No intervalo entre um anúncio histórico e uma eleição decisiva, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre — criado para canalizar bilhões globais à preservação das florestas — encontra-se suspenso entre a ambição e a fragilidade institucional. Lula o concebeu como legado; seus adversários o ignoram. A humanidade, que deposita nesse mecanismo uma esperança concreta de financiar a conservação planetária, aguarda outubro para saber se a ideia sobreviverá à política.
Fundo de Florestas enfrenta incerteza com eleição um ano após anúncio de Lula
Um fundo que pode não sobreviver a uma mudança de governo
Por que um fundo anunciado há um ano com tanto destaque internacional está praticamente invisível na campanha presidencial?
Porque ainda é muito identificado com Lula e sua gestão. Não tem estrutura institucional independente o suficiente para existir além de um governo específico.
Mas espera — o fundo foi criado pelo Brasil, certo? Não deveria ser uma política de Estado, não de um presidente?
Deveria, mas não é. Ainda está muito ligado à atuação internacional do Lula dos últimos quatro anos.
E quanto aos números? US$ 7,3 bilhões de um alvo de US$ 10 bilhões até fim de ano — é possível alcançar?
Tecnicamente sim, mas há um problema: os anúncios de novos investimentos só devem sair na COP31 em novembro, quando já se saberá quem ganhou a eleição. Isso não é coincidência.
O governo diz que é pela visibilidade do evento, mas a verdade é que nenhum país quer anunciar investimento num fundo que pode ser abandonado por um novo governo.
E se Bolsonaro vencer?
Ele não mencionou o fundo especificamente. Sua campanha fala de incentivos à preservação, mas não do Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
Exatamente. Isso é o silêncio que mata. Não é um não — é uma ausência.
Qual é o risco real aqui?
Que o fundo não saia do papel. Que os US$ 7,3 bilhões já comprometidos virem um investimento congelado, esperando um governo que o retome.
E a Noruega, que é o segundo maior investidor — ela vai manter o aporte se o fundo não funcionar até o fim do ano?
Provavelmente não. E aí o fundo realmente desidratar.
Der Puls
- O fundo precisa arrecadar US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para começar a operar, mas acumula apenas US$ 7,3 bilhões — e o silêncio dos candidatos amplia o risco de colapso.
- Nenhum dos principais adversários de Lula menciona o mecanismo em seus planos de governo, expondo uma vulnerabilidade estrutural: o fundo está mais ligado a um presidente do que a uma política de Estado.
- O histórico de desmatamento sob governos de orientações opostas ilustra o que está em jogo — a Amazônia perdeu 13 mil km² em um único ano no governo Bolsonaro, contra 5.796 km² no período mais recente sob Lula.
- Negociações com mais de dez países avançam nos bastidores, mas os anúncios foram adiados para a COP31 em novembro — quando o Brasil já terá escolhido seu próximo presidente.
- Especialistas alertam que, sem governança independente, o fundo pode 'desidratar' em 2027 caso uma nova administração abandone o engajamento internacional construído nos últimos quatro anos.
No intervalo entre um anúncio histórico e uma eleição decisiva, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre — criado para canalizar bilhões globais à preservação das florestas — encontra-se suspenso entre a ambição e a fragilidade institucional. Lula o concebeu como legado; seus adversários o ignoram. A humanidade, que deposita nesse mecanismo uma esperança concreta de financiar a conservação planetária, aguarda outubro para saber se a ideia sobreviverá à política.
Há um ano, Lula anunciou na ONU que o Brasil investiria US$ 1 bilhão no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, tornando o país o primeiro aportador de um mecanismo desenhado para mobilizar até US$ 125 bilhões globais em favor da conservação florestal. A ideia era gerar rendimentos de 7% a 8% ao ano sobre uma carteira de renda fixa, repassando parte aos financiadores e outra parte a países que preservassem suas florestas — pagando US$ 4 por hectare conservado.
Um ano depois, o entusiasmo do anúncio contrasta com o silêncio da campanha eleitoral. Apenas Lula cita o fundo em seu plano de governo. Os demais candidatos, incluindo Flávio Bolsonaro, não se posicionam sobre o mecanismo — e a campanha do principal adversário não respondeu quando questionada diretamente. Para Taciana Stec, do Instituto Talanoa, o risco é concreto: o fundo ainda não tem governança robusta o suficiente para sobreviver a uma mudança de orientação ambiental no Planalto.
Os números reforçam a urgência. O fundo acumula US$ 7,3 bilhões em investimentos anunciados, mas precisa chegar a US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para começar a operar e manter o aporte da Noruega, seu segundo maior investidor. O Brasil comprometeu R$ 5 bilhões, valor que consta no orçamento de 2027 — mas ainda depende de aprovação no Congresso.
O contexto geopolítico também pesa. Lançado na COP28 em 2023, o fundo chegou num momento em que as prioridades globais se deslocavam para defesa militar. Negociações com Dinamarca, Bélgica, Japão, China e países do Golfo Pérsico estão em curso, mas os anúncios foram reservados para a COP31, em novembro na Turquia — quando o Brasil já terá eleito seu próximo presidente. O resultado de outubro pode definir se o Fundo Florestas Tropicais para Sempre se consolida como instituição ou se dissolve como mais um projeto ambiental que não sobreviveu à alternância de poder.
Há um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao pódio da Assembleia-Geral das Nações Unidas e anunciou que o Brasil investiria US$ 1 bilhão no Fundo Florestas Tropicais para Sempre — um mecanismo ambicioso criado pelo país para canalizar recursos globais para a preservação de florestas tropicais. Era setembro de 2025, e o Brasil se tornava o primeiro investidor daquele que seria o maior fundo de conservação do planeta. Um ano depois, porém, aquele anúncio parece estar em suspenso. Os candidatos que disputam a presidência neste ano mal mencionam o fundo em seus planos de governo. Apenas Lula o cita, listando-o como prioridade de sua ação externa caso vença um quarto mandato.
O silêncio dos demais candidatos revela uma vulnerabilidade estrutural. Taciana Stec, especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa, é direta: existe risco grande de o fundo não ter continuidade em caso de transição de governo. O mecanismo, explica, ainda não possui uma estrutura de governança robusta o suficiente para sobreviver a mudanças na orientação ambiental brasileira. O fundo permanece muito conectado ao governo Lula e à sua atuação internacional nos últimos quatro anos — um ativo político, não uma instituição independente.
Os números do fundo revelam a ambição do projeto. Ele pretende arrecadar US$ 25 bilhões em recursos públicos e US$ 100 bilhões de fontes variadas, incluindo investidores privados, totalizando US$ 125 bilhões. Esse capital seria aplicado em uma carteira de investimentos de renda fixa, gerando rendimentos de 7% a 8% ao ano. Os financiadores receberiam cerca de 4% desses rendimentos, enquanto países que preservarem florestas receberiam outros 4%. O fundo pagaria US$ 4 por hectare conservado, com reduções se houvesse desmatamento ou degradação por fogo.
O Brasil comprometeu-se a aportar R$ 5 bilhões, valor que consta no Projeto de Lei Orçamentária de 2027 apresentado ao Congresso Nacional. Mas essa verba ainda precisa ser aprovada pelos congressistas e será repassada por meio do Fundo Clima. Até agora, os investimentos anunciados somam apenas US$ 7,3 bilhões. O fundo precisa atingir US$ 10 bilhões até o final deste ano para começar a funcionar e manter o aporte da Noruega — seu segundo maior investidor. Se não alcançar essa meta, Stec avisa, o fundo corre grande risco de desidratar no próximo ano.
Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula nesta eleição, não se posiciona de forma clara sobre o mecanismo. Sua campanha afirma que ele é defensor do meio ambiente e de quem cuida da floresta em pé, e que seu plano de governo tem como meta criar mecanismos efetivos de incentivo econômico à preservação, ampliando o pagamento por serviços ambientais. Quando questionada especificamente sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, porém, a campanha não respondeu.
O contexto político é delicado. Durante o governo Jair Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia aumentou drasticamente, atingindo 13 mil quilômetros quadrados entre agosto de 2020 e julho de 2021 — o maior valor registrado desde 2006, segundo o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. No terceiro governo Lula, a destruição diminuiu significativamente. De agosto de 2024 a julho de 2025, foram desmatados 5.796 quilômetros quadrados, o terceiro menor patamar da série histórica que começou em 1988. Caso o desmatamento volte a subir nos próximos quatro anos, o Brasil se tornaria menos competitivo no fundo — e menos atrativo para novos investidores.
Um representante da gestão Lula, que pediu para não ser identificado, reconhece que uma eventual troca de governo pode levar a uma mudança no engajamento do país com o mecanismo. Apesar disso, afirma que levar o fundo adiante é uma responsabilidade mundial, não só do Brasil. Conversas estão em andamento sobre novos aportes com Dinamarca, Bélgica, Suécia, Suíça, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Japão e China, além de países do golfo Pérsico. Mas esses anúncios devem ocorrer apenas na COP31, a conferência do clima da ONU marcada para novembro na Turquia — quando o mundo já conhecerá o próximo presidente do Brasil. O representante afirma que a maior visibilidade do evento é a razão para o adiamento, não uma espera pelo desfecho da eleição de outubro.
O fundo enfrenta ainda um contexto geopolítico desfavorável. Apresentado na COP28 em novembro de 2023, antes da guerra entre os EUA e o Irã, o mecanismo chegou num momento em que as prioridades de investimento global se deslocaram para defesa militar. Se tivesse começado a funcionar mais cedo, quando os países tinham preocupações menos agudas com gastos em segurança, a situação poderia ser outra. O resultado das eleições de outubro pode determinar se o Fundo Florestas Tropicais para Sempre segue adiante ou se torna mais um projeto ambiental brasileiro que não sobreviveu a uma mudança de governo.
Bemerkenswerte Zitate
Existe um risco grande de o TFFF não ter continuidade em caso de uma transição de governo— Taciana Stec, especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa
Se não alcançar a meta, o TFFF corre grande risco de desidratar no ano que vem— Taciana Stec