Em Asheville, na Carolina do Norte, a reunião dos ministros de Finanças do G20 encerrou-se sem comunicado conjunto — não por falta de vontade diplomática, mas por causa de três palavras que carregam o peso de décadas de tensão econômica. A expressão 'não orientado pelo mercado', rotineira para Washington, soou a Pequim como uma acusação velada ao modelo de capitalismo de Estado que sustenta a segunda maior economia do mundo. O episódio, ocorrido semanas antes de uma cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, revela que as disputas comerciais entre as duas potências não são apenas sobre tarifas ou
G20 travado por uma palavra: China bloqueia comunicado ao rejeitar crítica às estatais
O melhor carro de US$ 70 mil que se pode comprar por US$ 35 mil
Por que uma única palavra causou tanto alvoroço? Não era possível encontrar uma redação que satisfizesse ambos os lados?
Porque "não orientado pelo mercado" não é apenas uma palavra — é código. Os EUA a usam há anos para descrever as práticas econômicas chinesas sem nomeá-las explicitamente. Para Pequim, incluir essa frase em um comunicado do G20 seria aceitar uma crítica pública às suas estatais, que são fundamentais para o modelo econômico do país.
Mas vale notar que a China propôs uma alternativa. Não sabemos exatamente qual era a redação que ela oferecia, apenas que existia e que alguns países a apoiavam informalmente. Isso sugere que havia espaço para negociação, mas os EUA não cederam.
E quanto aos subsídios que Bessent mencionou? O relatório sobre a BYD realmente prova que a China está subsidiando injustamente?
O relatório do Rhodium Group estimou US$ 292 em subsídios diretos por veículo da BYD, o que é uma quantia real. Mas o próprio estudo reconhece que a maior parte da vantagem competitiva da BYD vem de outras coisas — fabricação interna de componentes, escala de produção. Então a história é mais complexa do que "subsídios injustos".
Exatamente. E a China tem um ponto válido quando aponta que os EUA e a UE também subsidiam setores estratégicos. O documento chinês de julho menciona veículos elétricos e inteligência artificial. Não temos números específicos sobre esses subsídios americanos no texto, então não podemos comparar diretamente.
Então o que muda agora? Xi Jinping vai a Washington em breve, certo?
Sim, e essa reunião do G20 deixa claro que as tensões comerciais continuam muito vivas. Bessent tem sido central nessas negociações, então ele provavelmente estará envolvido nas conversas bilaterais sobre inteligência artificial e outros temas.
Mas também vale dizer que o impasse em Asheville não é necessariamente um sinal de que a cúpula fracassará. Às vezes, esses bloqueios em fóruns multilaterais como o G20 são mais sobre postura política do que sobre uma impossibilidade real de acordo. O que acontecerá em Washington dependerá de negociações muito diferentes.
Der Puls
- Uma única expressão — 'não orientado pelo mercado' — foi suficiente para travar o comunicado conjunto de todo o G20, expondo a fragilidade do multilateralismo diante de rivalidades bilaterais.
- A China, com um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025, viu na linguagem americana uma tentativa de criminalizar suas empresas estatais nos fóruns internacionais.
- Negociadores chineses propuseram uma formulação alternativa para tratar dos desequilíbrios sem nomear as estatais, mas os EUA recusaram qualquer concessão terminológica.
- O secretário do Tesouro Scott Bessent acusou publicamente Pequim de bloquear o acordo, enquanto a China retrucou que o G20 estava sendo usado para justificar protecionismo disfarçado de princípio.
- O impasse chega às vésperas de uma cúpula de alto nível entre Trump e Xi, tornando a disputa semântica um termômetro das tensões que nenhuma agenda diplomática conseguiu ainda dissipar.
Em Asheville, na Carolina do Norte, a reunião dos ministros de Finanças do G20 encerrou-se sem comunicado conjunto — não por falta de vontade diplomática, mas por causa de três palavras que carregam o peso de décadas de tensão econômica. A expressão 'não orientado pelo mercado', rotineira para Washington, soou a Pequim como uma acusação velada ao modelo de capitalismo de Estado que sustenta a segunda maior economia do mundo. O episódio, ocorrido semanas antes de uma cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, revela que as disputas comerciais entre as duas potências não são apenas sobre tarifas ou déficits, mas sobre visões fundamentalmente distintas de como a economia global deve funcionar.
A reunião dos ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, encerrou a semana de 3 de setembro de 2026 sem o esperado comunicado conjunto. O motivo, segundo o secretário do Tesouro americano Scott Bessent, foi a recusa da China em aceitar um texto que continha a expressão 'não orientado pelo mercado' — linguagem técnica para Washington, mas uma acusação direta às empresas estatais chinesas aos olhos de Pequim.
Durante as negociações, os representantes chineses — liderados pelo presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, e pelo vice-ministro das Finanças Liao Min — propuseram uma formulação alternativa que tratasse dos desequilíbrios comerciais sem destacar explicitamente o papel das estatais. Alguns países sinalizaram simpatia pela proposta, mas não houve consenso com os americanos. A declaração final, assinada apenas pelos EUA e aliados, incluiu a frase na íntegra. A China não aderiu.
O pano de fundo é expressivo: a China registrou em 2025 um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, enquanto os EUA acumularam déficit de cerca de US$ 200 bilhões com Pequim no mesmo período. Bessent acusou a China de suprimir a demanda doméstica e subsidiar excessivamente suas indústrias, citando a montadora BYD como exemplo de empresa que vende carros de US$ 70 mil por US$ 35 mil graças ao apoio estatal. Um relatório do Rhodium Group, porém, atribuiu a maior parte da competitividade da BYD à integração vertical e à escala produtiva, e não apenas aos subsídios diretos.
A China rejeitou as acusações. Seu Ministério do Comércio publicou documento argumentando que EUA e União Europeia também subsidiam setores estratégicos, e a porta-voz Huang Ling afirmou que usar o G20 para pressionar Pequim equivale a justificar protecionismo. Pan Gongsheng, por sua vez, apontou a imprevisibilidade das políticas econômicas ocidentais como fator agravante dos desequilíbrios globais.
O impasse em Asheville ocorre poucas semanas antes de uma cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump em Washington — e deixa claro que as divergências entre as duas maiores economias do mundo vão muito além de tarifas: são disputas sobre os próprios termos com que o mundo descreve o comércio justo.
A reunião dos ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, terminou sem comunicado conjunto na semana de 3 de setembro de 2026. O culpado, segundo o secretário do Tesouro dos EUA Scott Bessent, foi Pequim — que se recusou a aceitar um texto que continha uma única expressão: "não orientado pelo mercado".
Para os negociadores americanos, era linguagem técnica, um termo que Washington usa há anos para descrever intervenções governamentais que distorcem o comércio global. Para a China, porém, aquelas três palavras representavam uma crítica velada às suas empresas estatais, o coração da economia do país. A divergência girou inteiramente em torno dessa frase. Bessent acusou publicamente as autoridades chinesas de bloquear o comunicado, atribuindo o impasse a desacordos sobre minerais críticos, reestruturação de dívidas e outras questões. Mas segundo pessoas familiarizadas com as negociações, o verdadeiro ponto de ruptura era aquela expressão específica.
Durante as conversas, os negociadores chineses — liderados por Pan Gongsheng, presidente do Banco do Povo da China, e pelo vice-ministro das Finanças Liao Min — propuseram uma formulação alternativa que abordasse os desequilíbrios comerciais sem destacar explicitamente as estatais. Alguns países ofereceram apoio informal à sugestão chinesa, mas não houve consenso com os Estados Unidos. A versão final da declaração, que refletiu apenas a posição americana, incluiu a frase de que os países devem concordar em "eliminar políticas e práticas não orientadas pelo mercado que agravem os desequilíbrios". A China não assinou.
O episódio revela as tensões profundas entre as duas maiores economias do mundo em um momento particularmente delicado. A reunião ocorreu poucas semanas antes de uma cúpula de alto nível entre o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump em Washington. Bessent tem sido central nessa relação, liderando negociações comerciais e preparando conversas bilaterais sobre inteligência artificial. Na quarta-feira, ele disse à Fox News que era "lamentável que os chineses não tenham querido seguir adiante".
O termo "não orientado pelo mercado" não é novo. O governo dos EUA o define oficialmente como intervenções que favorecem indústrias domésticas, incluindo ações de empresas estatais ou controladas pelo Estado. Em 2018, o Representante Comercial dos EUA descreveu uma investigação sobre o "sistema econômico não orientado pelo mercado" da China. Incluir a expressão em um comunicado do G20 seria, portanto, uma referência indireta a Pequim sem nomeá-la explicitamente — exatamente o que a China temia.
O pano de fundo dessa disputa é o superávit comercial chinês recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025, uma alta de 20% sobre o ano anterior. Os EUA, por sua vez, tiveram um déficit comercial de cerca de US$ 200 bilhões com a China no mesmo período. Bessent acusou Pequim de suprimir a demanda doméstica e depender excessivamente das exportações para impulsionar o crescimento. Segundo ele, cerca de 4% do PIB chinês seria direcionado a subsídios industriais. Ele citou a montadora BYD como exemplo, descrevendo seus veículos como "o melhor carro de US$ 70 mil que se pode comprar por US$ 35 mil" devido aos subsídios.
Um relatório do Rhodium Group publicado em 2026 estimou que os subsídios diretos à BYD equivalem a cerca de US$ 292 por veículo, respondendo por aproximadamente 5% da diferença de custo de US$ 4.700 em relação à Tesla no mercado chinês. O estudo, porém, atribuiu a maior parte da vantagem competitiva da BYD à fabricação interna de componentes e à escala de produção. A China rejeita as acusações de apoio estatal injusto. Em julho, seu Ministério do Comércio publicou um documento argumentando que os EUA e a União Europeia também subsidiam setores estratégicos como veículos elétricos e inteligência artificial. "Acusar a China de 'concorrência desleal' é um caso típico de 'duplo padrão'", afirmou o documento.
Na quinta-feira, Huang Ling, porta-voz do Ministério do Comércio chinês, declarou que usar fóruns multilaterais como o G20 para enfatizar alegações de desequilíbrios econômicos busca, na prática, justificar o protecionismo e conter a China. "Somos firmemente contra isso", disse. Pan Gongsheng, por sua vez, apontou a crescente onda de protecionismo, o uso excessivo de argumentos de segurança nacional e a imprevisibilidade das políticas econômicas como fatores importantes para o agravamento dos desequilíbrios globais. Ele defendeu que países com déficits reduzam seus desequilíbrios fiscais e aumentem suas taxas de poupança, enquanto economias superavitárias ampliem adequadamente o consumo e os investimentos. O impasse em Asheville deixa claro que essas divergências fundamentais permanecem longe de uma resolução.
Bemerkenswerte Zitate
É lamentável que os chineses não tenham querido seguir adiante— Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, à Fox News
Somos firmemente contra" o uso de fóruns multilaterais para enfatizar alegações de desequilíbrios econômicos e conter a China— Huang Ling, porta-voz do Ministério do Comércio chinês