Há momentos em que uma artista atravessa o limiar entre interpretar histórias alheias e criar as suas próprias — e é nesse cruzamento que Grace Passô se encontra com 'Nosso Segredo', seu primeiro longa-metragem como diretora. Premiado com três Kikitos em Gramado, o filme chega aos cinemas brasileiros carregando décadas de dramaturgia negra condensadas em realismo fantástico, propondo que a presença negra — e não apenas sua representação — é o que pode transformar estruturalmente o cinema nacional.
Grace Passô estreia na direção com 'Nosso Segredo', premiado em Gramado
A presença negra é o que nos interessa agora
Por que é tão significativo que Grace Passô tenha dirigido o único filme de mulher na mostra competitiva principal de Gramado?
Porque Gramado é um dos principais festivais de cinema brasileiro, e essa ausência de mulheres na competição principal diz algo sobre quem ainda tem acesso a recursos e legitimidade para fazer longas-metragens. Grace quebrou isso.
Mas é importante notar que estamos falando de um festival específico em um ano específico. Não sabemos se isso reflete uma tendência mais ampla ou se é uma anomalia daquele festival naquele momento.
E quanto ao filme em si — o que o torna diferente?
Ele recusa explicar tudo. Usa silêncios, metáforas, realismo fantástico. Uma TV ligada sem estar na tomada. Conversas através de um cano. Essas imagens estranhas carregam significado sobre raça e luto.
A fonte diz que recebeu elogios por isso, mas não temos críticas específicas ou análises detalhadas do filme. Sabemos que foi premiado, mas não temos a voz de críticos independentes.
Grace menciona que "a presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade". Qual é a diferença?
Representatividade é estar visível, estar na tela. Presença é ter agência, ter a história contada do seu ponto de vista, estruturar o próprio cinema a partir de quem você é.
Isso é uma distinção que Grace está fazendo, e é importante, mas é também uma posição teórica. Nem todos no cinema concordariam com essa hierarquia entre os dois conceitos.
O filme é baseado em uma peça que Grace escreveu há vinte anos. Por que esperar tanto tempo para adaptá-lo?
Talvez porque ela precisava primeiro consolidar sua carreira como atriz, ganhar credibilidade, ter acesso a recursos para dirigir. Ou talvez porque o momento político e cultural do Brasil mudou, e agora era o momento certo para contar essa história.
A fonte não explica isso. Sabemos que a peça existe há duas décadas e que o roteiro foi reescrito para refinar debates raciais contemporâneos, mas não sabemos por que agora, especificamente.
The Pulse
- Grace Passô, já consagrada como atriz e primeira dramaturga negra a vencer o prêmio Shell de teatro, dá um salto decisivo ao assumir a cadeira de diretora pela primeira vez em um longa-metragem.
- Em Gramado, 'Nosso Segredo' era o único filme dirigido por uma mulher na mostra competitiva principal — uma ausência que se tornou presença ao vencer o prêmio de melhor ficção com três Kikitos.
- A narrativa fantástica — uma televisão ligada sem tomada, um menino que fala com estranhos através de um cano — tensiona a certeza do real para abrir espaço onde histórias negras possam ser contadas por quem as vive.
- Passô articula uma distinção urgente: o Brasil já reconhece sua maioria negra e seu racismo estrutural, mas o cinema precisa ir além da representatividade para afirmar a presença negra como força criadora.
- Com estreia nos cinemas na última quinta-feira, o filme consolida uma mudança de rota no audiovisual brasileiro e posiciona Passô como voz central dessa transformação.
Há momentos em que uma artista atravessa o limiar entre interpretar histórias alheias e criar as suas próprias — e é nesse cruzamento que Grace Passô se encontra com 'Nosso Segredo', seu primeiro longa-metragem como diretora. Premiado com três Kikitos em Gramado, o filme chega aos cinemas brasileiros carregando décadas de dramaturgia negra condensadas em realismo fantástico, propondo que a presença negra — e não apenas sua representação — é o que pode transformar estruturalmente o cinema nacional.
Grace Passô chegou aos cinemas com 'Nosso Segredo', seu primeiro longa como diretora — um drama fantástico construído sobre a peça teatral 'Amores Surdos', que ela mesma criou há duas décadas. Antes de chegar às telas, o filme já havia conquistado três Kikitos no Festival de Gramado, incluindo o de melhor ficção, sendo o único trabalho dirigido por uma mulher na mostra competitiva principal do evento.
Passô é figura singular no cenário cultural brasileiro: foi a primeira dramaturga negra a vencer o prêmio Shell de teatro e construiu uma carreira sólida como atriz em colaborações com Andrés Novais Oliveira, na Netflix e no Globoplay. Mas 'Nosso Segredo' representa uma virada — a passagem da interpretação para a criação plena.
A história acompanha uma família negra composta por mãe, tia e quatro filhos, cada um elaborando à sua maneira o luto pela morte do pai, um homem branco. O caçula Tutu guarda um segredo que só ele conhece, e é em torno desse mistério que o realismo fantástico se instala: uma televisão que funciona desligada, conversas travadas através de um cano. Para Passô, esses elementos servem para 'assustar uma certeza de realidade' e transportar o espectador a um espaço onde narrativas negras possam emergir de dentro.
'As pessoas negras foram, durante toda a história, contadas por quem não é negro', afirma a diretora. 'A necessidade de contar a própria história modifica estruturalmente o próprio cinema.' Ela distingue representatividade de presença — e é a segunda que, segundo ela, interessa agora. A coprodução Brasil-Portugal de 103 minutos permanece em cartaz nos cinemas do país.
Grace Passô chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira com seu primeiro longa-metragem como diretora, "Nosso Segredo", um drama fantástico que já havia conquistado três Kikitos no Festival de Gramado deste ano, incluindo a estatueta de melhor filme de ficção. A estreia marca um novo capítulo na trajetória de uma atriz que já se consolidou como expoente do cinema e do teatro negro — e que, há duas décadas, havia criado a peça teatral "Amores Surdos", a base dramatúrgica sobre a qual o filme foi construído.
Passô é conhecida por feitos singulares. Foi a primeira dramaturga negra brasileira a vencer o prêmio Shell de teatro. Nos últimos anos, trabalhou em colaborações memoráveis com o diretor Andrés Novais Oliveira em "Temporada" (2018) e "O Dia que Te Conheci" (2023). Estrelou "O Filho de Mil Homens" ao lado de Rodrigo Santoro em produção da Netflix dirigida por Daniel Rezende, que adapta o livro de Valter Hugo Mãe e aborda grupos marginalizados sob um olhar poético e existencial. Mais recentemente, integrou o elenco da sexta temporada de "Sessão de Terapia" no Globoplay, interpretando Rosa, uma psicóloga que supervisiona o terapeuta vivido por Selton Mello.
Mas "Nosso Segredo" representa algo diferente. Na 54ª edição do Festival de Gramado, um dos principais eventos da cultura brasileira dedicados ao cinema nacional, o filme era o único dirigido por uma mulher listado na mostra competitiva principal — um detalhe que carrega peso. A sessão no festival colheu elogios pela recusa ao didatismo autoexplicativo e pela profundidade com que aborda questões raciais, dimensionadas através dos personagens, dos diálogos e da ambientação visual.
A história se desenrola dentro do lar de uma família negra composta por mãe, tia e quatro filhos. Cada um deles enfrenta o luto pela morte do pai, um homem branco, de forma distinta. No andar superior da casa, porém, existe um segredo que apenas Tutu, o caçula, conhece. O roteiro, conduzido por falas emblemáticas e silêncios expressivos, foi adaptado da peça teatral de Passô para a linguagem cinematográfica, refinando debates raciais contemporâneos no processo.
Para traduzir a negritude em metáforas visuais, Passô utilizou o realismo fantástico no set de filmagem. Uma televisão permanece ligada mesmo desconectada da tomada. O pequeno Tutu conversa com uma figura desconhecida através de um cano. Esses elementos surreais funcionam, segundo a diretora, para "assustar uma ideia, uma certeza de realidade das coisas". Quando algo irreal acontece na tela, busca catapultar o espectador para outro lugar — um espaço onde as narrativas negras podem ser contadas por quem as vive.
"As pessoas negras e suas narrativas foram, durante toda a história, contadas por pessoas que não são negras. Fomos objetos de estudo e de fetiche", afirma Passô. "A necessidade de contar a sua própria história modifica estruturalmente o próprio cinema." Ela observa que o Brasil chegou a um ponto em que parte da sociedade consegue reconhecer que o país é formado fundamentalmente de pessoas negras e, simultaneamente, assume que frequentemente é racista. "A presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade", diz.
"Nosso Segredo" é uma coprodução Brasil-Portugal de 103 minutos, classificada para 14 anos. Além de Passô na direção, o elenco inclui Robert Frank, Efraim Santos e Jessica Gaspar. O filme permanece em cartaz nos cinemas do país.
Notable Quotes
As pessoas negras e suas narrativas foram, durante toda a história, contadas por pessoas que não são negras. Fomos objetos de estudo e de fetiche. A necessidade de contar a sua própria história modifica estruturalmente o próprio cinema.— Grace Passô
A presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade.— Grace Passô