Diante de uma inflação alimentar que pesou desproporcionalmente sobre os mais pobres, o governo federal brasileiro zerou, em 14 de março de 2025, as tarifas de importação sobre café, carne bovina, milho, azeite e outros itens essenciais — uma aposta de R$ 650 milhões anuais na ideia de que mais oferta pode domar preços que escaparam ao controle em 2024. A medida, aprovada por unanimidade e sem prazo de encerramento, revela tanto a urgência do momento quanto a complexidade de governar entre a mesa do consumidor e o campo do produtor.
Governo zera tarifas de importação de café e carne com custo de R$ 650 mi
Durará o tempo que for necessário, sem prazo definido
Por que o governo escolheu justamente esses alimentos e não outros?
A lista reflete uma estratégia de impacto imediato. Café e carne bovina são culturalmente relevantes e afetam diretamente o orçamento das famílias pobres. Sardinha e óleo de palma atendem nichos específicos. Mas frango e porco ficaram de fora — provavelmente para não desagradar demais os produtores locais.
Mas qual é a evidência de que isso vai realmente baratear na gôndola? O governo zerou a tarifa, mas o ICMS estadual segue em 17% a 20%. Os importadores vão repassar a redução ou vão embolsar a margem?
Essa é a grande incógnita. O governo pediu aos estados que reduzam o ICMS, mas não impôs nada. Sem isso, o efeito pode ser muito menor do que esperado.
E quanto ao custo fiscal de R$ 650 milhões? Isso é muito dinheiro.
É, mas o governo aposta que a medida durará menos de 12 meses, o que reduziria o custo real. Além disso, a ideia é que a oferta maior de produtos importados equilibre os preços e reduza a pressão inflacionária de forma mais ampla.
Espera — "menos de 12 meses" é uma suposição, não um compromisso. A resolução não tem prazo definido. Se a inflação não cair, o governo pode manter isso indefinidamente, e o custo pode ser muito maior.
Então essa é uma medida emergencial ou estrutural?
Emergencial, segundo Alckmin. Mas a falta de prazo fixo deixa em aberto. O governo está apostando em ações complementares — Plano Safra, estoques reguladores — para resolver o problema de forma mais profunda.
Mas nenhuma dessas ações complementares tem cronograma claro. O Plano Safra "será lançado ainda este ano". Isso é vago. E a licença sanitária de um ano — é suficiente para mudar a dinâmica do mercado?
Qual é o risco maior aqui?
Que os importadores não repassem a redução, ou que a produção local sofra sem que haja compensação. Também há o risco de que a medida não seja suficiente sem a redução do ICMS estadual.
E há outro risco: se a inflação não cair, o governo terá queimado R$ 650 milhões — ou mais — sem resolver o problema de fundo.
Il Polso
- A inflação de alimentos em 2024 corroeu o orçamento das famílias mais pobres, que gastam fatia maior da renda com comida, criando pressão política e social sobre o governo Lula.
- Alíquotas de até 32% sobre itens como sardinha em conserva e carne bovina congelada foram reduzidas a zero da noite para o dia, numa virada tarifária de alcance imediato.
- Produtores rurais brasileiros observam com desconfiança, temendo que a carne importada sem imposto concorra de forma desleal com a produção nacional.
- Economistas alertam que sem redução paralela do ICMS estadual — que pode chegar a 20% — o efeito no preço final ao consumidor pode ser muito menor do que o governo espera.
- O governo aposta em um conjunto de medidas complementares, incluindo o Plano Safra, ampliação de estoques reguladores e uma nova licença sanitária nacional, para sustentar o impacto da zeragem tarifária.
Diante de uma inflação alimentar que pesou desproporcionalmente sobre os mais pobres, o governo federal brasileiro zerou, em 14 de março de 2025, as tarifas de importação sobre café, carne bovina, milho, azeite e outros itens essenciais — uma aposta de R$ 650 milhões anuais na ideia de que mais oferta pode domar preços que escaparam ao controle em 2024. A medida, aprovada por unanimidade e sem prazo de encerramento, revela tanto a urgência do momento quanto a complexidade de governar entre a mesa do consumidor e o campo do produtor.
Na manhã de 14 de março de 2025, uma resolução publicada pela Câmara de Comércio Exterior transformou silenciosamente o custo de importar alimentos no Brasil. Café torrado, carne bovina desossada congelada, milho em grão, azeite e preparações de sardinha passaram a entrar no país sem pagar imposto — alíquotas que variavam entre 7,2% e 32% foram reduzidas a zero. A medida, anunciada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin dias antes, não tem prazo de encerramento: durará, nas palavras do ministro, "o tempo que for necessário".
A decisão é uma resposta direta à inflação de alimentos que marcou 2024, documentada pelo IBGE como superior à média geral e sentida com mais força pelas famílias de baixa renda. O raciocínio do governo é direto: produtos importados mais baratos ampliam a oferta no mercado interno e ajudam a equilibrar preços em um momento de estoques domésticos pressionados. O custo fiscal estimado é de R$ 650 milhões por ano, embora o governo acredite que uma duração inferior a 12 meses possa reduzir esse impacto.
A aprovação foi unânime na Câmara de Comércio Exterior, mas a lista tem contornos deliberados. Frango, porco e café descafeinado ficaram de fora. A seletividade gerou questionamentos de produtores rurais, especialmente no setor de carne bovina, que temem concorrência desleal. O governo sustenta que o foco é atender necessidades imediatas sem comprometer a produção nacional — um equilíbrio delicado que ainda está por ser provado.
A zeragem tarifária é apenas uma peça de um conjunto maior. O governo pediu aos estados que reduzam o ICMS sobre alimentos essenciais, mas deixou a decisão nas mãos dos governadores. Economistas alertam que, sem essa redução paralela, o efeito nos preços finais pode ser limitado. O Plano Safra, previsto para ainda este ano, e o fortalecimento de estoques reguladores completam a estratégia. Gestores de mercado estimam que o impacto total das ações pode chegar a R$ 1 bilhão, considerando todas as medidas complementares.
O verdadeiro teste virá nos próximos meses: dependerá de importadores, varejistas e da logística de abastecimento repassarem as reduções ao consumidor final — fatores que escapam ao controle direto do governo. A iniciativa sinaliza um esforço do governo Lula para responder às críticas sobre o custo de vida, mas seu legado será medido pela capacidade de equilibrar oferta importada e produção local sem sacrificar nenhum dos dois.
Na sexta-feira, 14 de março, o governo federal colocou em prática uma decisão que afeta diretamente o que os brasileiros pagam na mesa: zerou os impostos de importação sobre café, carne bovina desossada, milho, azeite e uma série de outros alimentos essenciais. A medida, anunciada na semana anterior pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, entrou em vigor após publicação da resolução da Câmara de Comércio Exterior e não possui data de término — durará, segundo o ministro, "o tempo que for necessário".
Os números revelam a escala da aposta governamental. Produtos que antes carregavam alíquotas entre 7,2% e 32% agora têm tarifa zero. Café torrado não descafeinado caiu de 9% para zero. Carne bovina desossada congelada, que era taxada em 10,8%, agora entra sem imposto. Preparações de sardinha, que custavam 32% em tarifa, também zeraram. O milho em grão passou de 7,2% para zero. Além disso, a cota de óleo de palma foi ampliada de 60 mil para 150 mil toneladas, mantendo alíquota zero por 12 meses. O custo fiscal estimado é de R$ 650 milhões por ano, embora o governo acredite que a duração menor que 12 meses pode reduzir esse impacto nos cofres públicos.
A decisão reflete uma resposta direta à inflação de alimentos que marcou 2024 e pressionou especialmente as famílias de baixa renda, que destinam parcela significativa de sua renda à alimentação. O IBGE documentou que a inflação de alimentos e bebidas superou a média geral no período. O governo aposta que produtos importados mais baratos aumentarão a oferta no mercado interno, equilibrando a demanda em um momento em que estoques domésticos estão pressionados. Alckmin destacou que a medida visa garantir "condições dignas de subsistência" à população e evitar riscos de desabastecimento.
A aprovação foi unânime na Câmara de Comércio Exterior, mas a lista de beneficiados tem limites claros. Frango e porco não entraram no pacote. Café descafeinado também ficou de fora. Essa seletividade gerou questionamentos entre produtores locais, que temem concorrência desleal com a carne bovina importada, embora o governo mantenha que o foco é atender necessidades imediatas sem prejudicar a produção nacional.
O governo não parou na zeragem tarifária. Pediu aos estados que reduzam o ICMS sobre alimentos essenciais — Alckmin citou ovos como exemplo — mas deixou a decisão nas mãos dos governadores. Economistas alertam que os efeitos podem ser limitados sem uma redução paralela do ICMS, que varia entre 17% e 20% dependendo do estado. O Plano Safra, a ser lançado ainda este ano, prevê incentivos à produção interna de itens da cesta básica. O fortalecimento de estoques reguladores também está nos planos. Uma licença sanitária válida por um ano, autorizando a venda de produtos analisados municipalmente em todo o país, foi proposta para agilizar o comércio interno.
A implementação foi ágil: anúncio em 6 de março, detalhamento em 13 de março, publicação e entrada em vigor em 14 de março. A ausência de prazo fixo, segundo Alckmin, oferece flexibilidade para ajustar a política conforme a evolução da inflação. Gestores de mercado estimam que o impacto total das ações contra a inflação de alimentos pode chegar a R$ 1 bilhão, considerando medidas complementares.
O sucesso real da iniciativa dependerá de fatores que estão além do controle governamental: a capacidade dos importadores de repassar as reduções aos preços finais, a logística de importação, e o comportamento do varejo. A medida também sinaliza um esforço do governo Lula para responder às críticas sobre o custo de vida após um 2024 marcado por inflação persistente. A longo prazo, será medida pela capacidade de equilibrar oferta e demanda sem comprometer a produção local, que segue como pilar econômico do país.
Citazioni salienti
A medida visa garantir condições dignas de subsistência à população, minimizando riscos de desabastecimento— Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
A ausência de prazo fixo oferece flexibilidade para ajustar a política conforme a evolução da inflação— Geraldo Alckmin