Grace Passô usa o fantástico para expurgar traumas de pessoas negras em seu primeiro longa

O fantástico permite que você sinta antes de entender
Passô explica por que escolheu o sobrenatural para abordar traumas históricos e resiliência de famílias negras.
Mark

Como é que o fantástico entra nessa história de luto e trauma? Parece uma escolha arriscada para um assunto tão pesado.

Mimi

Exatamente por isso. Se você fala de luto de forma direta, corre o risco de cair em um didatismo que afasta as pessoas. O fantástico permite que você sinta a coisa antes de entender ela.

Mark

Mas há uma política clara no filme, certo? A questão racial, a família negra, o pai branco que morre.

Mimi

Tem, mas não é um filme que vem te explicar isso. É um filme que quer que você sinta o peso daquilo. A lama nas paredes, o teto apodrecendo—são imagens que falam mais que qualquer diálogo.

Mark

E a questão do Theatro Municipal? Parece que há uma briga acontecendo.

Mimi

Há. A nova gestão disse que não quer fazer produções "identitárias", e Grace viu nisso um retorno a uma ideia muito colonial de cultura. Como se diversidade fosse militância.

Mark

Ela está certa nisso?

Mimi

Ela está apontando algo real. Quando você rejeita a diversidade em nome da "pureza artística", você está escolhendo qual história merece estar no palco. E historicamente, essa escolha sempre excluiu corpos negros.

Mark

Então "Nosso Segredo" é também uma resposta a isso?

Mimi

É uma afirmação. De que esses corpos, essas histórias, merecem estar em evidência. Não como exceção, mas como normalidade.

  • Uma família negra em luto vê sua casa apodrecer por dentro — lama nas paredes, teto em ruínas — enquanto um segredo não dito contamina cada cômodo e cada silêncio.
  • O terror doméstico de 'Nosso Segredo' não é ornamento: é a forma que Passô encontrou para tornar visível o peso histórico que corpos negros carregam sem que precisem explicá-lo em discurso.
  • O filme vence o Festival de Gramado e confirma uma geração de cineastas mineiros que recusa o lugar de vítima e exige o direito à abstração, ao gênero, à metáfora — não apenas ao testemunho.
  • Fora das telas, Passô enfrenta a nova gestão do Theatro Municipal de São Paulo, que declara não ter intenção de adaptar óperas para grupos minoritários — posição que ela classifica como racista e colonial.
  • A disputa pelo Municipal revela uma tensão mais ampla: quem decide o que é arte legítima, e para quem os palcos da alta cultura foram — e continuam sendo — construídos.

Grace Passô estreia na direção cinematográfica com 'Nosso Segredo', vencedor do Festival de Gramado, tecendo o sobrenatural como linguagem para narrar o que a história oficial muitas vezes silencia: a resiliência afetiva de famílias negras diante de traumas coloniais. Aos 46 anos, a artista mineira — já consagrada nos palcos como atriz e dramaturga — leva ao cinema a mesma inquietação que marca sua obra: o estranhamento como porta de entrada para verdades que o realismo sozinho não alcança. Sua voz ressoa além das telas, ao questionar gestões culturais que, ao rejeitar a diversidade artística, perpetuam, segundo ela, uma visão colonial do que merece ser chamado de arte.

Grace Passô chegou ao Festival de Gramado como diretora estreante e saiu com o prêmio de melhor filme. 'Nosso Segredo' era uma das produções mais aguardadas da mostra, e o reconhecimento público de Selton Mello — que a descreveu como uma das maiores atrizes que conhece — sinalizava o peso de sua presença no evento. Para Passô, a transição para a direção foi natural: anos de teatro no Brasil, onde o artista precisa entender de produção para sobreviver, já a haviam treinado para pensar várias camadas ao mesmo tempo.

O filme acompanha uma mãe, uma tia e quatro filhos lidando com o luto após a morte do pai — o único branco da casa. A convivência parece ordinária, mas algo interdito contamina o ambiente. Lama escorre pelas paredes, o teto apodrece, e ninguém além da caçula Tutu ousa subir ao andar de cima. O sobrenatural não é susto: é a forma que Passô encontrou para tornar palpável aquilo que resiste à linguagem direta. 'Quais são as estratégias para continuar vivendo após grandes traumas?', pergunta ela. A resposta do filme é o afeto — a mesma força que, segundo a diretora, impediu que a tragédia colonial exterminasse seu povo.

Passô evita o didatismo. O elemento fantástico serve para transformar questões de raça, classe e gênero em sentimentos, não em argumentos. A casa em obras sem previsão de conclusão — realidade comum nas periferias — é também símbolo. Os rostos fechados em câmera revelam a perturbação crescente sem precisar nomeá-la. Essa mesma atenção ao simbólico marcou sua montagem de 'Porgy and Bess' no Theatro Municipal de São Paulo: cenário alaranjado, estrutura de madeira evocando cortiços, atores com tênis e correntes ao lado de blazers e estampas africanas.

Foi justamente no Municipal que surgiu o conflito mais recente. A nova gestão do teatro declarou não ter intenção de adaptar óperas para atender demandas de grupos minoritários como fez a gestão anterior. Passô respondeu com clareza: trata-se, para ela, de um resquício colonial, da saudade de um Brasil que reverenciava a expressão europeia como única forma legítima de arte. O Instituto Bacarelli rebateu, citando três décadas de trabalho em favelas. O impasse permanece — e revela, no fundo, a mesma disputa que 'Nosso Segredo' encena nas paredes de uma casa que insiste em não se fechar.

Grace Passô chegou ao Festival de Gramado na semana passada com seu primeiro longa-metragem como diretora e já se movia pelo evento como alguém que ali pertencia. "Nosso Segredo" era uma das produções mais esperadas da mostra, e o nome da cineasta ecoava pelos corredores do Palácio dos Festivais. Selton Mello, ator homenageado no festival gaúcho, não hesitou em elogiá-la publicamente durante uma coletiva, descrevendo-a como uma das maiores atrizes que conhece, dotada de uma presença avassaladora. Os dois haviam trabalhado juntos em um episódio da série "Sessão de Terapia" na Globoplay.

Aos 46 anos, Passô carrega um currículo extenso como atriz, especialmente nos palcos, onde também se estabeleceu como dramaturga. No cinema, protagonizou filmes como "Temporada", "No Coração do Mundo", "O Dia que Te Conheci" e "Praça Paris". No teatro, conquistou dois prêmios Shell por suas montagens de "Por Elise" e "Vaga Carne", um monólogo com o qual percorreu o país. Quando falou à imprensa no dia seguinte à exibição de "Nosso Segredo"—que seria coroado melhor filme do festival no sábado seguinte—ela explicou que a direção de cinema exigia pensar múltiplas coisas simultaneamente, algo que o teatro já a havia preparado para fazer. "Fazer teatro no Brasil te obriga a entender sobre produção", disse ela, usando óculos azulados e um blazer.

O filme acompanha uma família composta por mãe, tia e quatro filhos—três adultos e Tutu, de nove anos. Na primeira cena, o irmão mais velho, interpretado por Robert Frank, conta a um passageiro de um aplicativo de transporte que seu pai, a única pessoa branca da casa, morreu recentemente. Apesar de uma convivência aparentemente pacífica, há uma tensão palpável no ar, como se houvesse um assunto interdito contaminando o espaço. O luto parece ser o vilão, até que o desconforto ganha formas sobrenaturais. Lama escorre pelas paredes, o teto começa a apodrecer, e nenhum habitante, exceto Tutu, ousa frequentar o andar superior da casa—que, segundo a mãe no início da história, está em obras há muito tempo.

Passô constrói uma camada de terror sobre o cotidiano aparentemente banal da família. "Tenho uma obsessão com o estranhamento. Com essa ideia de que algo estranho nos faz olhar de uma forma diferente para as histórias", afirma. Essa marca permeia seus trabalhos anteriores como autora. Em "Vaga Carne", uma entidade invade o corpo de uma mulher e a analisa de dentro para fora. Em "Nosso Segredo", a intenção é compreender como a ausência pode se tornar insuportavelmente presente. "Quais são as estratégias para continuar vivendo após grandes traumas, grandes perdas? Eu queria falar sobre o quanto, historicamente, pessoas negras e suas famílias sobreviveram a traumas devido ao afeto. É isso que fez a tragédia colonial não exterminar nosso povo", diz ela. A reflexão política permeia detalhes do cotidiano: em um momento, o filho mais velho menciona que o trabalhador cansado "não tem mais ouvido para escutar e olhos para ver"; em outra cena, o namorado da filha presenteia Tutu com uma máscara que usava na infância, quando sofria bullying na escola.

Mas Passô evita o didatismo que frequentemente acomete filmes dedicados a críticas sobre classe, raça ou gênero. O elemento fantástico funciona como estratégia para tratar assuntos complexos de forma visual e, mais importante, emocional. "O cinema negro tem contribuído muito para o cinema brasileiro. Em determinado momento, um filme precisava falar só sobre assuntos como racismo e violência. Hoje queremos abstrair os assuntos para que eles virem sentimentos", disse ela aos jornalistas em Gramado. O filme aposta em tomadas fechadas nos rostos dos atores, especialmente conforme sua perturbação se intensifica e a casa definha. O ambiente em obras, sem previsão de conclusão, é uma realidade comum a muitas residências periféricas, e a atenção particular de Passô à construção da casa revela seu método de preencher cenários com elementos simbólicos.

Essa abordagem esteve presente em sua montagem da ópera "Porgy and Bess" no Theatro Municipal de São Paulo em setembro do ano anterior. A ópera de George Gershwin, criada em 1935, retrata o cotidiano e a luta pela sobrevivência dos moradores negros de Catfish Row, um bairro fictício americano. Quando foi criada, rompeu barreiras ao exigir um elenco majoritariamente composto por cantores afro-americanos em uma época de segregação racial nos Estados Unidos—pela primeira vez, a realidade negra ocupava os palcos da alta cultura. Para levar a obra ao Brasil, Passô criou um cenário alaranjado com uma única e enorme estrutura de madeira colorida que emulava o cortiço da história, composta por vários compartimentos que se assemelhavam às casinhas típicas das favelas brasileiras. Os atores vestiam tênis esportivos, óculos espelhados e correntes, acessórios associados à cultura das periferias, enquanto outros figurinos pendiam para o clássico, com blazers ou roupas de estampas africanas.

Em junho, o Instituto Bacarelli assumiu a gestão do Theatro Municipal após a Sustenidos perder a disputa pelo equipamento cultural. Edilson Ventureli, diretor-executivo do Bacarelli, afirmou que a gestão não tem intenção de adaptar óperas para atender demandas de grupos minoritários da forma como fez a gestora anterior. Passô criticou essa posição, dizendo-se assustada com a associação de produções recentes a uma ideia de identitarismo. "É um resquício de uma noção muito colonial de cultura. São pessoas que têm saudade de um Brasil que não contava sua história verdadeira, que reverenciava uma ideia europeia de arte. Como se as belas artes fossem aquilo que consegue se aproximar da expressão europeia. Acho isso muito racista e demodê", afirmou. O Bacarelli respondeu que associar sua atuação ao racismo é surpreendente e não corresponde aos seus valores, citando 30 anos de trabalho em favelas promovendo inclusão social e democratizando o acesso à arte e à cultura.

No teatro, o trabalho de Passô atualiza as bases lançadas pelo Teatro Experimental do Negro, grupo fundado por Abdias Nascimento na década de 1940, que revolucionou a dramaturgia do país ao abrir caminho para que corpos negros ocupassem o palco como protagonistas de suas próprias histórias. É essa liberdade narrativa que ela leva também para as telonas, assim como outros cineastas mineiros como Gabriel Martins e André Novais Oliveira. "[São cineastas] que estão conseguindo colocar outros corpos em evidência. Corpos que se sentem livres para falar como são, com seu próprio sotaque, que ajudam o cinema a pensar o que é um ator", diz. É algo que demorou a chegar, mas já era há muito esperado, dada a recepção que Passô recebe por onde passa—uma realidade que um dos personagens de "Nosso Segredo" profetiza casualmente quando diz que "saudade é uma herança nossa".

Quais são as estratégias para continuar vivendo após grandes traumas, grandes perdas? Eu queria falar sobre o quanto, historicamente, pessoas negras e suas famílias sobreviveram a traumas devido ao afeto.
— Grace Passô
É um resquício de uma noção muito colonial de cultura. São pessoas que têm saudade de um Brasil que não contava sua história verdadeira, que reverenciava uma ideia europeia de arte.
— Grace Passô, criticando a nova gestão do Theatro Municipal
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