Em Lisboa, Gilberto Gil recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Nova, um gesto que condensou oito décadas de arte, exílio, resistência e reconstrução. Com 81 anos, o compositor baiano falou sobre democracia e guerra com a serenidade de quem já viu o mundo girar muitas vezes — e continua acreditando que a música é capaz de curar o que a política fere. O momento reuniu, numa só cerimônia, a gratidão de uma universidade, a esperança de um artista e a memória viva de um país que ainda aprende a honrar quem um dia perseguiu.
Gilberto Gil recebe título de doutor honoris causa e celebra fortalecimento da democracia brasileira
A mesma pessoa que recebeu o título foi presa durante a ditadura
O que significa para alguém como Gilberto Gil receber uma honraria acadêmica aos 81 anos, depois de tudo que viveu?
Acho que é menos sobre validação e mais sobre ciclo. Gil foi preso, exilado, viu a democracia ameaçada novamente. Receber um título de doutor em Lisboa, de uma universidade que representa valores que ele sempre defendeu, é como o mundo dizendo: você estava certo o tempo todo.
Ele falou bastante sobre os "horrores do mundo atual". Isso não contradiz a ideia de celebração?
Não, porque para Gil a celebração nunca foi ingênua. Ele não consegue separar a alegria da responsabilidade. A honraria é real, mas ele não pode fingir que o mundo está bem. A música dele sempre funcionou assim — alegria e lamento ao mesmo tempo.
Por que ele enfatizou tanto o papel do Estado na cultura?
Porque ele viu o que acontece quando o Estado abandona a cultura. Nos últimos anos, a pasta foi esvaziada. Para Gil, isso não é apenas uma questão de orçamento. É sobre quem tem acesso à arte. Se só quem tem dinheiro pode desfrutar cultura, você perde a democracia de verdade.
E essa coisa de Margareth Menezes estar no lugar certo — era elogio sincero ou diplomacia?
Provavelmente os dois. Mas Gil conhece o trabalho dela há tempo. Ele não elogiaria alguém que não acreditasse que pudesse fazer o trabalho bem. Para ele, competência e compromisso social andam juntos.
O que ele quis dizer com "discurso menos harmonioso"?
Que a arte não pode ser bonita demais quando o mundo está queimando. Se você é honesto, precisa deixar a feiura entrar na música também. É um aviso contra a escapismo.
The Pulse
- Num mundo marcado por guerras e instabilidade, Gil chegou a Lisboa carregando tanto a honraria quanto o peso dos 'horrores do mundo atual', que inevitavelmente entram em suas composições.
- O Brasil que ele descreveu ainda cicatriza: as instituições democráticas sofreram pressões durante o governo Bolsonaro, e o caminho da reconstrução exige diálogo constante entre povo e Estado.
- A cultura, que havia sido marginalizada, volta ao centro — e Gil vê na gestão de Margareth Menezes um sinal de que o Estado pode, de fato, garantir acesso à arte para os mais vulneráveis.
- A ironia da trajetória não passou despercebida: o mesmo homem preso pela ditadura e forçado ao exílio agora recebia uma honraria acadêmica, citando 'Tempo Rei' para nomear essa virada.
- A cerimônia terminou com música — um concerto que percorreu a obra do imortal da Academia Brasileira de Letras, reafirmando que a arte, para Gil, não é ornamento: é o próprio bálsamo.
Em Lisboa, Gilberto Gil recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Nova, um gesto que condensou oito décadas de arte, exílio, resistência e reconstrução. Com 81 anos, o compositor baiano falou sobre democracia e guerra com a serenidade de quem já viu o mundo girar muitas vezes — e continua acreditando que a música é capaz de curar o que a política fere. O momento reuniu, numa só cerimônia, a gratidão de uma universidade, a esperança de um artista e a memória viva de um país que ainda aprende a honrar quem um dia perseguiu.
Na terça-feira 31 de outubro, Gilberto Gil subiu ao palco da Universidade Nova de Lisboa para receber o título de doutor honoris causa — uma distinção que reconhecia não apenas suas mais de 600 canções, mas décadas de compromisso com a liberdade e a cidadania. Com 81 anos, o compositor baiano falou brevemente, mas com peso: mencionou os horrores das guerras atuais, que encontram caminho para suas composições, e também a esperança que sente pelo Brasil em reconstrução.
Depois dos anos de Bolsonaro, quando as instituições democráticas sofreram o que Gil chamou de 'leves ameaças', o país retoma o diálogo entre povo e instituições. A cultura, antes negligenciada, recupera espaço no governo — e Gil vê com otimismo a gestão de Margareth Menezes à frente do Ministério da Cultura, por sua compreensão profunda tanto da arte quanto das necessidades das populações mais humildes. Para ele, o Estado tem papel insubstituível no fomento cultural: o mercado não alcança onde a desigualdade é mais funda.
A cerimônia também foi um momento de reflexão pessoal. O mesmo homem que havia sido preso durante a ditadura militar e forçado ao exílio agora recebia uma honraria acadêmica. Gil citou 'Tempo Rei' para capturar a ironia e a graça daquele instante, agradecendo à universidade por reconhecer 'um cantor do simples, do sutil, quiçá do belo'. O reitor João Sáàgua destacou que a honraria celebrava valores que Gil encarna — liberdade, diversidade, democracia e harmonia pela arte — e homenageava, por meio dele, a cultura de língua portuguesa no mundo.
Ao final, Gil reafirmou sua crença de sempre: a música é um bálsamo. Em tempos duros, a arte não suaviza a realidade — ela a enfrenta, e é precisamente por isso que se torna necessária. A cerimônia encerrou com um concerto do músico Júlio Resende, percorrendo a vasta obra do compositor, lembrando ao público por que aquela honraria havia sido concedida.
Em Lisboa, na terça-feira 31 de outubro, Gilberto Gil subiu ao palco da Universidade Nova para receber uma honraria que marcava, de certa forma, o arco completo de sua vida. Com 81 anos, o compositor baiano aceitou o título de doutor honoris causa — uma distinção que reconhecia não apenas suas mais de 600 canções, mas também décadas de compromisso com a cidadania e a liberdade. O momento, porém, não era de celebração despreocupada. Em seu discurso, breve mas carregado de peso, Gil falou dos "horrores do mundo atual", das guerras que o atormentam e que, inevitavelmente, encontram caminho para suas composições.
Mas havia também esperança no que ele disse. Gil vê o Brasil em reconstrução. Depois dos anos de Jair Bolsonaro, quando as instituições democráticas sofreram o que ele chamou de "leves ameaças", o país está retomando o caminho dos diálogos amplos entre povo e instituições. As estruturas republicanas estão se fortalecendo. E a cultura, que havia sido negligenciada, está recuperando seu lugar de destaque no governo — algo que Gil conhece bem, tendo comandado o Ministério da Cultura entre 2003 e 2008. Ele vê nisso um sinal positivo, especialmente porque a pasta está agora nas mãos de Margareth Menezes, uma ativista cultural que, segundo Gil, compreende profundamente tanto a importância da arte quanto as necessidades dos povos mais humildes.
Gil insistiu em um ponto que parece central para ele: a cultura não nasce apenas da iniciativa privada ou do mercado. Ela floresce, sim, a partir das interações entre as várias linguagens que unem as populações. Mas os governos têm um papel insubstituível no fomento, particularmente para garantir que os mais desfavorecidos tenham acesso a todas as formas de arte. Não é um argumento novo em sua boca, mas ganha peso quando vem de alguém que viveu na pele o que significa ser artista em tempos de repressão.
Durante a cerimônia, Gil refletiu sobre os contrastes de sua própria trajetória. A mesma pessoa que agora recebia uma honraria acadêmica havia sido presa durante a ditadura militar brasileira e forçada ao exílio. "Vejam as voltas que o mundo dá", disse ele, citando uma de suas próprias canções — "Tempo Rei" — para capturar a ironia e a graça daquele momento. Ele agradeceu a universidade por reconhecer um "cantor do simples, do sutil, quiçá do belo", alguém que muitas vezes se viu acossado pelos horrores de um mundo que ele sente obrigado a contar em seu canto.
Para o reitor João Sáàgua, a honraria não era apenas um reconhecimento pessoal. Era uma expressão de gratidão por valores fundamentais que Gil corporifica: a energia criativa e a harmonia cósmica pela arte; a liberdade, a diversidade, a igualdade e a democracia pela cidadania. Num momento em que a sociedade enfrenta desafios profundos, Sáàgua observou, é extraordinário que um único homem represente tão bem tantos valores essenciais. A universidade também quis honrar, por meio de Gil, a cultura que se expressa em português e a presença da língua portuguesa no mundo.
Gil aproveitou a ocasião para falar também sobre como a tecnologia está transformando a criação artística. Um telefone celular, disse ele, pode agora ser um instrumento de arte. E quando perguntado sobre seu papel como artista em tempos tão duros, reafirmou sua crença de que a música funciona como um bálsamo — um alento para a humanidade em um mundo cada vez mais complexo. Os aspectos tormentosos da vida, explicou, obrigam a um discurso menos harmonioso nas canções, mas é precisamente essa capacidade de falar das dificuldades que torna a arte tão necessária. A cerimônia se encerrou com um concerto do músico Júlio Resende, que percorreu a vasta obra do compositor imortal da Academia Brasileira de Letras, lembrando ao público por que aquela honraria havia sido concedida.
Notable Quotes
Vejo o Brasil melhor, retomando o caminho dos diálogos amplos, variados, entre o povo e as instituições. Vejo o fortalecimento das instituições republicanas e democráticas, que sofreram leves ameaças no governo anterior— Gilberto Gil
O título de doutor honoris causa é uma expressão de profunda gratidão e reconhecimento pela sua vida e obra— João Sáàgua, reitor da Universidade Nova de Lisboa