Futebol feminino brasileiro vive na obscuridade apesar da Copa do Mundo

O futebol feminino dos clubes existe numa invisibilidade cotidiana
Apesar da expectativa de sucesso da Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro feminino permanece desprestigiado e deficitário.
Mark

Como é possível que um país tão apaixonado por futebol deixe o campeonato feminino nessa situação?

Mimi

Porque o futebol feminino de clubes não é um grande evento. A Copa do Mundo é excepcional, rara. O Brasileiro acontece toda semana, e as pessoas simplesmente não vão.

Luke

Mas espera — a CBF repassa R$ 720 mil por time. Isso é suficiente para cobrir os custos operacionais de 18 times ao longo de uma temporada?

Mimi

Não, claramente não. O prejuízo total foi de R$ 3,4 milhões. Significa que os times gastam mais do que recebem.

Mark

E por que os estádios são tão precários? Muros, árvores, sem arquibancadas?

Mimi

Porque investir em infraestrutura não compensa quando você tem 358 pessoas por jogo. É um círculo vicioso: estádios ruins afastam público, público reduzido não justifica investimento.

Luke

Mas a final Corinthians x São Paulo teve 50 mil pessoas. Então o público existe quando há razão para ir.

Mimi

Exatamente. Mas são raras exceções. Flamengo x Fluminense, um clássico, teve 208 torcedores. Bahia x América-MG teve menos gente que jogadoras em campo.

Mark

Então a Copa do Mundo pode mudar isso?

Luke

Pode criar interesse momentâneo. Mas o Brasileiro continuará invisível se nada mudar estruturalmente.

Mimi

A questão é: quem vai investir em mudança se o público não comparece? E quem vai comparacer se os estádios são precários e as jogadoras são desconhecidas?

  • O Campeonato Brasileiro feminino de 2026 acumulou déficit operacional de R$ 3,4 milhões, com 162 dos 167 jogos terminando no prejuízo.
  • A média de público na fase classificatória foi de apenas 358 torcedores por jogo — e um clássico como Flamengo x Fluminense reuniu somente 208 pessoas no estádio.
  • Estádios sem arquibancadas, portões fechados para cortar custos e jogadoras desconhecidas pelo grande público compõem o cenário estrutural do esporte.
  • A final Corinthians x São Paulo foi a exceção que confirma a regra: mais de 50 mil torcedores no Morumbi mostraram que o interesse existe, mas permanece adormecido.
  • A CBF repassa verbas mínimas e celebra audiência televisiva crescente, enquanto o desafio de levar torcedores aos estádios segue sem resposta concreta.
  • A Copa do Mundo feminina de 2027, com projeção de 2 milhões de espectadores, pode ser o divisor de águas — ou apenas um clarão passageiro numa escuridão estrutural.

Em um país que se prepara para receber o mundo em 2027, o futebol feminino de clubes persiste numa invisibilidade quase silenciosa: das 167 partidas do Brasileiro feminino de 2026, 162 encerraram no vermelho, com estádios que mal distinguem jogadoras de espectadores. Há uma tensão reveladora entre o amor brasileiro pelos grandes eventos e a indiferença cotidiana pelo esporte que os alimenta. A Copa do Mundo pode iluminar esse abismo — ou apenas atravessá-lo sem tocá-lo.

Em menos de nove meses, o Brasil receberá 32 seleções para a Copa do Mundo feminina. A Fifa projeta mais de 2 milhões de torcedores ao longo do torneio — uma média superior a 31 mil por partida. O número sugere paixão, mas levanta uma pergunta incômoda: paixão por quê, exatamente? Todos conhecem Marta. Poucos saberiam dizer quem foi a artilheira do Brasileiro que terminou há pouco.

Uma análise dos boletins financeiros das 167 partidas da Série A feminina de 2026 revela um quadro desalentador. Cento e sessenta e dois jogos terminaram no vermelho. O prejuízo operacional total chegou a R$ 3,402 milhões. A média de público na fase classificatória, excluindo os jogos do Corinthians, foi de 358 torcedores. Um clássico como Flamengo x Fluminense reuniu 208 pessoas. Bahia x América-MG no Pituaçu atraiu 20 — menos que as jogadoras em campo.

Os estádios onde o futebol feminino acontece frequentemente carecem do básico: sem arquibancadas atrás dos gols, apenas muros e árvores. Em Santa Luzia, na Grande BH, a Frimisa manteve os portões fechados não por punição, mas para evitar os custos de abrir — segurança, limpeza, pessoal. Com público reduzido, a conta simplesmente não fecha.

Houve exceções. A final entre Corinthians e São Paulo encheu Itaquera e o Morumbi, este último com quase 50 mil torcedores. Foram momentos de celebração genuína — e justamente por isso, exceções. A CBF celebra o crescimento da audiência televisiva e argumenta que cabe aos clubes atrair o público. Mas quem já esteve numa arquibancada sabe que televisão e estádio são experiências irredutíveis uma à outra.

A Copa de 2027 pode ser um ponto de inflexão real — ou apenas um grande evento que passa sem transformar o cotidiano do esporte. Para quem quiser guardar um nome além de Marta até lá: Marília Furiel, do Cruzeiro, foi a artilheira do Brasileiro de 2026, com 11 gols em 18 partidas.

Em menos de nove meses, o Brasil receberá 32 seleções para a Copa do Mundo feminina de futebol. A Fifa projeta mais de 2 milhões de torcedores ao longo do torneio, o que resultaria em uma média superior a 31 mil pessoas por partida. Se essa previsão se confirmar, e considerando que a maioria será brasileira, ficará demonstrado que nos apaixonamos por grandes eventos, por aquilo que sai do ordinário. Há interesse especial pela seleção nacional, mesmo que a maioria dos torcedores não consiga nomear as jogadoras — todos conhecem Marta, é verdade, mas só ela. Poucos saberiam dizer quem foi a artilheira do Campeonato Brasileiro que terminou há pouco.

Não é desonra desconhecer esses nomes. No dia a dia, o futebol feminino dos clubes existe numa espécie de invisibilidade. Houve exceções notáveis: a final entre Corinthians e São Paulo encheu os estádios, com mais de 20 mil torcedores em Itaquera e quase 50 mil no Morumbi, criando uma atmosfera de celebração. Mas foram justamente exceções. Uma análise detalhada dos boletins financeiros de todas as 167 partidas da Série A feminina de 2026 revela um quadro desalentador: é um torneio deficitário e marcado por desinteresse massivo do público em comparecer aos estádios.

Os locais onde as jogadoras atuam frequentemente carecem de infraestrutura básica. Muitos não possuem arquibancadas atrás dos gols, apenas muros e árvores. A Frimisa, em Santa Luzia na Grande Belo Horizonte, onde o América mandou três partidas, exemplifica essa realidade: os portões permaneceram fechados não por punição, mas para reduzir custos operacionais com segurança, limpeza e pessoal. Abrir um estádio é caro, e com público reduzido, os times preferem não arcar com essas despesas.

Dos 167 jogos do Brasileiro, 162 terminaram no vermelho financeiro. Apenas os duelos da decisão e alguns poucos jogos da fase classificatória — dois do Corinthians no Parque São Jorge e o confronto entre Cruzeiro e Atlético-MG na Arena do Jacaré em Sete Lagoas — geraram receita. O prejuízo operacional total alcançou R$ 3,402 milhões. A média de público na fase classificatória, excluindo os jogos com mando do Corinthians, cuja torcida comparece em centenas, foi de apenas 358 pessoas. Um clássico como Flamengo x Fluminense reuniu 208 torcedores no estádio Luso-Brasileiro. Bahia x América-MG no Pituaçu atraiu 20 fãs — menos que as 22 jogadoras em campo.

A CBF repassa verba aos 18 times participantes, garantindo a cada um ao menos R$ 720 mil. A confederação celebrou o aumento na audiência televisiva a partir das quartas de final, argumentando que cabe aos clubes empreender ações para estimular o comparecimento. Mas qualquer pessoa que tenha estado num estádio sabe que a emoção de estar presente não se compara à experiência de assistir pela televisão. O futebol feminino de clubes segue desprestigiado, invisível no cotidiano, apesar da promessa de que a Copa do Mundo em 2027 possa ser um ponto de inflexão.

Para quem deseja guardar um nome além de Marta até a Copa: Marília Furiel, do Cruzeiro, foi a artilheira do Brasileiro de 2026, com 11 gols em 18 partidas.

Todos conhecem Marta, é verdade, mas só ela
— Análise do colunista sobre o desconhecimento das demais jogadoras
Abrir um estádio é caro
— Explicação para os portões fechados da Frimisa em Santa Luzia
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