Gasolina com 35% de etanol pode prejudicar motores não flex, alerta especialistas

Motores mais sensíveis podem exigir recalibrações para manter o funcionamento
Especialista da indústria automotiva explica os desafios técnicos que carros não flex enfrentarão com o aumento de etanol.

No Brasil, uma proposta legislativa aprovada na Câmara dos Deputados em março de 2024 pretende elevar gradualmente o teor de etanol na gasolina para até 35% até 2030, em nome da redução de emissões globais de carbono. O gesto, porém, carrega consigo uma tensão antiga entre os grandes objetivos climáticos e as realidades cotidianas de milhões de motoristas — especialmente aqueles com veículos antigos ou importados, não preparados para absorver essa transição. A sabedoria coletiva ainda busca o equilíbrio entre o horizonte ambiental e o chão das cidades.

  • O Projeto de Lei 4516/2023, já aprovado na Câmara, pode obrigar proprietários de carros não flex a enfrentar maior consumo, recalibrações e custos inesperados.
  • Especialistas da engenharia automotiva alertam que motores sensíveis às variações de etanol podem comprometer não apenas o desempenho, mas também a qualidade do ar urbano.
  • A proposta amplia o piso de etanol na gasolina de 18% para 22% e abre caminho para chegar a 35%, enquanto o biodiesel no diesel pode saltar dos atuais 14% para 20% até março de 2030.
  • A gasolina premium, com menor teor de etanol e maior octanagem, surge como alternativa técnica — mas seu preço elevado pode transformar a solução em mais um peso para motoristas já pressionados pela inflação.
  • O projeto segue para o Senado com questões técnicas, econômicas e ambientais ainda sem resposta definitiva, deixando a indústria automotiva e os órgãos ambientais em compasso de espera.

Um projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados na semana de 13 de março de 2024 propõe reformular a composição dos combustíveis no Brasil ao longo dos próximos seis anos. De autoria do deputado Arnaldo Jardim, o PL 4516/2023 segue agora para o Senado Federal carregando um debate que divide a indústria automotiva: elevar o etanol na gasolina de um piso de 22% até o teto de 35%, e o biodiesel no diesel dos atuais 14% para até 20%, ambos com implementação gradual até março de 2030.

O ponto mais sensível da proposta está na distinção entre veículos flex e os movidos exclusivamente a gasolina. Enquanto os primeiros foram projetados para lidar com qualquer proporção entre os dois combustíveis, carros mais antigos ou importados podem enfrentar aumento no consumo e necessidade de recalibrações técnicas. Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, alerta ainda para os efeitos sobre as emissões locais — monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e hidrocarbonetos —, que podem piorar nas cidades mesmo enquanto o projeto mira a redução global de CO₂.

Como alternativa para os proprietários de veículos mais sensíveis, a gasolina premium — com maior octanagem e menor teor de etanol — ganha relevância. O problema é o preço: significativamente mais alto que o da gasolina comum, esse combustível representaria um custo extra para motoristas já pressionados pela inflação. As questões técnicas e econômicas levantadas pelo projeto permanecem em aberto enquanto ele aguarda análise no Senado.

Um projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados na semana de 13 de março promete reformular a composição dos combustíveis vendidos no Brasil nos próximos seis anos, mas especialistas já alertam para consequências que podem afetar milhões de proprietários de veículos. O Projeto de Lei 4516/2023, de autoria do deputado Arnaldo Jardim, segue agora para análise no Senado Federal após sua aprovação, carregando consigo um debate que divide a indústria automotiva.

A proposta traz mudanças significativas nos percentuais de etanol misturado à gasolina e de biodiesel adicionado ao diesel, com implementação gradual até 2030. Atualmente, a gasolina comum contém 27,5% de etanol anidro, com um mínimo obrigatório de 18%. O novo projeto estabeleceria um piso de 22% e permitiria chegar a 35% — um aumento considerável que preocupa quem trabalha com motores veiculares. No diesel, o biodiesel passaria dos atuais 14% para um máximo de 20% até março de 2030.

O cerne da preocupação reside em uma distinção fundamental: enquanto os automóveis flex estão projetados para funcionar com qualquer proporção de gasolina e etanol, os veículos movidos exclusivamente a gasolina — especialmente modelos antigos ou importados — podem sofrer com essa transição. Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, explica que o aumento do teor de etanol tende a elevar o consumo de combustível nesses carros. Além disso, motores mais sensíveis às variações podem exigir recalibrações e ajustes técnicos para manter o funcionamento adequado.

O impacto não se limita ao desempenho. Gonçalves também chama atenção para as emissões locais — monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e hidrocarbonetos — que podem ser afetadas pela mudança na composição do combustível. Enquanto o projeto busca reduzir emissões de CO₂ em escala global, as consequências para a qualidade do ar nas cidades brasileiras ainda carecem de análise mais profunda.

Diante desse cenário, a gasolina premium emerge como uma possível saída para proprietários de veículos mais sensíveis. Com maior octanagem e menor teor de etanol, esse tipo de combustível poderia servir como alternativa para quem não conseguisse adaptar seus motores às novas exigências. No entanto, essa solução carrega um custo: gasolina premium é significativamente mais cara que a comum, o que representaria um ônus adicional para motoristas já afetados pela inflação.

O projeto segue seu caminho legislativo com a aprovação na Câmara, mas as questões técnicas e econômicas que levanta continuam em aberto. A indústria automotiva, os proprietários de veículos e os órgãos ambientais ainda precisam processar as implicações reais dessa mudança antes que ela se torne lei.

O aumento do teor de etanol na gasolina pode resultar em um aumento no consumo desses veículos, e motores mais sensíveis podem necessitar de novas calibrações
— Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que especialistas estão preocupados especificamente com carros não flex?

Model

Porque esses motores foram calibrados para funcionar com uma proporção específica de etanol. Quando você muda essa proporção drasticamente, o motor não consegue se adaptar sozinho — ele queima mais combustível, funciona menos eficientemente, e pode até sofrer danos internos ao longo do tempo.

Inventor

E os carros flex não têm esse problema?

Model

Não. Os flex foram projetados exatamente para isso — para lidar com qualquer mistura. Mas a maioria dos carros antigos, e muitos importados, não têm essa flexibilidade. É uma questão de engenharia.

Inventor

Qual é o objetivo real do projeto? Por que aumentar o etanol?

Model

Oficialmente, é reduzir emissões de carbono e aproveitar a vantagem que o Brasil tem como grande produtor de cana-de-açúcar. Etanol é uma fonte renovável. Mas há um custo local que ninguém está falando muito — as emissões de poluentes que afetam a qualidade do ar nas cidades.

Inventor

Então é um trade-off entre benefício global e problema local?

Model

Exatamente. Você reduz CO₂ para o planeta, mas pode piorar a qualidade do ar que as pessoas respiram todo dia. E ainda há o problema do consumo — seu carro vai gastar mais gasolina.

Inventor

A gasolina premium resolve isso?

Model

Parcialmente. Ela tem menos etanol, então funciona melhor em motores antigos. Mas é muito mais cara. Para a maioria das pessoas, não é uma solução real — é apenas uma opção para quem pode pagar mais.

Inventor

O que acontece agora?

Model

O projeto vai para o Senado. Mas as perguntas técnicas que os especialistas estão fazendo ainda não têm respostas claras. Há tempo para isso mudar antes de virar lei.

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