Gasolina pura pode voltar aos postos brasileiros; duas propostas em discussão no Congresso

Rodar mais quilômetros não significa gastar menos dinheiro
O preço final da gasolina sem etanol pode ser mais alto que a convencional, anulando ganhos de consumo.
Mark

Por que agora, depois de tanto tempo, essas propostas ganham força no Congresso?

Mimi

Porque o Brasil elevou progressivamente o percentual de etanol na gasolina, e isso começou a danificar veículos que não foram projetados para isso. Não é só carro antigo; é também equipamento náutico, geradores. As pessoas começaram a se organizar.

Luke

Mas a gasolina A sem etanol já existe no Brasil. O que está sendo proposto é realmente novo, ou é só mudar onde ela é vendida?

Mimi

É mudar onde é vendida e como é regulada. Hoje a gasolina A é obrigada a receber etanol nas distribuidoras antes de chegar ao consumidor. Autorizar E0 significaria criar regras para vender gasolina pura direto no posto.

Mark

E quanto ao preço? Se a gasolina pura for mais cara, o consumidor realmente economiza rodando mais quilômetros por litro?

Mimi

Essa é a questão central. Sim, menos etanol significa mais energia por litro. Mas a gasolina A é mais cara que o etanol, então o preço final pode ser mais alto. Pode ser que o ganho de consumo não compense o aumento no preço da bomba.

Luke

Você tem números sobre quanto mais caro seria?

Mimi

Não. O texto não especifica. Depende dos preços vigentes de gasolina A e etanol anidro no momento, além de tributos e margens. É uma variável.

Mark

E a infraestrutura? Os postos conseguem vender três tipos de gasolina ao mesmo tempo?

Mimi

Teoricamente sim, mas exigiria mudanças. Armazenamento separado, bombas apropriadas, garantia de que os produtos não se misturem. A ANP ainda teria de regulamentar tudo isso.

Luke

As duas propostas são iguais?

Mimi

Não. A do Senado quer E0 e E10 como opção adicional, sem obrigatoriedade. A da Câmara quer tornar obrigatório oferecer gasolina sem etanol. Obrigatoriedade muda tudo.

Mark

Qual tem mais chance de passar?

Mimi

A do Senado está mais avançada, com 24 mil apoios e já em comissão. Mas a da Câmara é mais radical. Ainda é cedo para dizer.

  • Sugestão Legislativa 30/2026 no Senado com mais de 24 mil apoios
  • Projeto de Lei 4.783/2026 na Câmara propõe obrigatoriedade de oferta de E0
  • Veículos até anos 1990 sofrem danos com misturas acima de 30% de etanol
  • E32 contém 680 ml de gasolina A e 320 ml de etanol por litro; E0 seria 100% gasolina

Sugestão legislativa no Senado com 24 mil apoios propõe oferecer E0 e E10 como opção adicional sem eliminar gasolina convencional. Veículos antigos e equipamentos náuticos foram projetados para combustível com pouco ou nenhum etanol, sofrendo danos com misturas atuais.

Duas propostas no Congresso buscam autorizar a venda de gasolina sem etanol (E0) e com menor mistura (E10) nos postos brasileiros, atendendo demandas de proprietários de veículos antigos e setor náutico.

Dois projetos em tramitação no Congresso Nacional abrem a possibilidade de que os brasileiros possam abastecer seus veículos com gasolina sem etanol ou com uma proporção muito menor do biocombustível, encerrando uma década de aumento progressivo na mistura obrigatória. A iniciativa mais avançada está no Senado, onde a Sugestão Legislativa 30/2026 propõe disponibilizar gasolina pura, conhecida como E0, e gasolina E10 em todo o território nacional, mantendo simultaneamente a gasolina convencional com a mistura obrigatória de álcool. A sugestão nasceu do portal e-Cidadania, acumulou mais de 24 mil apoios de cidadãos e foi transformada em proposição formal. Desde 17 de setembro, está sob relatoria do senador Laércio Oliveira na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Se aprovada pela comissão, poderá seguir a tramitação normal no Congresso como projeto de lei.

Na Câmara dos Deputados existe uma segunda frente, mais agressiva. O Projeto de Lei 4.783/2026, apresentado pelo deputado Dr. Fernando Máximo, propõe tornar obrigatória a oferta de gasolina integralmente sem etanol, citando expressamente a preservação de veículos de coleção e a proteção de automóveis não bicombustíveis. O projeto aguarda despacho da Presidência da Câmara. Embora os dois textos tenham formatos distintos, ambos partem da mesma insatisfação: determinados veículos e equipamentos foram desenvolvidos para funcionar com gasolina contendo pouco ou nenhum etanol, enquanto o Brasil elevou progressivamente esse percentual ao longo dos anos.

O debate deixou de ser apenas uma reclamação de proprietários de carros antigos. Grupos organizados de colecionadores de veículos clássicos, representantes do setor náutico e cidadãos insatisfeitos com a eficiência da atual mistura agora defendem mais opções nos postos. A Federação Brasileira de Veículos Antigos posicionou-se oficialmente contra a elevação para E32, argumentando que veículos produzidos até os anos 1990 possuem componentes como mangueiras, vedações, carburadores e sistemas de alimentação que não foram desenvolvidos sequer para a mistura de 30% que vigorava anteriormente. O presidente da entidade, Andrés Pesserl, alertou que esses componentes sofrem degradação com proporções tão altas de álcool. O setor náutico também se mobilizou diretamente. A Associação Náutica Brasileira convocou empresários e proprietários de embarcações a apoiarem a proposta, argumentando que motores marítimos, motos aquáticas, geradores e outros equipamentos foram projetados para utilizar combustível com no máximo 10% de etanol, citando recomendações de fabricantes como Mercury Marine, Yamaha e Sea-Doo.

Mas a questão é mais complexa do que simplesmente colocar uma nova bomba no posto. A gasolina sem etanol já existe na cadeia brasileira de combustíveis, chamada gasolina A, produzida por refinarias e importada. Porém, antes de chegar ao consumidor, ela recebe o percentual obrigatório de etanol anidro nas distribuidoras, transformando-se em gasolina C. Autorizar uma E0 não significaria vender a mesma gasolina A que circula entre produtores e distribuidoras, mas criar regras para que o produto chegue ao tanque do consumidor. A Agência Nacional do Petróleo teria de definir especificações de qualidade, octanagem, volatilidade e outras características. Isso é crucial porque a gasolina-base brasileira é formulada considerando que receberá etanol posteriormente. O álcool não serve apenas para aumentar volume; altera propriedades importantes como octanagem, de modo que retirar o etanol não significa automaticamente produzir um combustível tecnicamente superior.

Um litro de gasolina com menos etanol possui mais energia disponível do que um litro com concentração maior do biocombustível, conforme explica o engenheiro químico Vinícius Bimbato, especialista em combustíveis. Isso significa que reduzir a quantidade de etanol tende a elevar a quilometragem por litro em condições semelhantes. Porém, o comportamento depende do projeto do motor, calibração eletrônica, taxa de compressão e outros parâmetros específicos. Nos carros flex brasileiros, a eletrônica foi desenvolvida para identificar e trabalhar com grandes variações na proporção de etanol, e o maior teor de álcool traz vantagem importante em sua alta octanagem, compensando parcialmente a perda de conteúdo energético. Não é correto simplesmente comparar percentuais de etanol e afirmar que um carro rodaria determinada porcentagem a mais; o que se pode afirmar é que E10 e E0 proporcionariam maior quilometragem por litro do que E32.

Mas rodar mais quilômetros com um litro não significa gastar menos dinheiro. O etanol anidro usado na mistura é mais barato que a gasolina A. Ao diminuir o percentual de etanol, a mistura passa a utilizar quantidade maior do componente mais caro. Hoje, cada litro de E32 contém aproximadamente 680 ml de gasolina A e 320 ml de etanol anidro. Na E10, seriam 900 ml de gasolina e 100 ml de etanol. Na E0, todo o litro seria gasolina. Como a gasolina A tende a custar mais que o etanol que substituiria, E10 e E0 tenderiam a sair mais caras que a gasolina convencional. O preço final não pode ser obtido apenas substituindo um combustível pelo outro; entram também os preços vigentes, tributos, margens de distribuição e eventuais custos extras para transportar, armazenar e comercializar um novo tipo de gasolina. Para o consumidor, a comparação mais importante seria quanto custa cada quilômetro rodado, não apenas o preço do litro. A E0 pode permitir que determinado veículo percorra mais quilômetros com um litro, mas se o aumento no preço da bomba for proporcionalmente maior que o ganho de consumo, a vantagem desaparece.

Outro desafio está entre a distribuidora e a bomba. Se E32, E10 e E0 fossem comercializados simultaneamente e armazenados separadamente, seria preciso garantir a segregação dos produtos ao longo da cadeia. Isso poderia exigir capacidade adicional de armazenamento, linhas e bombas apropriadas ou outro modelo de operação autorizado pela regulamentação. A lei seria apenas o primeiro passo; a ANP e demais órgãos responsáveis ainda precisariam definir como a distribuição, armazenagem, identificação e fiscalização funcionariam na prática. Há uma diferença importante entre as duas propostas em discussão. A sugestão do Senado defende que a venda de E0 e E10 seja uma opção adicional, sem extinguir a gasolina convencional e sem obrigatoriedade. Já o PL 4.783/2026 da Câmara fala em obrigatoriedade de oferta da gasolina sem etanol. Obrigar postos a disponibilizar uma nova gasolina teria consequência muito diferente de simplesmente autorizar os estabelecimentos interessados a comercializá-la.

Carros produzidos até os anos 1990 podem ter componentes que não foram desenvolvidos sequer para a mistura de 30% que vigorava anteriormente
— Andrés Pesserl, presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos
Não é correto simplesmente comparar a porcentagem de etanol e dizer que um carro obrigatoriamente passaria a rodar determinada porcentagem a mais
— Vinícius Bimbato, engenheiro químico especialista em combustíveis
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