Fundo de Florestas enfrenta incerteza com eleição um ano após anúncio de Lula

Um fundo que pode não sobreviver a uma mudança de governo
Especialista em políticas climáticas alerta para vulnerabilidade estrutural do Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
Mark

Por que um fundo anunciado há um ano com tanto destaque internacional está praticamente invisível na campanha presidencial?

Mimi

Porque ainda é muito identificado com Lula e sua gestão. Não tem estrutura institucional independente o suficiente para existir além de um governo específico.

Luke

Mas espera — o fundo foi criado pelo Brasil, certo? Não deveria ser uma política de Estado, não de um presidente?

Mimi

Deveria, mas não é. Ainda está muito ligado à atuação internacional do Lula dos últimos quatro anos.

Mark

E quanto aos números? US$ 7,3 bilhões de um alvo de US$ 10 bilhões até fim de ano — é possível alcançar?

Luke

Tecnicamente sim, mas há um problema: os anúncios de novos investimentos só devem sair na COP31 em novembro, quando já se saberá quem ganhou a eleição. Isso não é coincidência.

Mimi

O governo diz que é pela visibilidade do evento, mas a verdade é que nenhum país quer anunciar investimento num fundo que pode ser abandonado por um novo governo.

Mark

E se Bolsonaro vencer?

Luke

Ele não mencionou o fundo especificamente. Sua campanha fala de incentivos à preservação, mas não do Fundo Florestas Tropicais para Sempre.

Mimi

Exatamente. Isso é o silêncio que mata. Não é um não — é uma ausência.

Mark

Qual é o risco real aqui?

Mimi

Que o fundo não saia do papel. Que os US$ 7,3 bilhões já comprometidos virem um investimento congelado, esperando um governo que o retome.

Luke

E a Noruega, que é o segundo maior investidor — ela vai manter o aporte se o fundo não funcionar até o fim do ano?

Mimi

Provavelmente não. E aí o fundo realmente desidratar.

  • O fundo precisa arrecadar US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para começar a operar, mas acumula apenas US$ 7,3 bilhões — e o silêncio dos candidatos amplia o risco de colapso.
  • Nenhum dos principais adversários de Lula menciona o mecanismo em seus planos de governo, expondo uma vulnerabilidade estrutural: o fundo está mais ligado a um presidente do que a uma política de Estado.
  • O histórico de desmatamento sob governos de orientações opostas ilustra o que está em jogo — a Amazônia perdeu 13 mil km² em um único ano no governo Bolsonaro, contra 5.796 km² no período mais recente sob Lula.
  • Negociações com mais de dez países avançam nos bastidores, mas os anúncios foram adiados para a COP31 em novembro — quando o Brasil já terá escolhido seu próximo presidente.
  • Especialistas alertam que, sem governança independente, o fundo pode 'desidratar' em 2027 caso uma nova administração abandone o engajamento internacional construído nos últimos quatro anos.

No intervalo entre um anúncio histórico e uma eleição decisiva, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre — criado para canalizar bilhões globais à preservação das florestas — encontra-se suspenso entre a ambição e a fragilidade institucional. Lula o concebeu como legado; seus adversários o ignoram. A humanidade, que deposita nesse mecanismo uma esperança concreta de financiar a conservação planetária, aguarda outubro para saber se a ideia sobreviverá à política.

Há um ano, Lula anunciou na ONU que o Brasil investiria US$ 1 bilhão no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, tornando o país o primeiro aportador de um mecanismo desenhado para mobilizar até US$ 125 bilhões globais em favor da conservação florestal. A ideia era gerar rendimentos de 7% a 8% ao ano sobre uma carteira de renda fixa, repassando parte aos financiadores e outra parte a países que preservassem suas florestas — pagando US$ 4 por hectare conservado.

Um ano depois, o entusiasmo do anúncio contrasta com o silêncio da campanha eleitoral. Apenas Lula cita o fundo em seu plano de governo. Os demais candidatos, incluindo Flávio Bolsonaro, não se posicionam sobre o mecanismo — e a campanha do principal adversário não respondeu quando questionada diretamente. Para Taciana Stec, do Instituto Talanoa, o risco é concreto: o fundo ainda não tem governança robusta o suficiente para sobreviver a uma mudança de orientação ambiental no Planalto.

Os números reforçam a urgência. O fundo acumula US$ 7,3 bilhões em investimentos anunciados, mas precisa chegar a US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para começar a operar e manter o aporte da Noruega, seu segundo maior investidor. O Brasil comprometeu R$ 5 bilhões, valor que consta no orçamento de 2027 — mas ainda depende de aprovação no Congresso.

O contexto geopolítico também pesa. Lançado na COP28 em 2023, o fundo chegou num momento em que as prioridades globais se deslocavam para defesa militar. Negociações com Dinamarca, Bélgica, Japão, China e países do Golfo Pérsico estão em curso, mas os anúncios foram reservados para a COP31, em novembro na Turquia — quando o Brasil já terá eleito seu próximo presidente. O resultado de outubro pode definir se o Fundo Florestas Tropicais para Sempre se consolida como instituição ou se dissolve como mais um projeto ambiental que não sobreviveu à alternância de poder.

Há um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao pódio da Assembleia-Geral das Nações Unidas e anunciou que o Brasil investiria US$ 1 bilhão no Fundo Florestas Tropicais para Sempre — um mecanismo ambicioso criado pelo país para canalizar recursos globais para a preservação de florestas tropicais. Era setembro de 2025, e o Brasil se tornava o primeiro investidor daquele que seria o maior fundo de conservação do planeta. Um ano depois, porém, aquele anúncio parece estar em suspenso. Os candidatos que disputam a presidência neste ano mal mencionam o fundo em seus planos de governo. Apenas Lula o cita, listando-o como prioridade de sua ação externa caso vença um quarto mandato.

O silêncio dos demais candidatos revela uma vulnerabilidade estrutural. Taciana Stec, especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa, é direta: existe risco grande de o fundo não ter continuidade em caso de transição de governo. O mecanismo, explica, ainda não possui uma estrutura de governança robusta o suficiente para sobreviver a mudanças na orientação ambiental brasileira. O fundo permanece muito conectado ao governo Lula e à sua atuação internacional nos últimos quatro anos — um ativo político, não uma instituição independente.

Os números do fundo revelam a ambição do projeto. Ele pretende arrecadar US$ 25 bilhões em recursos públicos e US$ 100 bilhões de fontes variadas, incluindo investidores privados, totalizando US$ 125 bilhões. Esse capital seria aplicado em uma carteira de investimentos de renda fixa, gerando rendimentos de 7% a 8% ao ano. Os financiadores receberiam cerca de 4% desses rendimentos, enquanto países que preservarem florestas receberiam outros 4%. O fundo pagaria US$ 4 por hectare conservado, com reduções se houvesse desmatamento ou degradação por fogo.

O Brasil comprometeu-se a aportar R$ 5 bilhões, valor que consta no Projeto de Lei Orçamentária de 2027 apresentado ao Congresso Nacional. Mas essa verba ainda precisa ser aprovada pelos congressistas e será repassada por meio do Fundo Clima. Até agora, os investimentos anunciados somam apenas US$ 7,3 bilhões. O fundo precisa atingir US$ 10 bilhões até o final deste ano para começar a funcionar e manter o aporte da Noruega — seu segundo maior investidor. Se não alcançar essa meta, Stec avisa, o fundo corre grande risco de desidratar no próximo ano.

Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula nesta eleição, não se posiciona de forma clara sobre o mecanismo. Sua campanha afirma que ele é defensor do meio ambiente e de quem cuida da floresta em pé, e que seu plano de governo tem como meta criar mecanismos efetivos de incentivo econômico à preservação, ampliando o pagamento por serviços ambientais. Quando questionada especificamente sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, porém, a campanha não respondeu.

O contexto político é delicado. Durante o governo Jair Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia aumentou drasticamente, atingindo 13 mil quilômetros quadrados entre agosto de 2020 e julho de 2021 — o maior valor registrado desde 2006, segundo o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. No terceiro governo Lula, a destruição diminuiu significativamente. De agosto de 2024 a julho de 2025, foram desmatados 5.796 quilômetros quadrados, o terceiro menor patamar da série histórica que começou em 1988. Caso o desmatamento volte a subir nos próximos quatro anos, o Brasil se tornaria menos competitivo no fundo — e menos atrativo para novos investidores.

Um representante da gestão Lula, que pediu para não ser identificado, reconhece que uma eventual troca de governo pode levar a uma mudança no engajamento do país com o mecanismo. Apesar disso, afirma que levar o fundo adiante é uma responsabilidade mundial, não só do Brasil. Conversas estão em andamento sobre novos aportes com Dinamarca, Bélgica, Suécia, Suíça, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Japão e China, além de países do golfo Pérsico. Mas esses anúncios devem ocorrer apenas na COP31, a conferência do clima da ONU marcada para novembro na Turquia — quando o mundo já conhecerá o próximo presidente do Brasil. O representante afirma que a maior visibilidade do evento é a razão para o adiamento, não uma espera pelo desfecho da eleição de outubro.

O fundo enfrenta ainda um contexto geopolítico desfavorável. Apresentado na COP28 em novembro de 2023, antes da guerra entre os EUA e o Irã, o mecanismo chegou num momento em que as prioridades de investimento global se deslocaram para defesa militar. Se tivesse começado a funcionar mais cedo, quando os países tinham preocupações menos agudas com gastos em segurança, a situação poderia ser outra. O resultado das eleições de outubro pode determinar se o Fundo Florestas Tropicais para Sempre segue adiante ou se torna mais um projeto ambiental brasileiro que não sobreviveu a uma mudança de governo.

Existe um risco grande de o TFFF não ter continuidade em caso de uma transição de governo
— Taciana Stec, especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa
Se não alcançar a meta, o TFFF corre grande risco de desidratar no ano que vem
— Taciana Stec
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