No Brasil, onde o trabalho sempre foi terreno de disputas entre capital e direitos, o empresário Luciano Hang ergue sua voz contra a PEC que extingue a escala 6x1 e encurta a semana laboral de 44 para 40 horas. Com ironia como arma e números como escudo, ele projeta inflação, falências e empobrecimento — enquanto sindicatos e federações comerciais lembram que a realidade do varejo é mais complexa do que qualquer slogan permite. O debate migra agora para o Senado, carregando consigo a tensão permanente entre produtividade, dignidade e o custo de viver num país em transformação.
Hang ironiza PEC 6x1 e prevê 'quebradeira' no varejo com mudança trabalhista
Para acertar este país é só com uma desgraça
Por que Hang escolheu ironizar a proposta em vez de apenas se opor a ela?
Porque ele acredita que a lei é tão ruim que seus próprios efeitos a derrotarão. Se implementada rápido, o argumento dele é que o país sentirá o impacto nos preços e na economia, e isso criará pressão política para reverter.
Mas isso é especulação sobre consequências futuras. O que ele realmente sabe é que seus custos subiriam 15% a 20%. Tudo o mais — a "quebradeira" no varejo, a inflação comendo salários — é projeção dele.
E quanto ao ponto dele sobre mulheres e domingos? Parece uma questão prática legítima.
Tecnicamente é um problema real para quem opera em três turnos. Mas Patah respondeu que simplesmente não contratar mulheres não é solução viável — essas funções estão concentradas nelas por razões históricas, e consumidoras preferem ser atendidas por mulheres em certos contextos.
Hang não disse que deixaria de contratar mulheres. Ele disse que a lei o força a contratar mais homens. São coisas diferentes. A questão de se isso é realmente inviável ou apenas mais caro — isso não foi testado.
A Havan é uma empresa grande. Por que ele fala como se fosse vulnerável?
Porque ele está argumentando em nome do setor todo, não só da Havan. E há uma diferença real: uma grande rede pode absorver aumentos de custo. Pequenas e médias varejistas não conseguem.
Verdade. Mas ele também tem incentivo para exagerar o impacto. Quanto maior o custo que ele projeta, mais forte seu argumento político. Não sabemos ainda qual será o impacto real.
Der Puls
- A Câmara aprovou a PEC que elimina a escala 6x1 e reduz a jornada semanal para 40 horas, acendendo um alarme imediato no setor varejista.
- Luciano Hang, dono da Havan — rede com 191 lojas e R$ 13,7 bilhões em receita —, projeta aumento de 15% a 20% nos custos operacionais e prevê uma onda de falências entre pequenos e médios varejistas.
- O empresário vai além da crítica técnica: defende ironicamente a escala 4x3 para que os efeitos negativos se instalem rápido e convençam o país do 'erro', e ataca a CLT como obra de quem 'não gosta de trabalhar'.
- Sindicatos e a FecomercioSP rebateram: reorganizar escalas negociadas coletivamente é complexo, e simplesmente deixar de contratar mulheres no comércio — como o artigo 386 da CLT exigiria segundo Hang — é inviável na prática.
- A PEC segue para o Senado, onde o embate entre custos empresariais, direitos trabalhistas e pressão inflacionária sobre o consumidor ainda não tem desfecho definido.
No Brasil, onde o trabalho sempre foi terreno de disputas entre capital e direitos, o empresário Luciano Hang ergue sua voz contra a PEC que extingue a escala 6x1 e encurta a semana laboral de 44 para 40 horas. Com ironia como arma e números como escudo, ele projeta inflação, falências e empobrecimento — enquanto sindicatos e federações comerciais lembram que a realidade do varejo é mais complexa do que qualquer slogan permite. O debate migra agora para o Senado, carregando consigo a tensão permanente entre produtividade, dignidade e o custo de viver num país em transformação.
Luciano Hang, o empresário à frente da Havan e uma das vozes mais influentes da direita empresarial brasileira, escolheu o deboche como estratégia ao entrar no debate sobre a PEC que extingue a escala 6x1 e reduz a semana de trabalho de 44 para 40 horas. Ele disse preferir que fosse aprovada até a escala 4x3 — quatro dias trabalhados, três de folga — para que os efeitos negativos se manifestassem rapidamente e convencessem o país de seu equívoco. A Câmara já havia aprovado a proposta; agora ela segue para o Senado.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Hang projetou que a mudança elevaria os custos operacionais da Havan entre 15% e 20%, e alertou para uma onda de falências entre pequenas e médias varejistas. Sua conclusão foi direta: esses custos seriam repassados ao consumidor, alimentando a inflação e corroendo o poder de compra dos salários — forçando trabalhadores a buscar um segundo emprego para sobreviver. Ele também criticou o artigo 386 da CLT, que garante às mulheres pelo menos um domingo de folga a cada 15 dias, afirmando que a regra obriga a Havan a contratar mais homens em seus três turnos de operação.
A posição de Hang, porém, não encontrou eco unânime no setor. A FecomercioSP destacou a complexidade real de reorganizar escalas já negociadas coletivamente. Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, foi mais incisivo: é inviável deixar de contratar mulheres no comércio, dado que funções como caixas de supermercado, atendentes e vendedoras de lojas femininas são historicamente ocupadas por trabalhadoras. 'São argumentos pequenos', disse Patah sobre as objeções do empresário.
O contexto importa: a Havan opera 191 lojas, emprega mais de 25 mil pessoas e registrou em 2025 receita líquida de R$ 13,7 bilhões e lucro de R$ 3,5 bilhões. Não é um varejista vulnerável — é um dos maiores do país. Ainda assim, Hang usou sua plataforma para alertar sobre riscos que, segundo ele, recairiam principalmente sobre concorrentes menores. O debate segue aberto no Senado.
Luciano Hang, o empresário que comanda a rede Havan e figura entre os nomes mais influentes da direita empresarial brasileira, entrou na batalha contra a PEC que extingue a escala 6x1 e reduz a semana de trabalho de 44 para 40 horas. Sua estratégia foi o deboche. Ele disse que preferiria ver aprovada a escala 4x3 — quatro dias trabalhados, três de descanso — justamente para que os efeitos negativos da mudança se manifestassem com rapidez suficiente para convencer o país de seu erro. A Câmara dos Deputados já havia aprovado a proposta; agora ela segue para análise no Senado.
Em conversa com a Folha de S.Paulo, Hang projetou que a mudança elevaria os custos operacionais da Havan entre 15% e 20%, e alertou para uma "quebradeira" entre pequenas e médias varejistas espalhadas pelo país. Sua lógica era simples: se o Brasil quer sofrer com uma lei ruim, que sofra logo, sem demora. "Acho que para acertar este país é só com uma desgraça. Então, que a desgraça seja instalada o mais rápido possível", disse. Segundo ele, esses custos adicionais não ficariam retidos nas margens das empresas — seriam repassados direto ao consumidor. Uma elevação de 15% a 20% nos preços, argumentou, seria absorvida pela inflação, que por sua vez comeria o poder de compra dos salários, forçando trabalhadores a buscar um segundo emprego apenas para sobreviver.
Hang também aproveitou para criticar o arcabouço de leis trabalhistas brasileiras de forma mais ampla, afirmando que elas "são feitas por pessoas que não gostam de trabalhar". Seu exemplo foi o artigo 386 da Consolidação das Leis do Trabalho, que desde 1943 garante às mulheres pelo menos um domingo de folga a cada 15 dias — uma regra que o Supremo Tribunal Federal reafirmou em 2023. Para Hang, essa exigência cria um problema prático: a Havan opera em três turnos, e a restrição de não permitir que mulheres trabalhem dois domingos seguidos força a contratação de mais homens. Ele concluiu com uma afirmação contundente: "Eu nunca vi, nesse país, tanto idiota para fazer leis burras".
Mas a posição de Hang não reflete consenso no setor. A FecomercioSP — federação que representa o comércio de São Paulo — apontou que a dificuldade real está na complexidade de reorganizar escalas já negociadas coletivamente, como as variações 1x1, 2x1 e 2x2, todas relacionadas aos domingos de folga. Ricardo Patah, presidente tanto da União Geral dos Trabalhadores quanto do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, foi mais direto: é inviável simplesmente deixar de contratar mulheres no comércio. Ele citou funções que se concentram historicamente em trabalhadoras — caixas de supermercado, atendentes, vendedoras de lojas de roupas femininas — e apontou que consumidoras frequentemente preferem ser atendidas por mulheres nessas posições. "São argumentos pequenos", disse Patah, sugerindo que as objeções de Hang não resistem ao escrutínio.
A Havan, para contexto, opera 191 lojas e emprega mais de 25 mil pessoas. No sábado 30 de maio, a rede inauguraria sua 192ª unidade em Taquara, no Rio Grande do Sul, com planos de encerrar o ano com mais de 200 unidades. Em 2025, a empresa registrou receita líquida de R$ 13,7 bilhões e lucro líquido de R$ 3,5 bilhões. A empresa, portanto, não é um pequeno varejista vulnerável — é um dos maiores do país. Ainda assim, Hang escolheu usar sua plataforma para alertar sobre riscos que, segundo ele, atingiriam principalmente concorrentes menores. O debate agora segue no Senado, onde a PEC enfrentará novas rodadas de discussão e votação.
Bemerkenswerte Zitate
Essa diferença de 15% a 20% vai para os preços. E a inflação vai comer o salário do cara, que vai ter que arranjar um segundo emprego para sobreviver— Luciano Hang
Tem certas funções que, por mais que possam ser executadas por homens, ficaram basicamente com a mulher. Há consumidoras que não vão querer comprar com homens— Ricardo Patah, presidente da UGT e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo