Fujimori e Sánchez disputam eleição acirrada no Peru com menos de 600 votos

Menos de 600 votos separam dois projetos de país radicalmente opostos
Com 98,2% das urnas apuradas, o Peru aguarda resultado que definirá seu nono presidente em dez anos.

No Peru, uma nação que conheceu nove presidentes em apenas uma década, menos de 600 votos separam dois projetos opostos de país: o de Keiko Fujimori, herdeira de uma direita marcada por controvérsias e promessas de mercado, e o de Roberto Sánchez, herdeiro de uma esquerda que ainda carrega as cicatrizes do governo Castillo. Com 98,2% das urnas apuradas, o silêncio entre os números revela algo maior do que uma disputa eleitoral — revela um povo dividido sobre sua própria identidade política. O resultado, quando vier, não encerrará o debate; apenas apontará, por ora, qual metade do Peru falou um pouco mais alto.

  • Menos de 600 votos separam os dois candidatos com quase toda a apuração concluída, mantendo o Peru em suspense sobre quem será seu próximo presidente.
  • A eleição carrega o peso de uma instabilidade crônica: o vencedor será o nono mandatário peruano em dez anos, num país onde o cargo de presidente parece cada vez mais frágil.
  • Fujimori representa a promessa de ordem econômica liberal e segurança dura ao estilo Bukele, enquanto Sánchez oferece nacionalização de recursos, indulto a Castillo e maior investimento social — duas visões irreconciliáveis de Estado.
  • Ambos os candidatos carregam heranças políticas pesadas: ela, filha de um presidente condenado por crimes contra direitos humanos; ele, herdeiro de um presidente deposto após tentativa de golpe.
  • O resultado final ainda pode ser alterado pelos votos restantes, e o país aguarda com a consciência de que a margem mínima tornará qualquer desfecho politicamente explosivo.

Com 98,2% das urnas apuradas, o Peru vive um suspense eleitoral raro: menos de 600 votos separam Keiko Fujimori e Roberto Sánchez na disputa pela presidência. O país aguarda a contagem final para conhecer seu nono presidente em dez anos — número que, por si só, diz muito sobre a instabilidade política peruana.

Keiko Fujimori, 51 anos, candidata de direita pelo Fuerza Popular, é filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, realizou um autogolpe em 1992 e foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Keiko foi primeira-dama durante parte desse período e, desde 2006, construiu carreira própria: eleita deputada com mais de 600 mil votos, tornou-se a parlamentar mais votada da história peruana. Esta é sua quarta tentativa à presidência — em 2011, 2016 e 2021 chegou ao segundo turno sem vencer. Sua plataforma promete isenção fiscal ao setor empresarial, reforma tributária e trabalhista, e uma política de segurança pública inspirada no modelo de Nayib Bukele em El Salvador. Sua trajetória, porém, inclui uma prisão em 2018, acusada de receber recursos do esquema Odebrecht.

Roberto Sánchez, 57 anos, psicólogo e deputado federal eleito em 2021, representa a esquerda pelo Juntos Por el Perú. Foi ministro do Comércio Exterior no governo de Pedro Castillo — presidente que sofreu impeachment e foi preso em 2022 após tentativa de golpe. Sánchez promete conceder indulto a Castillo, a quem considera preso político, além de nacionalizar recursos naturais, ampliar investimentos em educação pública e elevar salários de professores. Sua agenda redistributiva busca apoio nas camadas populares, em contraste direto com o apelo empresarial de Fujimori.

A eleição espelha uma polarização profunda. Quando o resultado for confirmado, ele não apenas definirá um nome — definirá se o Peru seguirá o caminho do mercado e da segurança dura, ou o da nacionalização e do investimento social. Em um país acostumado à ruptura, a margem mínima entre os dois candidatos sugere que nenhuma das metades aceitará facilmente a derrota.

Com 98,2% das urnas apuradas, o Peru vive um momento de suspense eleitoral raro: menos de 600 votos separam os dois candidatos à presidência. Keiko Fujimori segue à frente, mas a margem é tão estreita que o resultado permanece indefinido, e o país aguarda a contagem final dos votos para conhecer seu próximo presidente. Essa eleição acirrada escolherá o nono mandatário peruano em apenas dez anos — um número que por si só revela a instabilidade política que marca o país.

Keiko Fujimori, aos 51 anos, é candidata de direita e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru durante uma década, entre 1990 e 2000. Seu pai é figura controversa: realizou um autogolpe em 1992 e foi posteriormente condenado a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Alberto Fujimori foi extraditado ao Peru em 2007, após ser detido no Chile cinco anos antes, e permaneceu encarcerado até 2023, morrendo no ano seguinte. Keiko cresceu politicamente à sombra dessa herança: foi primeira-dama do país entre 1994 e 2000, após o divórcio dos pais.

Sua trajetória eleitoral começou em 2006, quando se elegeu deputada federal por Lima com mais de 600 mil votos, tornando-se a parlamentar mais votada na história peruana. Desde então, concorreu a presidente em todas as eleições presidenciais — 2011, 2016 e 2021 — sempre chegando ao segundo turno, mas nunca conseguindo vencer. Esta é sua quarta tentativa. Formada em administração de empresas, ela se filia ao partido Fuerza Popular e promete ao setor empresarial isenção de impostos e taxas, além de reforma tributária e trabalhista. Sua agenda de segurança pública segue modelo similar ao do presidente salvadorenho Nayib Bukele. Sua vida política, porém, foi marcada também por acusações: em 2018, foi presa acusada de receber dinheiro em esquema de corrupção envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht, permanecendo na prisão até novembro de 2019.

Roberto Sánchez, seu rival, tem 57 anos e representa a esquerda pelo partido Juntos Por el Perú. Ele é herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, que sofreu impeachment e foi preso em 2022 após tentativa de golpe de Estado. Formado em psicologia, Sánchez foi eleito deputado federal por Lima em 2021 e serviu como ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo Castillo, entre julho de 2021 e dezembro de 2022. Uma de suas principais promessas é conceder indulto a Castillo, a quem considera vítima de prisão política.

As propostas de Sánchez focam em combate à pobreza e nacionalização de recursos naturais peruanos. Ele promete aumentar investimento em educação pública, elevando o percentual do PIB destinado à área e melhorando salários de professores. Enquanto Fujimori apela ao establishment empresarial com promessas de desoneração fiscal, Sánchez busca apoio entre setores populares com agenda redistributiva e de controle estatal sobre recursos.

A eleição que se desenrola agora reflete a polarização crescente do Peru, um país que viu nove presidentes em dez anos. O resultado, quando finalmente definido, determinará não apenas quem governará, mas também qual direção política o país seguirá nos próximos anos — se mantendo o curso de políticas de mercado e segurança dura, ou se adotando agenda de nacionalização e investimento social.

Keiko promete isenção de impostos e reforma tributária ao setor empresarial, além de segurança pública similar à de El Salvador
— Plataforma de campanha de Keiko Fujimori
Sánchez defende nacionalização de recursos naturais, aumento de investimento em educação pública e melhoria de salários de professores
— Plataforma de campanha de Roberto Sánchez
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essa eleição é tão acirrada? O Peru não tem tradição de eleições competitivas?

Model

Tem, mas de forma caótica. O país viveu nove presidentes em dez anos. Não é que as eleições sejam sempre disputadas — é que nenhum presidente consegue governar de verdade. Há desconfiança profunda em ambos os lados.

Inventor

E Keiko Fujimori, sendo filha de um ex-presidente preso por crimes contra direitos humanos, como consegue liderar?

Model

Seu pai ainda tem base de apoio forte entre conservadores e empresários. Ela oferece estabilidade econômica e segurança dura. Para muitos, isso supera o legado negativo. Ela também nunca foi condenada pelos mesmos crimes.

Inventor

E Sánchez? Por que promete indultar Castillo se ele tentou um golpe?

Model

Para seus apoiadores, Castillo é vítima de um golpe jurídico, não perpetrador de um. A esquerda vê a prisão como perseguição política. Indultá-lo é resgatar aquele lado da história.

Inventor

Qual é o risco real dessa eleição ficar tão próxima?

Model

Quando o resultado é por 600 votos, a legitimidade do vencedor fica frágil. Qualquer um que perder pode contestar, alimentar desconfiança. O Peru já é instável — uma vitória por margem tão pequena pode aprofundar a polarização.

Inventor

Os dois representam visões completamente opostas?

Model

Completamente. Fujimori é mercado, segurança dura, isenção fiscal. Sánchez é nacionalização, educação pública, combate à pobreza. Não há meio termo entre eles.

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