eleitoral a favor de candidatos brasileiros, mesmo que as contas estejam em outros países e direcionem conteúdo ao público brasileiro. O especialista classifica o mecanismo como "uma maneira muito engenhosa, mas perigosa também, de desinformar", com possíveis dividendos tanto eleitorais quanto financeiros. O TSE afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser objetos de análise na Justiça Eleitoral.
Bemerkenswerte Zitate
É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara— Raimundo Fernandes Neto, especialista em direito eleitoral
Pensamos que os tokens nos ajudariam a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos— Hypers Kids Africa, em mensagem à BBC News Brasil