Haddad enfrenta rejeição de 48% dos paulistas e tenta reverter cenário criticando ausência de Tarcísio em debate e prometendo rever privatizações. Tarcísio lidera com 49% das intenções de voto, mas evita tema de privatizações que enfrentam oposição de 54% dos eleitores (Sabesp) e 56% (metrô).
Haddad apela para deixar 'paixões políticas'; Tarcísio evita privatizações na TV
A Faria Lima vai ter que esperar um pouquinho
Por que Tarcísio simplesmente não fala sobre as privatizações? Ele é o governador — poderia defender o que fez.
Porque os números não o ajudam. Cinquenta e quatro por cento dos paulistas rejeitam a privatização da Sabesp. Cinquenta e seis por cento rejeitam a do metrô. Quando você está à frente nas pesquisas, a estratégia é não dar munição ao adversário.
Mas isso assume que os eleitores já sabem sobre as privatizações. A propaganda dele não menciona nada — então para quem não acompanha, ele está apenas falando de programas sociais.
Exatamente. É uma estratégia de silêncio seletivo. Ele não nega nada, apenas não traz o tema para a conversa.
E Haddad? Ele está apostando tudo em reverter a rejeição?
Está tentando. Ele tem 48% de rejeição — quase metade dos paulistas diz que não votaria nele de jeito nenhum. Então apela para o racional: deixa de lado a paixão política, dá uma chance.
Mas é um apelo frágil, não é? Se alguém rejeita você, pedir para deixar de lado a paixão não muda a rejeição. Ele está tentando convencer quem já decidiu contra ele.
Verdade. Mas ele também promete rever as privatizações, que é o ponto fraco de Tarcísio. É uma tentativa de dar ao eleitor uma razão racional para mudar de ideia.
Então os dois estão jogando com o que o outro não quer falar?
Sim, mas com assimetria. Tarcísio está ganhando ao não falar. Haddad está perdendo ao tentar falar sobre o problema de Tarcísio sem resolver o seu próprio.
E faltam duas semanas. Tempo suficiente para algo mudar, mas não muito.
The Pulse
- Haddad enfrenta 48% de rejeição entre paulistas; Tarcísio lidera com 49% das intenções de voto
- Sabesp foi privatizada em 2024 por R$ 14,8 bilhões; 54% dos eleitores se opõem
- Privatização da CPTM enfrenta oposição de 56% dos eleitores da região metropolitana
- Tarcísio recuou em agosto nas promessas de desestatização do metrô
Haddad enfrenta rejeição de 48% dos paulistas e tenta reverter cenário criticando ausência de Tarcísio em debate e prometendo rever privatizações. Tarcísio lidera com 49% das intenções de voto, mas evita tema de privatizações que enfrentam oposição de 54% dos eleitores (Sabesp) e 56% (metrô).
A duas semanas do primeiro turno, Haddad (PT) apela contra rejeição pedindo voto racional, enquanto Tarcísio (Republicanos) evita mencionar privatizações polêmicas da Sabesp e CPTM em suas peças de campanha.
A duas semanas do primeiro turno das eleições para o governo de São Paulo, Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas enfrentam desafios opostos na reta final de suas campanhas televisivas. Haddad, ex-prefeito e ex-ministro da Fazenda, carrega um peso considerável: 48% dos paulistas afirmam que não votariam nele sob nenhuma circunstância, conforme a mais recente pesquisa Datafolha. Ele reúne 29% das intenções de voto no primeiro turno, com margem de erro de dois pontos percentuais. Diante desse cenário de rejeição, sua estratégia na propaganda eleitoral veiculada na quarta-feira (23) apela ao eleitor para deixar de lado as "paixões políticas" e dar uma chance ao candidato petista.
A peça de Haddad não poupa críticas ao rival. Ela destaca a ausência de Tarcísio no debate promovido pela TV Record na segunda-feira (21), exibindo a cadeira vazia reservada ao governador — que justificou a falta alegando compromissos oficiais de gestão. Em seguida, Haddad enumera propostas para saúde e segurança pública, mirando justamente o ponto vulnerável da campanha adversária. Promete rever os contratos de privatização realizados sob comando de Tarcísio, incluindo a Sabesp, os pedágios Free Flow e a CPTM, com possibilidade de reestatização se necessário. "Sob o meu comando, o estado vai colocar o interesse do usuário na frente do interesse do setor privado. A Faria Lima vai ter que esperar um pouquinho", afirma na propaganda. O apelo final é direto: "Se você deixar de lado as paixões políticas e me der uma chance, eu dou a minha palavra: São Paulo será melhor de verdade."
Tarcísio, por sua vez, lidera com 49% das intenções de voto segundo o Datafolha e adota uma estratégia radicalmente diferente. Sua propaganda televisiva, com mais do que o dobro do tempo de duração em relação à do rival, não menciona Haddad nem toca no tema das privatizações. Em vez disso, constrói uma narrativa de apoio governamental ao longo de todas as fases da vida — do nascimento à velhice. A peça começa com educação infantil e capacitação técnica para jovens, passa por entrevistas com empreendedores e trabalhadores de multinacionais, inclui programas de assistência para mães de crianças atípicas como os Centros TEA, e encerra com projetos para idosos como Turismo 60+ e Qualifica 60+.
A escolha de Tarcísio em silenciar sobre privatizações não é casual. A Sabesp foi privatizada em 2024 em uma operação de R$ 14,8 bilhões, reduzindo a participação do estado de São Paulo de 50,3% para 18,3%. Desde então, moradores reclamam principalmente da redução da pressão noturna na região metropolitana. Uma pesquisa Datafolha de julho mostrou que 54% dos eleitores paulistas se opõem à privatização da companhia de água e abastecimento, enquanto 31% apoiam e 15% não têm opinião. A privatização das linhas da CPTM também enfrenta críticas severas de usuários devido a falhas operacionais e um incêndio na linha 12-safira no terceiro dia de operação da concessionária privada Trivia Trens, em julho. A oposição a essa privatização é ainda maior: 56% dos eleitores da região metropolitana se posicionam contra, 37% apoiam e 7% não têm opinião ou são indiferentes.
Em agosto, Tarcísio recuou nas promessas de desestatização. Afirmou que não vai conceder à iniciativa privada as quatro linhas administradas pelo Metrô, dizendo que não fará concessões "por fazer" e que vai reavaliar os impactos operacionais. Essa postura contrasta nitidamente com 2022, quando ainda era pré-candidato ao governo de São Paulo por decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e, na condição de ministro da Infraestrutura, prometia privatizar a Sabesp citando ganhos de eficiência, governança e recursos. A mudança de tom reflete tanto a rejeição popular aos serviços já privatizados quanto os problemas concretos enfrentados pelos usuários. Enquanto Haddad tenta converter sua desvantagem em rejeição em um apelo racional ao eleitor, Tarcísio busca consolidar sua vantagem evitando o tema que mais o vulnerabiliza.
Notable Quotes
Se você deixar de lado as paixões políticas e me der uma chance, eu dou a minha palavra: São Paulo será melhor de verdade— Fernando Haddad, em propaganda eleitoral
Não vai fazer concessões 'por fazer' e vai reavaliar os impactos operacionais— Tarcísio de Freitas, sobre futuras privatizações de linhas de metrô