Em Boa Vista, um deputado fluminense que transferiu seu domicílio eleitoral para Roraima há poucos meses ergue sua candidatura ao Senado sob o sobrenome de um ex-presidente, misturando oração e política em praças noturnas. Hélio Lopes, agora chamado Bolsonaro nas urnas, representa menos uma história local do que um movimento nacional em busca de raízes onde ainda não as tinha. A campanha revela como identidades eleitorais podem ser transplantadas — e como a fé e a lealdade política se tornam, em certos contextos, uma só linguagem.
Hélio Lopes adota sobrenome Bolsonaro em campanha ao Senado por Roraima
É um momento de guerra espiritual
Por que um deputado do Rio de Janeiro se muda para Roraima e adota o sobrenome Bolsonaro para concorrer ao Senado? Isso não parece estranho?
Parece, mas faz sentido dentro da lógica bolsonarista. Lopes não tem raízes políticas em Roraima, então precisa de um atalho para legitimidade. O sobrenome é esse atalho — ele não é Hélio Lopes, é Hélio Bolsonaro. É uma transferência de capital político.
E as trinta pessoas no primeiro ato? A campanha não viu isso como um fracasso?
Não. A assessoria tratou como deliberado, como parte de um posicionamento. Eles estão construindo uma narrativa de fé e missão, não de números. Quando você enquadra a política como guerra espiritual, trinta pessoas rezando à noite em uma praça faz mais sentido do que parece.
Mas qual é o apelo real para os eleitores de Roraima? Garimpo?
Garimpo é parte, mas há uma tensão. A proposta é criar um marco para extrativismo sustentável com participação indígena, mas a Constituição proíbe mineração em terras indígenas. É uma promessa que não pode ser totalmente cumprida.
Então é só retórica?
Não exatamente. É uma tentativa de falar para dois públicos ao mesmo tempo — para quem quer garimpo irrestrito e para quem quer parecer responsável ambientalmente. O problema é que esses públicos querem coisas incompatíveis.
E essa disputa interna no PL, com Nicoletti também candidato? Isso não enfraquece?
Teoricamente sim. Mas para Bolsonaro, talvez o objetivo seja ter múltiplos candidatos bolsonaristas competindo, garantindo que pelo menos um ganhe. É uma estratégia de saturação.
Le Pouls
- Um deputado do Rio de Janeiro chega a Roraima sem raízes políticas no estado e, em poucos meses, se lança candidato ao Senado adotando o sobrenome Bolsonaro como estratégia eleitoral.
- O primeiro ato de campanha reuniu apenas trinta pessoas em uma praça de Boa Vista, número que caiu para dez dois dias depois — tensão entre ambição nacional e realidade local.
- A campanha mescla orações diárias, louvor evangélico e ataques ao ministro Alexandre de Moraes, enquadrando a disputa eleitoral como uma 'guerra espiritual'.
- A proposta de um 'marco do extrativismo mineral sustentável' colide com a proibição constitucional de mineração em terras indígenas, deixando uma contradição central sem resposta.
- O PL de Roraima enfrenta disputa interna ao oficializar dois candidatos bolsonaristas para o mesmo cargo, revelando as tensões de uma estratégia nacional aplicada a um território específico.
Em Boa Vista, um deputado fluminense que transferiu seu domicílio eleitoral para Roraima há poucos meses ergue sua candidatura ao Senado sob o sobrenome de um ex-presidente, misturando oração e política em praças noturnas. Hélio Lopes, agora chamado Bolsonaro nas urnas, representa menos uma história local do que um movimento nacional em busca de raízes onde ainda não as tinha. A campanha revela como identidades eleitorais podem ser transplantadas — e como a fé e a lealdade política se tornam, em certos contextos, uma só linguagem.
No domingo à noite, cerca de trinta pessoas se reuniram em uma praça do centro cívico de Boa Vista ao redor de Hélio Lopes — deputado federal nascido em Queimados, no Rio de Janeiro, que transferira seu domicílio eleitoral para Roraima em março. Ele se apresentava como candidato ao Senado, não sob seu sobrenome de origem, mas adotando o nome Bolsonaro nas urnas. O local escolhido, próximo ao Monumento aos Garimpeiros, não era acidental.
A candidatura foi descrita pela equipe como atendimento a um pedido direto de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro havia oficializado Lopes em junho, chamando-o de 'fiel escudeiro' e 'escolhido' para fortalecer a base conservadora no Senado. Durante o ato inaugural, Lopes fez uma chamada de vídeo com o senador Magno Malta e mencionou não poder ligar para Michelle Bolsonaro — sinais que reforçavam a proximidade com a família.
O evento misturou oração, louvor e discurso político. Lopes criticou o ministro Alexandre de Moraes, defendeu o ex-presidente e pediu aos apoiadores que rezassem por ele e pelo país. Uma mulher presente, que preferiu não se identificar, disse apoiá-lo por ser de direita e por alinhamento com seus princípios religiosos. Quando a reportagem retornou à praça na terça-feira, encontrou apenas dez apoiadores.
A estratégia anunciada era ambiciosa: Lopes retornaria à praça todos os dias às 22 horas por 45 dias para orar e 'clamar por Roraima'. A equipe desenvolveu 22 teses batizadas de 'Bolsonarismo Amazônico', divididas em cinco áreas temáticas. Nenhuma proposta concreta, porém, foi apresentada no ato de lançamento.
Sobre o garimpo, a campanha defendia um 'marco do extrativismo mineral sustentável' com participação de comunidades indígenas e cooperativas. A proposta, no entanto, esbarra na proibição constitucional de mineração em terras indígenas — contradição que permaneceu sem resposta. Internamente, o PL de Roraima também oficializou o deputado Nicoletti para o mesmo cargo, criando uma disputa entre dois nomes bolsonaristas. Para analistas, a candidatura de Lopes integra uma estratégia nacional mais ampla de expansão conservadora no Senado — algo maior, portanto, do que uma campanha local.
No domingo à noite, em uma praça do centro cívico de Boa Vista, cerca de trinta pessoas se reuniram ao redor de um deputado federal que havia chegado ao estado poucos meses antes. Hélio Lopes, nascido em Queimados no Rio de Janeiro, transferira seu domicílio eleitoral para Roraima em março e agora se apresentava como candidato ao Senado — não sob seu sobrenome de origem, mas adotando o nome Bolsonaro nas urnas. O evento, convocado pelas redes sociais, ocorreu próximo ao Monumento aos Garimpeiros, um detalhe que não era acidental.
A campanha de Lopes, segundo sua assessoria, seria ancorada em três pilares: apoio ao garimpo, mobilização de eleitores evangélicos e associação direta com Jair Bolsonaro. O próprio ex-presidente havia solicitado sua candidatura, conforme informou a equipe. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, havia oficializado o deputado em junho, descrevendo-o em vídeo como "fiel escudeiro" e "escolhido" para fortalecer a base bolsonarista no Senado. Durante o ato inaugural, Lopes não pediu votos diretamente para Flávio, mas fez uma chamada de vídeo com o senador Magno Malta e mencionou que não poderia ligar para Michelle Bolsonaro — detalhes que reforçavam a proximidade com a família.
O evento misturou oração, louvor e discurso político. Lopes defendeu o ex-presidente, criticou o ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal e enquadrou sua presença em Roraima como parte de uma "guerra espiritual". Pediu aos apoiadores que rezassem por ele, pelos candidatos e pelo país. Uma mulher presente, que pediu para não ser identificada, explicou que apoiava Lopes por ser de direita e porque isso alinhava-se com seus princípios religiosos. A coordenação de campanha não viu problema no tamanho reduzido do primeiro ato. Quando a reportagem retornou à praça na terça-feira, encontrou apenas dez apoiadores, a maioria homens.
A estratégia anunciada pela campanha era ambiciosa em escopo, se não em escala imediata. Lopes retornaria à praça todos os dias às 22 horas para orar e "clamar por Roraima", uma iniciativa prevista para durar 45 dias. A equipe desenvolveu um conjunto de 22 teses batizado de "Bolsonarismo Amazônico", dividido em cinco áreas: segurança e soberania, desenvolvimento e infraestrutura, tecnologia e educação, bioeconomia e saúde pública. Nenhuma proposta específica foi apresentada durante o ato de domingo.
Sobre o garimpo — uma das atividades com maior peso político no estado — a campanha defendia a criação de um "marco do extrativismo mineral sustentável" que estabelecesse regras claras e buscasse um modelo de gestão com participação de comunidades indígenas e cooperativas legalmente constituídas. A Constituição, porém, proíbe mineração em terras indígenas, criando uma tensão não resolvida entre a proposta e a lei vigente.
A candidatura de Lopes ocorria em meio a uma disputa interna no próprio PL de Roraima. O partido havia oficializado também o deputado federal Nicoletti como candidato ao Senado, criando uma competição entre dois nomes bolsonaristas pelo mesmo cargo. Segundo Paulo Racoski, cientista político do Instituto Federal de Roraima, a candidatura de Lopes integrava uma estratégia nacional mais ampla do bolsonarismo para expandir sua bancada conservadora no Senado. Um deputado federal do Rio de Janeiro, sem raízes políticas anteriores no estado, adotando o sobrenome de um ex-presidente e mobilizando apoiadores em praças à noite — tudo isso apontava para algo maior que uma campanha local.
Citations marquantes
Fiel escudeiro do presidente Bolsonaro. Ele é o escolhido. É muito importante ter uma base forte na Câmara e no Senado— Flávio Bolsonaro, em vídeo no Instagram
É assim mesmo que queremos começar: com posicionamento, uma fé inabalável e oração— Coordenação de campanha de Hélio Lopes