Gerson, o jovem que sonhava em domar leões, morre atacado por leoa em João Pessoa

Gerson de Melo Machado, 19 anos, morreu atacado por leoa após invadir recinto do zoológico, deixando questões sobre falhas no sistema de proteção social e saúde mental.
Precisava de tratamento, que não foi oferecido a Gerson
A conselheira tutelar que acompanhou o jovem durante oito anos denuncia negligência estatal no acesso a cuidados psiquiátricos.
Mark

O que você quer que as pessoas entendam sobre quem era Gerson?

Mimi

Que ele não era apenas um menino impulsivo que cometeu um erro fatal. Ele era alguém que o Estado viu passar por oito anos e nunca ofereceu o que ele precisava.

Luke

Mas precisamos ser claros: a conselheira está dizendo que havia sinais de transtorno mental. Isso foi diagnosticado formalmente, ou é uma avaliação dela?

Mimi

Ela diz que era visível, que a mãe e os avós eram esquizofrênicos, que laudos foram solicitados. Mas os psiquiatras classificavam como problema comportamental.

Luke

Então não temos um diagnóstico confirmado de transtorno mental — temos uma conselheira dizendo que havia sinais e que o sistema não respondeu adequadamente.

Mark

E quanto ao sonho dele de domar leões? Isso era uma fantasia infantil ou algo mais?

Mimi

Começou aos dez anos. Verônica diz que ele realmente queria ir para a África. Não era apenas uma brincadeira — era o que o mantinha vivo em meio a tanta negligência.

Luke

Mas também precisamos perguntar: ele tentou invadir o zoológico outras vezes. Isso sugere que o comportamento era recorrente, não um impulso único.

Mark

E ninguém no zoológico o impediu dessa vez?

Mimi

A Prefeitura não explicou como ele conseguiu passar. Não sabemos se havia falhas de segurança ou se os funcionários simplesmente não o viram.

Luke

Exatamente. Há muitas perguntas sem resposta sobre o que aconteceu naquele domingo.

Mark

Então a culpa é compartilhada — do Estado, do sistema de saúde mental, do zoológico?

Mimi

Verônica acredita que sim. E ela está dizendo que não vai se calar sobre isso.

  • Gerson de Melo Machado, 19 anos, escalou muro de 6 metros e invadiu recinto de leoa no Parque Arruda Câmara em João Pessoa no domingo (30)
  • Acompanhado pelo Conselho Tutelar dos 10 aos 18 anos, com histórico de abandono familiar e pobreza extrema
  • Mãe e avós esquizofrênicos; conselheira afirma que sinais de transtorno mental eram visíveis mas classificados como problema comportamental
  • Gerson havia tentado invadir o zoológico em outras ocasiões; detalhes sobre falhas de segurança não foram divulgados

Jovem escalou muro de mais de 6 metros, ultrapassou grades de segurança e invadiu recinto da leoa no zoológico de João Pessoa no domingo (30). Gerson tinha histórico de abandono familiar, pobreza extrema e sonho desde os 10 anos de domar leões e viajar para a África.

Gerson de Melo Machado, 19 anos, morreu ao escalar muro de 6 metros e invadir recinto de leoa no Parque Arruda Câmara. Conselheira tutelar denuncia negligência estatal no acompanhamento de transtorno mental não tratado.

No domingo passado, em João Pessoa, um jovem de 19 anos chamado Gerson de Melo Machado — conhecido como "Vaqueirinho" — escalou um muro de mais de seis metros no Parque Arruda Câmara, ultrapassou grades de segurança, usou uma árvore como apoio e entrou no recinto onde estava uma leoa. O animal o atacou. Ele morreu.

A morte chocou o país não apenas pela brutalidade do ocorrido, mas pelo que ela revelou sobre a vida que Gerson havia vivido até ali. Verônica Oliveira, conselheira tutelar que o acompanhou durante oito anos, começando quando ele tinha dez, descreveu uma infância e adolescência marcadas pelo abandono dos pais, pela pobreza extrema e por um sonho singular: domar leões e viajar para a África. O primeiro encontro entre eles aconteceu quando Gerson foi encontrado sozinho pela Polícia Rodoviária Federal em uma rodovia. A partir dali, ele permaneceu sob supervisão do Conselho Tutelar.

O que Verônica viu durante esses oito anos a deixou convencida de que o Estado havia falhado sistematicamente com o menino. Ela afirma que sinais de transtorno mental eram visíveis — a mãe de Gerson era esquizofrênica, assim como seus avós — mas que os psiquiatras insistiam em classificar seu comportamento como meramente problemático, não como sintoma de uma condição que exigia tratamento. "Será que alguém com problema comportamental entra na jaula do leão, se joga para ele?", questionou ela nas redes sociais. "Isso não é só um problema comportamental. Precisava de tratamento, que não foi oferecido a Gerson."

Gerson passou por todos os acolhimentos institucionais da cidade. Entre seus irmãos, foi o único que não conseguiu ser adotado. Verônica explicou por quê: a sociedade, disse ela, quer adotar crianças perfeitas — uma impossibilidade dentro do sistema de acolhimento, onde só chegam aquelas que sofreram negligência extrema. O transtorno potencial de Gerson o tornou indesejável.

A conselheira descreveu seu desespero com a situação em termos que capturavam a tragédia de forma crua. "A história dele é a de um menino que só queria conhecer a África para domar leões. Percebeu tarde demais que a leoa não era uma gata e que não conseguimos domá-la sem conhecimento. Mas ele não tinha juízo suficiente para isso." Ela afirmou estar "arrasada" e prometeu que o Conselho Tutelar de Mangabeira não se calaria sobre o caso.

A Prefeitura de João Pessoa informou que Gerson havia tentado invadir o zoológico em outras ocasiões. Até o momento, não foram divulgados detalhes sobre como ele conseguiu acessar a área restrita sem ser impedido pelos funcionários, nem se havia falhas nos protocolos de segurança do local. O que fica claro é que um jovem com histórico de comportamento de risco, sem acesso a tratamento psiquiátrico adequado, conseguiu chegar até um animal selvagem — e ninguém o deteve.

Será que alguém com problema comportamental entra na jaula do leão, se joga para ele? Isso não é só um problema comportamental.
— Verônica Oliveira, conselheira tutelar
A história dele é a de um menino que só queria conhecer a África para domar leões. Percebeu tarde demais que a leoa não era uma gata e que não conseguimos domá-la sem conhecimento.
— Verônica Oliveira, conselheira tutelar
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