G20 travado por uma palavra: China bloqueia comunicado ao rejeitar crítica às estatais

O melhor carro de US$ 70 mil que se pode comprar por US$ 35 mil
Bessent descreveu assim a vantagem de preço da BYD, atribuindo-a aos subsídios governamentais chineses.
Mark

Por que uma única palavra causou tanto alvoroço? Não era possível encontrar uma redação que satisfizesse ambos os lados?

Mimi

Porque "não orientado pelo mercado" não é apenas uma palavra — é código. Os EUA a usam há anos para descrever as práticas econômicas chinesas sem nomeá-las explicitamente. Para Pequim, incluir essa frase em um comunicado do G20 seria aceitar uma crítica pública às suas estatais, que são fundamentais para o modelo econômico do país.

Luke

Mas vale notar que a China propôs uma alternativa. Não sabemos exatamente qual era a redação que ela oferecia, apenas que existia e que alguns países a apoiavam informalmente. Isso sugere que havia espaço para negociação, mas os EUA não cederam.

Mark

E quanto aos subsídios que Bessent mencionou? O relatório sobre a BYD realmente prova que a China está subsidiando injustamente?

Mimi

O relatório do Rhodium Group estimou US$ 292 em subsídios diretos por veículo da BYD, o que é uma quantia real. Mas o próprio estudo reconhece que a maior parte da vantagem competitiva da BYD vem de outras coisas — fabricação interna de componentes, escala de produção. Então a história é mais complexa do que "subsídios injustos".

Luke

Exatamente. E a China tem um ponto válido quando aponta que os EUA e a UE também subsidiam setores estratégicos. O documento chinês de julho menciona veículos elétricos e inteligência artificial. Não temos números específicos sobre esses subsídios americanos no texto, então não podemos comparar diretamente.

Mark

Então o que muda agora? Xi Jinping vai a Washington em breve, certo?

Mimi

Sim, e essa reunião do G20 deixa claro que as tensões comerciais continuam muito vivas. Bessent tem sido central nessas negociações, então ele provavelmente estará envolvido nas conversas bilaterais sobre inteligência artificial e outros temas.

Luke

Mas também vale dizer que o impasse em Asheville não é necessariamente um sinal de que a cúpula fracassará. Às vezes, esses bloqueios em fóruns multilaterais como o G20 são mais sobre postura política do que sobre uma impossibilidade real de acordo. O que acontecerá em Washington dependerá de negociações muito diferentes.

  • Uma única expressão — 'não orientado pelo mercado' — foi suficiente para travar o comunicado conjunto de todo o G20, expondo a fragilidade do multilateralismo diante de rivalidades bilaterais.
  • A China, com um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025, viu na linguagem americana uma tentativa de criminalizar suas empresas estatais nos fóruns internacionais.
  • Negociadores chineses propuseram uma formulação alternativa para tratar dos desequilíbrios sem nomear as estatais, mas os EUA recusaram qualquer concessão terminológica.
  • O secretário do Tesouro Scott Bessent acusou publicamente Pequim de bloquear o acordo, enquanto a China retrucou que o G20 estava sendo usado para justificar protecionismo disfarçado de princípio.
  • O impasse chega às vésperas de uma cúpula de alto nível entre Trump e Xi, tornando a disputa semântica um termômetro das tensões que nenhuma agenda diplomática conseguiu ainda dissipar.

Em Asheville, na Carolina do Norte, a reunião dos ministros de Finanças do G20 encerrou-se sem comunicado conjunto — não por falta de vontade diplomática, mas por causa de três palavras que carregam o peso de décadas de tensão econômica. A expressão 'não orientado pelo mercado', rotineira para Washington, soou a Pequim como uma acusação velada ao modelo de capitalismo de Estado que sustenta a segunda maior economia do mundo. O episódio, ocorrido semanas antes de uma cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, revela que as disputas comerciais entre as duas potências não são apenas sobre tarifas ou déficits, mas sobre visões fundamentalmente distintas de como a economia global deve funcionar.

A reunião dos ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, encerrou a semana de 3 de setembro de 2026 sem o esperado comunicado conjunto. O motivo, segundo o secretário do Tesouro americano Scott Bessent, foi a recusa da China em aceitar um texto que continha a expressão 'não orientado pelo mercado' — linguagem técnica para Washington, mas uma acusação direta às empresas estatais chinesas aos olhos de Pequim.

Durante as negociações, os representantes chineses — liderados pelo presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, e pelo vice-ministro das Finanças Liao Min — propuseram uma formulação alternativa que tratasse dos desequilíbrios comerciais sem destacar explicitamente o papel das estatais. Alguns países sinalizaram simpatia pela proposta, mas não houve consenso com os americanos. A declaração final, assinada apenas pelos EUA e aliados, incluiu a frase na íntegra. A China não aderiu.

O pano de fundo é expressivo: a China registrou em 2025 um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, enquanto os EUA acumularam déficit de cerca de US$ 200 bilhões com Pequim no mesmo período. Bessent acusou a China de suprimir a demanda doméstica e subsidiar excessivamente suas indústrias, citando a montadora BYD como exemplo de empresa que vende carros de US$ 70 mil por US$ 35 mil graças ao apoio estatal. Um relatório do Rhodium Group, porém, atribuiu a maior parte da competitividade da BYD à integração vertical e à escala produtiva, e não apenas aos subsídios diretos.

A China rejeitou as acusações. Seu Ministério do Comércio publicou documento argumentando que EUA e União Europeia também subsidiam setores estratégicos, e a porta-voz Huang Ling afirmou que usar o G20 para pressionar Pequim equivale a justificar protecionismo. Pan Gongsheng, por sua vez, apontou a imprevisibilidade das políticas econômicas ocidentais como fator agravante dos desequilíbrios globais.

O impasse em Asheville ocorre poucas semanas antes de uma cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump em Washington — e deixa claro que as divergências entre as duas maiores economias do mundo vão muito além de tarifas: são disputas sobre os próprios termos com que o mundo descreve o comércio justo.

A reunião dos ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, terminou sem comunicado conjunto na semana de 3 de setembro de 2026. O culpado, segundo o secretário do Tesouro dos EUA Scott Bessent, foi Pequim — que se recusou a aceitar um texto que continha uma única expressão: "não orientado pelo mercado".

Para os negociadores americanos, era linguagem técnica, um termo que Washington usa há anos para descrever intervenções governamentais que distorcem o comércio global. Para a China, porém, aquelas três palavras representavam uma crítica velada às suas empresas estatais, o coração da economia do país. A divergência girou inteiramente em torno dessa frase. Bessent acusou publicamente as autoridades chinesas de bloquear o comunicado, atribuindo o impasse a desacordos sobre minerais críticos, reestruturação de dívidas e outras questões. Mas segundo pessoas familiarizadas com as negociações, o verdadeiro ponto de ruptura era aquela expressão específica.

Durante as conversas, os negociadores chineses — liderados por Pan Gongsheng, presidente do Banco do Povo da China, e pelo vice-ministro das Finanças Liao Min — propuseram uma formulação alternativa que abordasse os desequilíbrios comerciais sem destacar explicitamente as estatais. Alguns países ofereceram apoio informal à sugestão chinesa, mas não houve consenso com os Estados Unidos. A versão final da declaração, que refletiu apenas a posição americana, incluiu a frase de que os países devem concordar em "eliminar políticas e práticas não orientadas pelo mercado que agravem os desequilíbrios". A China não assinou.

O episódio revela as tensões profundas entre as duas maiores economias do mundo em um momento particularmente delicado. A reunião ocorreu poucas semanas antes de uma cúpula de alto nível entre o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump em Washington. Bessent tem sido central nessa relação, liderando negociações comerciais e preparando conversas bilaterais sobre inteligência artificial. Na quarta-feira, ele disse à Fox News que era "lamentável que os chineses não tenham querido seguir adiante".

O termo "não orientado pelo mercado" não é novo. O governo dos EUA o define oficialmente como intervenções que favorecem indústrias domésticas, incluindo ações de empresas estatais ou controladas pelo Estado. Em 2018, o Representante Comercial dos EUA descreveu uma investigação sobre o "sistema econômico não orientado pelo mercado" da China. Incluir a expressão em um comunicado do G20 seria, portanto, uma referência indireta a Pequim sem nomeá-la explicitamente — exatamente o que a China temia.

O pano de fundo dessa disputa é o superávit comercial chinês recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025, uma alta de 20% sobre o ano anterior. Os EUA, por sua vez, tiveram um déficit comercial de cerca de US$ 200 bilhões com a China no mesmo período. Bessent acusou Pequim de suprimir a demanda doméstica e depender excessivamente das exportações para impulsionar o crescimento. Segundo ele, cerca de 4% do PIB chinês seria direcionado a subsídios industriais. Ele citou a montadora BYD como exemplo, descrevendo seus veículos como "o melhor carro de US$ 70 mil que se pode comprar por US$ 35 mil" devido aos subsídios.

Um relatório do Rhodium Group publicado em 2026 estimou que os subsídios diretos à BYD equivalem a cerca de US$ 292 por veículo, respondendo por aproximadamente 5% da diferença de custo de US$ 4.700 em relação à Tesla no mercado chinês. O estudo, porém, atribuiu a maior parte da vantagem competitiva da BYD à fabricação interna de componentes e à escala de produção. A China rejeita as acusações de apoio estatal injusto. Em julho, seu Ministério do Comércio publicou um documento argumentando que os EUA e a União Europeia também subsidiam setores estratégicos como veículos elétricos e inteligência artificial. "Acusar a China de 'concorrência desleal' é um caso típico de 'duplo padrão'", afirmou o documento.

Na quinta-feira, Huang Ling, porta-voz do Ministério do Comércio chinês, declarou que usar fóruns multilaterais como o G20 para enfatizar alegações de desequilíbrios econômicos busca, na prática, justificar o protecionismo e conter a China. "Somos firmemente contra isso", disse. Pan Gongsheng, por sua vez, apontou a crescente onda de protecionismo, o uso excessivo de argumentos de segurança nacional e a imprevisibilidade das políticas econômicas como fatores importantes para o agravamento dos desequilíbrios globais. Ele defendeu que países com déficits reduzam seus desequilíbrios fiscais e aumentem suas taxas de poupança, enquanto economias superavitárias ampliem adequadamente o consumo e os investimentos. O impasse em Asheville deixa claro que essas divergências fundamentais permanecem longe de uma resolução.

É lamentável que os chineses não tenham querido seguir adiante
— Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, à Fox News
Somos firmemente contra" o uso de fóruns multilaterais para enfatizar alegações de desequilíbrios econômicos e conter a China
— Huang Ling, porta-voz do Ministério do Comércio chinês
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