Em 2025, Brasil gastou R$ 133,3 bilhões em defesa, mas 77,7% foi com pessoal; apenas 8,25% para programas militares. Investimento militar brasileiro é 1% do PIB, metade da meta do Ministério da Defesa e distante dos 3,93% médios da Otan.
Gasto militar engessado desafia promessas de candidatos à presidência
Há dinheiro para pagar pessoas, mas pouco para comprar coisas
Por que o gasto com pessoal militar é tão difícil de reduzir?
Porque envolve pensionistas e inativos — pessoas que já saíram do serviço ativo mas continuam recebendo. Mexer nisso exigiria uma reforma previdenciária que nenhum político quer tocar.
E se o Brasil simplesmente deixasse de recrutar soldados obrigatoriamente?
Aí teria que profissionalizar tudo, pagar melhor para atrair voluntários. Seria uma transformação estrutural da instituição militar — não é uma mudança de orçamento, é uma mudança de regime.
Os candidatos sabem disso?
Sabem. Por isso nenhum oferece solução real. É mais fácil prometer investimento do que explicar como você vai reorganizar uma estrutura que existe há décadas.
Trump está realmente ameaçando o Brasil militarmente?
Está criando pressão diplomática e comercial. Classificou grupos criminosos brasileiros como terroristas, o que abre porta para ações armadas. Fez voos de bombardeiros pela região. É uma ameaça que existe, mas não é uma invasão iminente.
Então a defesa virou tema de campanha por causa de Trump?
Virou. Lula visitou parques militares três vezes em dois meses. Mas é retórica — os EUA gastam em uma semana de guerra o que o Brasil gasta em meses inteiros.
O Pulso
- Em 2025, Brasil gastou R$ 133,3 bilhões em defesa, 77,7% com pessoal
- Investimento militar é 1% do PIB, metade da meta do Ministério da Defesa
- Taxa de investimento cresceu de 6,7% em 2022 para 11% em 2025
- Lei de R$ 30 bilhões em seis anos para programas estratégicos não liberou nenhum centavo
Em 2025, Brasil gastou R$ 133,3 bilhões em defesa, mas 77,7% foi com pessoal; apenas 8,25% para programas militares. Investimento militar brasileiro é 1% do PIB, metade da meta do Ministério da Defesa e distante dos 3,93% médios da Otan.
Estrutura rígida de gastos com defesa no Brasil, concentrada em pessoal, limita capacidade de cumprir promessas de investimento feitas por Lula e rivais em campanha presidencial.
O Brasil gasta bilhões em defesa a cada ano, mas a estrutura desse gasto está tão engessada que desmente as promessas que o presidente Lula e seus rivais fazem na campanha de reeleição. Em 2025, o país desembolsou R$ 133,3 bilhões com defesa. Desse montante, 77,7% foi para pagar militares na ativa e na inatividade. Outros 14,05% cobriram custos operacionais do dia a dia. O que sobrou para investir em programas militares de fato — navios, aviões, equipamentos — foi apenas 8,25% do total. É um número que revela o dilema: há dinheiro para pagar pessoas, mas pouco para comprar coisas.
A situação melhorou um pouco sob Lula. Quando Jair Bolsonaro deixou o cargo em 2022, a taxa de investimento militar estava em 6,7%. Cresceu para 11% em 2025. Ainda assim, fica longe dos 20% que a Otan considera o padrão adequado para uma nação preparada. O Brasil investe o equivalente a cerca de 1% do seu PIB em defesa — metade da meta que o próprio Ministério da Defesa estabeleceu para si mesmo, e uma fração dos 3,93% que os 32 membros da Otan gastem em média.
Houve um momento em que as coisas foram diferentes. Em 2019, o governo Michel Temer conseguiu uma manobra criativa: usou a capitalização de uma estatal ligada às Forças Armadas para financiar um programa de fragatas da Marinha, contornando o teto de gastos que vigorava na época. Naquele ano, 14% do orçamento de defesa foi para programas militares. Metade disso era para os novos navios — três de quatro encomendados já haviam sido entregues em cinco anos, um feito raro. Mas a gambiarra de Temer foi um lampejo de vontade política que não se repetiu. A crise fiscal que assola o governo inteiro tornou improvável qualquer repetição.
Os relatos das Forças Armadas pintam um quadro de penúria. Aviões da Força Aérea não conseguem voar. Expedientes são reduzidos para economizar com refeições. O ministro da Defesa, José Múcio, tentou replicar a criatividade de Temer. Conseguiu fazer aprovar uma lei que separava R$ 30 bilhões em seis anos para programas estratégicos — sem ajuda do Planalto, apenas costurando apoio no Congresso. Lula incorporou essa promessa ao seu programa de governo enviado ao Tribunal Superior Eleitoral como prova de interesse na defesa. Na prática, porém, nenhum centavo foi liberado. Quando o governo congelou gastos em maio, a Defesa foi a pasta mais atingida, perdendo um terço de suas verbas discricionárias. Múcio voltou a bater perna no Congresso e conseguiu encaixar seu pedido de adiantamento como um jabuti em um projeto sobre combustíveis, mas o resultado permanece incerto.
O peso do gasto com pessoal é o nó górdio. Cerca de 40% do que se gasta com militares vai para inativos e pensionistas — uma conta que só mudaria com uma reforma previdenciária improvável politicamente. Para os militares na ativa, especialistas apontam duas saídas: aumentar o uso de militares temporários ou profissionalizar as Forças, abolindo o sistema de conscrição obrigatória. Ambas exigiriam repensar a estrutura militar do país inteiro.
O tema entrou na campanha presidencial por uma razão inesperada: as ingerências de Donald Trump. O presidente americano capturou o ditador Nicolás Maduro, bombardeia navios no Caribe e Pacífico, e está em rota de colisão com Lula — quer ver o petista substituído por Flávio Bolsonaro. Trump maneja uma guerra comercial e diplomática contra o Brasil. Chegou a classificar grupos criminosos brasileiros como terroristas internacionais, abrindo a porta para ações armadas. Na semana anterior à publicação desta reportagem, ensaiou um voo de bombardeiros pela vizinhança. Lula respondeu visitando parques militares três vezes desde julho e citando defesa como uma de cinco prioridades de um eventual novo mandato, dizendo que "há muito maluco mundo".
Mas a retórica é inviável. Os Estados Unidos gastam em seis dias de guerra no Irã o equivalente a seis meses inteiros do orçamento militar brasileiro. No programa que Lula enviou ao Tribunal Superior Eleitoral, há cinco páginas associando defesa com política externa — reflexo do embate com Trump. Não há uma linha sobre como reorganizar a estrutura de gasto. Dos quatro candidatos mais bem posicionados em pesquisas, todos prometem investir mais em defesa. Nenhum oferece uma solução estrutural. Flávio Bolsonaro, curiosamente dado que seu pai é ex-militar, é o mais frugal, dedicando apenas um parágrafo genérico às Forças Armadas. Ronaldo Caiado sugere revisar a Estratégia Nacional de Defesa, mas não aborda questões estruturais. Romeu Zema fala em integrar compras e racionalizar gastos, sem detalhar como.
Citações Notáveis
Há muito maluco mundo— Presidente Lula, em visitas a parques militares
Cerca de 40% do gasto com militares vai para inativos e pensionistas— Ministério da Defesa