O número de sequelados cresce todos os dias. E isso pode ser evitado.
Em Alagoas, o Hospital Geral do Estado registrou 4.440 atendimentos por acidentes de trânsito nos primeiros dez meses de 2023 — quase o mesmo número do ano anterior, como se o tempo não tivesse passado. Por trás de cada estatística há uma pessoa que chegou ferida por causas que especialistas consideram amplamente evitáveis: o celular na mão, o álcool no sangue, a atenção ausente no momento decisivo. O que o hospital revela não é apenas uma crise de saúde pública, mas um espelho de escolhas coletivas que, repetidas dia após dia, transformam as ruas em lugares de sofrimento previsível.
- Mais de 4 mil pessoas feridas em dez meses revelam que a violência no trânsito alagoano não recua — os números de 2023 praticamente repetem os de 2022.
- Colisões e acidentes com motos dominam os atendimentos, e os casos envolvendo motociclistas preocupam especialmente pela gravidade das lesões e pelas sequelas permanentes que deixam.
- Médicos do HGE apontam causas conhecidas e evitáveis — uso de celular, direção alcoolizada e falta de atenção — como responsáveis pela manutenção desse ciclo de tragédias.
- O impacto vai além do corpo: afastamento do trabalho, perda de renda e dependência familiar transformam cada acidente grave em uma crise econômica para quem já é vulnerável.
- O hospital está estruturado para atender, mas sua direção admite a frustração: o verdadeiro desejo é que cada vez menos pessoas precisem cruzar suas portas por razões evitáveis.
Nos dez primeiros meses de 2023, o Hospital Geral do Estado de Alagoas atendeu 4.440 pessoas feridas em acidentes de trânsito — número quase idêntico ao registrado no mesmo período do ano anterior. A repetição não é coincidência: é um padrão.
As colisões entre veículos foram responsáveis por 2.036 casos. Acidentes com motos somaram 1.636 atendimentos. Atropelamentos, quedas de bicicleta e capotamentos completaram o quadro. Para o médico especialista em traumas Álvaro Bulhões, as causas são conhecidas e se repetem: uso de celular ao volante ou a pé, direção após consumo de álcool e falta de atenção nos momentos críticos.
Os acidentes com motocicletas preocupam de forma particular. As lesões tendem a ser graves, o tratamento longo, e as sequelas frequentemente permanentes — limitações físicas que alteram não apenas a vida de quem sofreu o acidente, mas também a de seus dependentes. Um homem de 31 anos atendido no HGE após uma colisão no bairro Benedito Bentes, em Maceió, teve sorte: os ferimentos foram leves, passou pela avaliação multidisciplinar e foi liberado. Nos casos mais graves, o caminho é direto para o centro cirúrgico.
O hospital orienta: suspeita de fratura exige acionamento do Samu, sem mover a vítima; pessoas presas em ferragens demandam o Corpo de Bombeiros. A estrutura existe e as equipes estão preparadas. Mas Fernando Melro, diretor geral do HGE, resume o sentimento que atravessa o hospital: o que todos realmente querem é que menos pessoas precisem chegar até lá. Enquanto os hábitos não mudarem, os números continuarão os mesmos.
Nos dez primeiros meses de 2023, o Hospital Geral do Estado em Alagoas recebeu 4.440 pessoas feridas em acidentes de trânsito. O número é quase idêntico ao do mesmo período do ano anterior — 4.388 atendimentos — e revela um padrão perturbador de violência nas ruas que não diminui.
Os dados revelam a anatomia dessa violência. Colisões entre veículos responderam por 2.036 casos. Acidentes envolvendo motos somaram 1.636 atendimentos. Atropelamentos chegaram a 409. Quedas de bicicleta totalizaram 245 casos. Capotamentos representaram 114 atendimentos. Cada número corresponde a uma pessoa que chegou ao hospital com ferimentos que poderiam ter sido evitados.
Para Álvaro Bulhões, médico especialista em traumas do HGE, a causa é conhecida e repetitiva. Motoristas e pedestres usam celulares enquanto se movem pelas vias. Pessoas dirigem após beber. A atenção desaparece nos momentos críticos — um condutor não sinaliza uma mudança de faixa, um pedestre atravessa fora da faixa de segurança. Esses hábitos, segundo Bulhões, explicam por que os números permanecem altos ano após ano.
Os acidentes com motos preocupam particularmente. Quando uma moto se envolve em uma colisão, o resultado costuma ser devastador. Os ferimentos são completos e dolorosos. O tratamento se estende por semanas ou meses. As pessoas ficam afastadas do trabalho. A renda familiar diminui. Muitas vezes, as sequelas são permanentes — limitações físicas que acompanham a pessoa pelo resto da vida, alterando não apenas quem sofreu o acidente, mas também seus dependentes diretos.
Um homem de 31 anos chegou ao HGE após sofrer um acidente de moto no bairro Benedito Bentes, em Maceió. Um outro condutor não sinalizou a mudança de faixa. Ele não conseguiu evitar a colisão. Porque as velocidades não eram altas, os ferimentos foram leves. Passou pela avaliação rápida da equipe multidisciplinar, realizou exames de imagem, recebeu medicações e foi liberado. Mas nem todos têm essa sorte. Nos casos graves, os pacientes vão direto para o centro cirúrgico, onde a equipe trabalha para estabilizá-los e depois decidir o melhor caminho para a recuperação.
O hospital está preparado. As equipes são qualificadas. Qualquer pessoa ferida em um acidente de trânsito pode procurar atendimento no HGE. Mas há protocolos. Se há risco de fraturas, o recomendado é chamar o Samu — o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — sem mexer no corpo da vítima, garantindo um transporte seguro. Se alguém está preso nas ferragens ou em risco iminente, o Corpo de Bombeiros deve ser acionado.
Fernando Melro, diretor geral do HGE, resumiu a frustração que permeia o hospital: as equipes estão prontas para atender, mas o que realmente desejam é que poucas pessoas precisem desse atendimento. O número de pessoas com sequelas físicas e mentais cresce todos os dias. E a maioria desses acidentes poderia ser evitada se cada pessoa fizesse sua parte — desistisse do celular, recusasse dirigir após beber, respeitasse as regras, prestasse atenção. Até agora, isso não acontece.
Notable Quotes
Os acidentes com moto continuam preocupando muito, pois resultam em ferimentos completos e dolorosos que exigem tratamento mais longo, causando afastamento do trabalho e sequelas permanentes— Álvaro Bulhões, médico especialista em traumas do HGE
A nossa alegria seria celebrar que poucas pessoas busquem esse atendimento. O número de sequelados cresce todos os dias, e isso pode ser evitado, basta cada um fazer a sua parte— Fernando Melro, diretor geral do HGE
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esses números não diminuem, mesmo com campanhas de segurança?
Porque mudar comportamento é mais difícil que fazer uma campanha. As pessoas sabem que não devem usar celular, mas usam mesmo assim. Sabem que não devem beber e dirigir, mas fazem. O conhecimento não é o problema.
E os acidentes de moto — por que preocupam tanto?
Porque uma moto não protege ninguém. Quando você bate de carro, tem airbag, estrutura. Na moto, você é lançado para o asfalto. Os ferimentos são completos, dolorosos, e muitas vezes deixam sequelas permanentes.
Sequelas permanentes significa o quê, exatamente?
Significa que a pessoa pode ficar com limitações físicas para o resto da vida. Pode não conseguir trabalhar como antes. A renda familiar cai. Dependentes sofrem junto. Não é só um ferimento que cicatriza.
O hospital está fazendo algo diferente para reduzir esses números?
O hospital atende bem, mas não é responsabilidade deles reduzir acidentes. Eles tratam as consequências. A responsabilidade é de cada pessoa nas ruas — motorista, pedestre, ciclista.
Então o que mudaria as coisas?
Cada pessoa fazendo sua parte. Desistindo do celular. Não bebendo e dirigindo. Respeitando sinais. Atravessando na faixa. Coisas simples que a maioria não faz.