Fraude de Paulo Figueiredo quebra hotel e causa prejuízo de R$ 400 mi a aposentados

Aposentados e servidores públicos de múltiplos estados perderam investimentos de fundos de pensão, com prejuízos estimados em R$ 400 milhões em valores atualizados.
Sem o prédio, a empresa perdeu seu único ativo relevante
Quando o fundo financiador tomou posse do imóvel dado como garantia, a LSH Barra ficou sem nada para oferecer aos credores.

Dez institutos de previdência estaduais e municipais, além do Serpros, investiram quase R$ 200 milhões em um hotel que nunca foi completado e agora está falido. A CVM condenou Paulo Figueiredo por fraude: valorização artificial de cotas, desvio de recursos via contratos fictícios e transferência indevida de R$ 400 milhões para sócios fundadores.

  • Dez institutos de previdência estaduais e municipais investiram quase R$ 200 milhões entre 2014 e 2016
  • Prejuízo estimado em R$ 400 milhões em valores atualizados
  • Paulo Figueiredo condenado pela CVM em dezembro de 2024 por fraude envolvendo valorização artificial de cotas
  • Hotel inaugurado em 2016 com apenas 75 dos 170 quartos previstos
  • Falência decretada pela Justiça do Rio em julho de 2026

A falência da LSH Barra, empreendimento hoteleiro na Barra da Tijuca, consolidou prejuízos de quase R$ 400 milhões para institutos de previdência e fundos de pensão. Paulo Figueiredo foi condenado pela CVM por operações fraudulentas envolvendo valorização artificial de cotas e desvio de recursos.

Um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que prometia luxo e a marca de Donald Trump, virou símbolo de um dos maiores golpes contra a previdência pública brasileira. A LSH Barra entrou em falência na semana passada, consolidando perdas de aproximadamente R$ 400 milhões — em valores atualizados — para dez institutos de previdência estaduais e municipais, além do fundo de pensão dos servidores do Serpra. O prejuízo começou entre 2014 e 2016, quando essas instituições investiram quase R$ 200 milhões em um empreendimento que nunca saiu do papel como prometido.

A Comissão de Valores Mobiliários condenou Paulo Figueiredo, ex-CEO da empresa e figura próxima ao bolsonarismo, por orquestrar uma operação fraudulenta sofisticada. Segundo a decisão unânime do colegiado em dezembro de 2024, Figueiredo e seus sócios — Arthur Soares, conhecido como Rei Arthur, e Ricardo Rodrigues, chamado Ricardo Gordo — estruturaram o negócio para enriquecer às custas dos investidores institucionais. O mecanismo era simples em sua engenhosidade: inflar artificialmente o valor das cotas do fundo de investimento, depois desviar sistematicamente recursos da empresa para suas próprias mãos através de contratos com prestadores de serviços fictícios. As empresas Polaris e Great Wall, das quais Figueiredo era sócio, funcionavam como canais para esvaziar o caixa.

Os números revelam a escala da transferência de riqueza. Tocantins investiu R$ 35 milhões. Campinas, R$ 15 milhões. Campos dos Goytacazes, R$ 40 milhões. O Serpros, fundo de pensão dos servidores públicos federais, aportou R$ 56 milhões. Tudo baseado em laudos de avaliação que não refletiam a realidade econômica do projeto. Com as cotas artificialmente valorizadas, Figueiredo e Rodrigues conseguiram vender suas participações por valores muito acima do que o empreendimento realmente valia. Os compradores — majoritariamente fundos de previdência — não tinham conhecimento da fragilidade financeira que lastreava seus investimentos.

O hotel foi inaugurado em 2016, mas incompleto. Dos 170 quartos planejados, apenas 75 foram entregues. A marca Trump, que havia sido usada para atrair investidores, foi retirada após o operador reconhecer que o imóvel não atendia aos padrões de luxo anunciados. Em 2019, a LSH Barra entrou em recuperação judicial. No ano passado, a assembleia de credores aprovou um plano de reestruturação — com o voto favorável do próprio Paulo Figueiredo, que se habilitou como credor por uma dívida trabalhista. Mas outros credores contestaram judicialmente sua participação, argumentando que alguém condenado pela CVM por lesar a própria empresa não deveria votar em seu plano de recuperação. A Justiça acolheu a impugnação. Sem o voto de Figueiredo, a classe trabalhista rejeitou o plano, levando à sua derrubada.

O golpe final veio quando o Fundo Polo, que havia financiado o empreendimento, obteve o direito de tomar posse do imóvel dado como garantia. Sem o prédio — seu único ativo relevante — a LSH Barra não tinha mais nada a oferecer. O Ministério Público reconheceu que a companhia não tinha condições de se reerguer. A Justiça do Rio de Janeiro decretou a falência definitiva. Os cotistas do fundo de investimento, em sua maioria institutos de previdência que administram recursos de aposentados e servidores públicos, ficaram sem perspectiva de recuperação.

A CVM multou Figueiredo em R$ 81 milhões — R$ 54 milhões pelos desvios de recursos via contratos fictícios e R$ 27 milhões pela sobrevalorização dos ativos. Ricardo Rodrigues recebeu multa de R$ 53 milhões. As penalidades administrativas permaneceram, mas a trajetória criminal de Figueiredo seguiu outro caminho. Em 2022, a 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região trancou o processo criminal contra ele, argumentando que a denúncia do Ministério Público Federal era imprecisa e não detalhava atos criminosos específicos. A defesa alegou que Ricardo Rodrigues, colaborador da Justiça, havia afirmado em depoimento que Figueiredo não participava das negociações nem do pagamento de propinas. Com isso, a ação penal foi encerrada naquela instância.

Figueiredo vive atualmente nos Estados Unidos, onde mantém atuação política em parceria com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ricardo Rodrigues voltou ao noticiário recentemente ao ser alvo de uma operação da Polícia Federal por suspeita de atuar como intermediário em aportes da Rioprevidência no Banco Master. Para os regimes previdenciários atingidos — que administram recursos de aposentados e servidores públicos de múltiplos estados — o caso representa uma perda que começou com a compra de cotas avaliadas artificialmente e termina com papéis de uma companhia quebrada e sem patrimônio para distribuir.

A CVM apontou que investidores institucionais foram levados a adquirir cotas com base em avaliações infladas e premissas falsas sobre o valor real do projeto
— Comissão de Valores Mobiliários
O tribunal considerou que a denúncia apresentada pelo MPF era inepta por não detalhar atos criminosos específicos atribuídos a Figueiredo
— 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como uma fraude dessa magnitude conseguiu passar despercebida por tanto tempo?

Model

Porque foi estruturada para parecer legítima. Laudos de avaliação, contratos com empresas reais, um hotel de verdade sendo construído. Os investidores institucionais confiavam nas avaliações técnicas. Ninguém esperava que o próprio CEO estivesse canalizando recursos para empresas de fachada que ele controlava.

Inventor

E por que a marca Trump foi importante nessa história?

Model

Era o chamariz. Um hotel Trump na Barra da Tijuca, no Rio, durante o auge da popularidade de Trump no Brasil — isso atraía investidores e justificava as avaliações altas. Quando o operador percebeu que o imóvel não atendia aos padrões de luxo, a marca foi retirada. Mas o dano já estava feito.

Inventor

O que significa que Figueiredo tentou votar em seu próprio plano de recuperação?

Model

Significa que ele se habilitou como credor por uma dívida trabalhista e tentou participar da votação sobre como a empresa se reestruturaria. É absurdo: o homem condenado por lesar a empresa tentava influenciar sua própria recuperação. Os credores contestaram, a Justiça concordou, e sem seu voto o plano foi rejeitado.

Inventor

Então ele foi punido criminalmente?

Model

Não. A CVM o condenou administrativamente — multas pesadas, reconhecimento público de fraude. Mas o processo criminal foi trancado em 2022 porque o tribunal considerou a denúncia imprecisa. Ele vive nos EUA agora, fora do alcance imediato da Justiça brasileira.

Inventor

E os aposentados que perderam esse dinheiro?

Model

Perderam tudo. Eram recursos de fundos de pensão de servidores públicos e aposentados de vários estados. Tocantins, Campinas, Campos dos Goytacazes, servidores do Serpra. Quando a empresa faliu sem patrimônio, não havia nada a recuperar. O dinheiro simplesmente desapareceu.

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