Trinta anos separam a saída polêmica de Nelsinho Baptista do Inter rumo ao Corinthians e a chegada de seu filho Eduardo ao mesmo clube — um intervalo longo o suficiente para que a ferida esfrie, mas não para que o destino perca o senso de ironia. O futebol, como poucas instituições humanas, guarda memória longa e cobra seus ciclos com precisão quase dramática: o primeiro jogo de Eduardo à frente do Colorado será justamente contra o time que um dia atraiu seu pai para longe de Porto Alegre.
Há 30 anos, saída polêmica de Nelsinho do Inter; filho Eduardo estreia contra Corinthians
Quando sai por uma proposta melhor é chamado de traidor
Por que a saída de Nelsinho em 1996 foi tão polêmica? Não era comum um técnico sair para outro clube?
Era comum, sim, mas o timing foi brutal. Ele saiu logo após uma derrota no clássico, quando o time estava em crise. A torcida e os dirigentes sentiram como abandono, como se ele estivesse fugindo de um barco que começava a afundar.
Mas ele tinha razão quando disse que não estava abandonando nada. O Corinthians era uma oportunidade legítima de carreira, e ele já havia conquistado um título lá antes.
Verdade. E ele mesmo explicou isso na época. O problema é que no futebol, a lógica emocional da torcida nem sempre dialoga com a lógica racional da carreira.
E agora o filho assume o Inter em circunstâncias parecidas?
Não exatamente parecidas. Eduardo está chegando em um momento ainda mais delicado, mas não há a mesma sensação de fuga. É uma nomeação, não uma saída controversa.
Embora a coincidência de o primeiro jogo ser contra o Corinthians seja notável, não há nada de causal ali. É puro acaso do calendário.
Então é só uma curiosidade histórica?
É mais do que isso. Revela como o futebol funciona em ciclos, como as famílias se entrelaçam com as instituições, e como trinta anos depois ainda ecoam as mesmas tensões entre lealdade e oportunidade.
Mas precisamos ser claros: a saída de Nelsinho foi legítima, mesmo que tenha gerado mágoa. Não há vilão nessa história, apenas escolhas difíceis.
Le Pouls
- Eduardo Baptista assume o Inter em setembro de 2026 num momento de fragilidade do clube, repetindo a circunstância delicada que seu pai enfrentou exatamente três décadas antes.
- A coincidência histórica é perturbadora: o primeiro adversário do filho será o Corinthians, o mesmo destino que Nelsinho escolheu em 1996 ao deixar o Inter de forma que muitos chamaram de traição.
- Em 1996, dirigentes e torcedores se sentiram abandonados — Nelsinho negou a saída até horas antes de partir, e o presidente admitiu, resignado, que não podia obrigá-lo a ficar.
- A tensão clássica entre lealdade ao clube e ambição profissional, que marcou a trajetória do pai, ressurge agora como pano de fundo simbólico para a estreia do filho.
- O jogo de 7 de outubro contra o Corinthians se transforma, antes mesmo de começar, num palco carregado de história — uma chance de Eduardo reescrever, ou ao menos ressignificar, o capítulo que seu pai deixou em aberto.
Trinta anos separam a saída polêmica de Nelsinho Baptista do Inter rumo ao Corinthians e a chegada de seu filho Eduardo ao mesmo clube — um intervalo longo o suficiente para que a ferida esfrie, mas não para que o destino perca o senso de ironia. O futebol, como poucas instituições humanas, guarda memória longa e cobra seus ciclos com precisão quase dramática: o primeiro jogo de Eduardo à frente do Colorado será justamente contra o time que um dia atraiu seu pai para longe de Porto Alegre.
Trinta anos é tempo suficiente para cicatrizar uma ferida, mas o futebol raramente deixa que se esqueça de vez. No final de setembro de 1996, o Internacional vivia uma crise no Brasileirão quando uma notícia inesperada sacudiu os bastidores do Beira-Rio: Nelsinho Baptista, técnico colorado, estava de saída — e seu destino era o Corinthians, clube pelo qual havia conquistado o Brasileirão de 1990.
A partida foi negada até o último momento. Nelsinho garantiu que só sairia se fosse demitido na madrugada. O presidente Pedro Paulo Záchia afirmou que o treinador cumpriria o contrato até dezembro. O vice Ibsen Pinheiro recorreu a uma metáfora reveladora: ao virar a bacia para jogar fora a água suja, corre-se o risco de perder também a criança. Mas a realidade se impôs, e Nelsinho partiu. Sua justificativa foi direta: no futebol, quando o técnico é mandado embora, tudo fica bem; quando sai por uma proposta melhor, é chamado de traidor.
Trinta anos depois, o destino resolveu brincar com a história. Eduardo Baptista, filho de Nelsinho, foi apresentado como novo técnico do Inter em setembro de 2026, assumindo o clube em momento igualmente delicado. E a ironia que fecha o ciclo: seu primeiro jogo com as cores vermelho e branco será no dia 7 de outubro, contra o Corinthians — o mesmo adversário para o qual seu pai havia partido três décadas antes. O futebol, ao que parece, guarda seus ciclos com uma precisão quase dramática.
Trinta anos é tempo suficiente para que uma ferida se cicatrize, mas nem sempre o bastante para que se esqueça. No final de setembro de 1996, o Internacional enfrentava um momento de turbulência. Havia pouco, a equipe havia perdido um clássico contra o Grêmio por 2 a 1 no Beira-Rio, diante de 47.172 torcedores. Os gols gremistas saíram dos pés de Paulo Nunes, que marcou de bicicleta, e Dinho, em cobrança de falta. Murilo descontou para o time da casa. O resultado aprofundava a crise colorada no Campeonato Brasileiro, enquanto abria caminho para o Grêmio avançar à segunda fase, de onde sairia campeão.
Mas o que aconteceria nos dias seguintes superaria em muito o impacto daquela derrota. Na terça-feira, 24 de setembro, começou a circular nos bastidores do Beira-Rio uma notícia que ninguém esperava: Nelsinho Baptista, técnico do Inter, estava deixando o clube. Seu destino era o Corinthians, justamente o time que o havia demitido seu antecessor, Valdyr Espinosa. Nelsinho havia conquistado o Brasileirão de 1990 pelo clube paulista e agora retornava. A informação pegou todos de surpresa e movimentou os corredores do Inter.
O próprio Nelsinho, quando questionado, negou peremptoriamente. "Só se fosse demitido na madrugada", respondeu, a poucas horas de arrumar as malas. O presidente Pedro Paulo Záchia também não titubeava: "Ele tem contrato até dezembro e com certeza cumprirá". O vice de futebol Ibsen Pinheiro, em tom mais poético, lançou mão de uma metáfora que revelava o incômodo: "Ao virar bruscamente a bacia para jogar fora a água suja, corremos o risco de perder também a criança". Eram outros tempos, quando a imprensa tinha acesso direto aos dirigentes e técnicos, e as fontes eram primárias, sem filtros de assessoria.
Mas a realidade se impôs. Na quarta-feira, 25 de setembro, o Correio do Povo já trabalhava com o nome do substituto de Nelsinho, que estava longe da capital gaúcha. Seria Mário Sérgio, que não veio; a opção recaiu sobre Figueroa. Nelsinho, então, explicou suas razões. "Estou voltando para São Paulo, um grande centro do futebol. É um passo importante na minha carreira. Nunca larguei o barco afundando e não faria isso agora, mas no futebol as trocas são frequentes. Quando o técnico é mandado embora, fica tudo certo. Quando sai por uma proposta melhor é chamado de traídor", disse. O presidente, resignado, admitiu o que os dirigentes consideravam uma traição: "Não posso colocar um revólver na cabeça dele e obrigá-lo a ficar".
Trinta anos depois, o destino quis brincar com a história. Eduardo Baptista, filho de Nelsinho, foi apresentado como novo técnico do Internacional em setembro de 2026, assumindo o cargo em um momento ainda mais delicado do que aquele que seu pai enfrentava em 1996. E a coincidência que faz ecoar o passado: o primeiro jogo de Eduardo com as cores vermelho e branco será contra o Corinthians, no dia 7 de outubro, na retomada do Brasileirão. O mesmo adversário para o qual seu pai havia partido três décadas antes. A história do futebol, parece, gosta de seus ciclos e suas ironias.
Citations marquantes
Estou voltando para São Paulo, um grande centro do futebol. É um passo importante na minha carreira. Nunca larguei o barco afundando e não faria isso agora, mas no futebol as trocas são frequentes.— Nelsinho Baptista, em 25 de setembro de 1996
Não posso colocar um revólver na cabeça dele e obrigá-lo a ficar— Pedro Paulo Záchia, presidente do Inter em 1996