Iniciativa usa lógica binária do debate público para questionar que tipo de país o Brasil quer ser, começando pela responsabilidade individual de cada cidadão. Campanha surgiu de reflexão após eliminação do Brasil na Copa do Mundo, comparando indicadores com outros países e questionando a imagem projetada nacionalmente.
Grupo lança campanha para classificar atitudes brasileiras como admiráveis ou desprezíveis
Essa conversa começa pelo alicerce, não por cima
Por que usar exatamente essa divisão binária se o próprio Chiesa reconhece que existem muitos tons de cinza?
Porque ele está apostando que a mente das pessoas já funciona assim. Se você tenta convencer alguém a pensar em nuances quando ela está acostumada a pensar em preto e branco, ela não te ouve. Mas se você usa a linguagem que ela fala, talvez ela pare para pensar.
Então é uma estratégia de jiu-jitsu retórico?
Exatamente. Ele está dizendo: vocês querem tudo ou nada? Tudo bem, vamos fazer isso, mas vamos fazer com propósito. Vamos usar essa energia para perguntar quem a gente quer ser.
E a questão da Copa do Mundo? Por que começar por aí?
Porque foi um momento em que o país inteiro estava olhando para si mesmo. A derrota criou uma abertura para a pergunta: o que isso diz sobre nós? Chiesa aproveitou esse momento de vulnerabilidade coletiva.
Mas não corre o risco de virar apenas mais uma coisa política?
Corre, sim. Chiesa diz que não quer interferir nas eleições, mas admite que política vai entrar. O que ele está apostando é que se a conversa começar pelo alicerce — quem somos, que valores queremos — talvez a política que saia disso seja diferente.
Você acha que vai funcionar?
Depende do que significa funcionar. Se for gerar engajamento nas redes, provavelmente sim. Se for realmente mudar como as pessoas pensam sobre responsabilidade coletiva, aí é mais difícil. Mas pelo menos alguém está tentando.
The Pulse
- Campanha 'Brasil Tipo A' lançada em 5 de agosto de 2026 no Instagram e Facebook
- Classificação binária: 'tipo A' (admirável) e 'tipo D' (desprezível)
- Surgiu de reflexão após eliminação do Brasil pela Noruega na Copa do Mundo em julho
- Sem votação formal inicial; debate estimulado pela equipe nos próprios perfis
Iniciativa usa lógica binária do debate público para questionar que tipo de país o Brasil quer ser, começando pela responsabilidade individual de cada cidadão. Campanha surgiu de reflexão após eliminação do Brasil na Copa do Mundo, comparando indicadores com outros países e questionando a imagem projetada nacionalmente.
Grupo de empresários e publicitários lança campanha 'Brasil Tipo A' nas redes sociais para estimular debate sobre atitudes e valores dos brasileiros, usando classificação binária entre comportamentos admiráveis e desprezíveis.
Um grupo de empresários e publicitários colocou no ar nesta semana uma campanha que pretende transformar as redes sociais em um espaço de reflexão sobre quem somos como país. Batizada de "Brasil Tipo A", a iniciativa convida brasileiros a enviarem exemplos de atitudes e comportamentos — de pessoas, ações ou iniciativas — classificados em duas categorias: "tipo A", para o admirável, e "tipo D", para o desprezível.
A ideia partiu de uma observação do publicitário Carlos Chiesa, um dos idealizadores do projeto. Após a eliminação do Brasil pela Noruega na Copa do Mundo em julho, Chiesa publicou um artigo na Folha comparando indicadores dos dois países e fazendo uma pergunta incômoda: que tipo de país nós realmente somos? A campanha nasceu dessa reflexão, mas com uma estratégia deliberada. Chiesa reconhece que o debate público brasileiro funciona em lógica binária — tudo é contra ou a favor, preto ou branco — e decidiu usar exatamente esse mecanismo para provocar uma conversa mais profunda sobre valores e identidade nacional.
"Existem muito mais do que 50 tons de cinza entre o preto e o branco", disse Chiesa. "Mas como estamos com essa configuração mental, pensei em usar esse mecanismo para discutir que tipo de país queremos ser." O ponto central da campanha não é culpar os jogadores ou o técnico pela derrota na Copa. É mais fundamental: a responsabilidade é de cada um de nós. "Eu sou responsável, você é responsável, todos nós somos responsáveis pela imagem de país que estamos transmitindo", afirmou Chiesa. "Essa conversa começa pelo alicerce, não por cima."
Os perfis da campanha entraram no ar no Instagram e Facebook na quarta-feira (5 de agosto) e chegaram ao LinkedIn no dia seguinte. O mecanismo é simples: usuários enviam seus exemplos, e a equipe publica e estimula o debate sobre as contribuições nos próprios perfis. Não há, pelo menos por enquanto, um sistema formal de votação. "É uma coisa efetivamente de baixo para cima", explicou Chiesa. Conforme a participação crescer, o projeto poderá adotar ferramentas de moderação para manter a qualidade da discussão.
Chiesa deixou claro que a campanha não tem orientação partidária e não foi criada para interferir nas eleições de 2026. Mas ele reconheceu uma realidade: candidatos e comportamentos políticos certamente entrarão no debate conforme os usuários fizerem suas contribuições. "Não vou induzir nada, não é minha intenção escolher o candidato A, B, C ou D", disse. "O objetivo é mais a fundo: que tipo de gente somos, que tipo de povo somos. Para mim, isso é o alicerce; a campanha eleitoral é o topo."
O que torna a iniciativa interessante é justamente essa tensão: usar a polarização como ferramenta para transcender a polarização. Em um país onde as conversas públicas frequentemente se reduzem a posições extremas, uma campanha que força a escolha entre admirável e desprezível poderia parecer contraditória. Mas Chiesa vê nela uma oportunidade de começar um diálogo que vai além da superfície política. A pergunta que fica é se as redes sociais, historicamente um espaço de amplificação de conflitos, conseguirão acolher uma reflexão genuína sobre identidade nacional. Os próximos dias dirão se "Brasil Tipo A" consegue transformar a lógica binária em algo mais profundo, ou se apenas reproduz os mesmos padrões de debate que já conhecemos.
Notable Quotes
Existem muito mais do que 50 tons de cinza entre o preto e o branco. Mas como estamos com essa configuração mental de pensar que tudo é contra ou a favor, pensei em usar esse mecanismo para discutir que tipo de país queremos ser.— Carlos Chiesa, publicitário e idealizador da campanha
Eu sou responsável, você é responsável, todos nós somos responsáveis pela imagem de país que estamos transmitindo. Essa conversa começa pelo alicerce, não por cima.— Carlos Chiesa