Flávio promete eliminar split payment, mas enfrenta obstáculos legislativos

O split payment transfere às empresas um ônus que deveria recair sobre o Estado
Advogada tributarista explica por que a retenção automática de impostos prejudica pequenos negócios.
Mark

Por que o split payment é tão problemático para as empresas? Parece uma forma de garantir que os impostos sejam pagos.

Mimi

O problema é o timing. Quando você retira o imposto automaticamente no momento da venda, você tira do caixa da empresa recursos que ela precisaria para pagar fornecedores, folha de pagamento, estoques. É como se o governo cobrasse antecipadamente, sem dar à empresa o intervalo que ela sempre teve para gerenciar esse dinheiro.

Luke

Mas o governo já tem ferramentas de fiscalização. Por que não usar a Nota Fiscal Eletrônica e o SPED para cobrar depois, como sempre fez?

Mimi

Exatamente. Os advogados tributaristas apontam que o Estado já tem essas ferramentas. O split payment transfere para a empresa o custo de um problema que deveria ser responsabilidade da administração tributária.

Mark

E quanto à promessa de Bolsonaro de eliminar isso? É viável?

Mimi

Tecnicamente sim, mas há um obstáculo grande. O split payment foi estabelecido por emenda constitucional, então eliminá-lo provavelmente exigiria uma nova PEC, não apenas uma lei complementar.

Luke

Espera — alguns especialistas dizem que bastaria uma lei complementar, certo? Então há discordância entre os próprios advogados sobre o caminho legislativo.

Mimi

Verdade. Peralta diz que bastaria lei complementar, Garcia diz que precisa de PEC. Isso importa porque uma PEC é muito mais difícil de aprovar no Congresso.

Mark

Qual é o contexto econômico que torna essa promessa tão relevante agora?

Mimi

As empresas estão sob pressão extrema. Juros em alta, inadimplência crescente, 9,2 milhões de CNPJs negativados em julho, 6.341 empresas em recuperação judicial. O split payment chegaria em um momento em que as empresas já estão asfixiadas.

Luke

Mas vale notar que o próprio governo está adiando a implementação do split payment. Ele era para começar em janeiro de 2027, agora é gradual até 2033. Isso sugere que nem o governo está confiante de que o sistema funciona.

Mimi

Exatamente. O adiamento evidencia a complexidade operacional. Se fosse simples, já estaria rodando.

Mark

Então a promessa de Bolsonaro é uma resposta a um problema real, mas sua execução é incerta.

Mimi

Sim. O problema é real, a promessa é política, e o Congresso é o árbitro.

  • Milhões de empresas brasileiras enfrentam uma crise aguda de caixa: em julho, 9,2 milhões de CNPJs estavam negativados e a inadimplência entre pequenas e médias empresas atingiu o maior nível desde 2018.
  • O split payment agrava esse cenário ao retirar automaticamente os tributos do caixa das empresas no momento do pagamento, eliminando o fôlego financeiro que antes existia até o vencimento fiscal.
  • A equipe econômica de Flávio Bolsonaro anunciou a extinção do mecanismo como bandeira de campanha, com apoio de tributaristas que reconhecem o ônus real imposto às empresas em um ambiente de crédito caro.
  • O caminho legislativo, porém, é tortuoso: como o split payment foi criado por emenda constitucional, sua supressão exigiria aprovação de uma nova PEC no Congresso, tornando a promessa dependente de negociações políticas incertas.
  • O próprio cronograma de implementação do sistema — com testes iniciando em outubro e adoção plena adiada para 2033 — já evidencia a complexidade operacional que alimenta o debate sobre sua viabilidade.

Em meio a uma crise de liquidez que corrói o tecido empresarial brasileiro, a campanha de Flávio Bolsonaro prometeu eliminar o split payment — mecanismo da reforma tributária que retém impostos automaticamente no ato do pagamento, suprimindo o intervalo em que o dinheiro financiava o dia a dia dos negócios. A promessa ressoa entre pequenos empresários sufocados por juros elevados e inadimplência crescente, mas esbarra em uma realidade legislativa dura: o mecanismo foi instituído por emenda constitucional, e desfazê-lo exigiria uma nova PEC, não apenas a vontade do governo. Assim, o que se apresenta como solução imediata revela, em seu interior, a lentidão estrutural da política tributária brasileira.

A equipe econômica de Flávio Bolsonaro anunciou na terça-feira a promessa de extinguir o split payment, mecanismo da reforma tributária que retém tributos automaticamente no instante em que uma transação é paga. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, argumentou que o sistema sufoca o capital de giro de pequenos negócios ao remover do caixa recursos que, até então, permaneciam disponíveis até o vencimento fiscal.

Advogados tributaristas reconhecem o problema. Cintia Ladoani Bertolo, do Bergamini Advogados, aponta que a retenção automática transfere às empresas um ônus que deveria caber à administração tributária — que já dispõe de ferramentas como a Nota Fiscal Eletrônica e o SPED. Felipe Peralta, do Miguel Neto Advogados, concorda que revogar o mecanismo seria positivo, sobretudo num momento em que os juros para empresas atingiram em agosto o maior nível para o mês desde 2017.

O obstáculo, porém, é legislativo. Luís Garcia, do Tax Group, explica que o split payment foi estabelecido por emenda constitucional: eliminá-lo ou alterá-lo em sua essência exigiria uma nova PEC, não apenas uma lei complementar. Essa distinção determina o grau real de dificuldade política da promessa.

A complexidade do sistema já se revela no próprio cronograma: os primeiros testes começam em 15 de outubro em ambiente controlado, o uso será facultativo em 2027, a obrigatoriedade entre empresas foi adiada para 2028, e a implementação plena ocorrerá por etapas até 2033.

O contexto empresarial torna a promessa politicamente poderosa. Em julho, 9,2 milhões de CNPJs estavam negativados — 8,7 milhões deles de micro e pequenas empresas —, com cerca de R$ 206 bilhões em dívidas. A inadimplência empresarial chegou a 4,3% em agosto, e 6.341 empresas estavam em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre. O Ministério da Fazenda defende o mecanismo como instrumento anticorrupção, mas a retenção automática de tributos, num cenário de crédito caro e liquidez escassa, toca em uma ferida real — cuja cura, no entanto, ainda depende de negociações legislativas que estão por vir.

A equipe econômica de Flávio Bolsonaro anunciou na terça-feira uma promessa que ressoa entre os empresários brasileiros: eliminar o split payment, o mecanismo da reforma tributária que retém impostos automaticamente no instante em que uma operação é paga. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, apresentou o compromisso em entrevista, argumentando que esse sistema de cobrança instantânea sufoca o capital de giro de pequenos negócios ao remover do caixa recursos que, até agora, permaneciam disponíveis até o momento do recolhimento fiscal.

O diagnóstico não é apenas político. Advogados tributaristas reconhecem o problema real. Cintia Ladoani Bertolo, sócia do Bergamini Advogados, aponta que a retenção automática transfere às empresas um ônus que deveria recair sobre a administração tributária — afinal, o Estado já dispõe de ferramentas de fiscalização como a Nota Fiscal Eletrônica, o SPED e o cruzamento de dados. Felipe Peralta, consultor tributário do Miguel Neto Advogados, concorda que revogar o split payment seria positivo, especialmente em um momento em que os juros para financiamento empresarial atingem patamares elevados. A pressão sobre o caixa das empresas chega em um cenário de dificuldade financeira generalizada: em agosto, os juros do crédito livre para empresas alcançaram o maior nível para o mês desde 2017, segundo o Banco Central.

Mas a promessa de Bolsonaro enfrenta obstáculos legislativos concretos. Luís Garcia, advogado tributarista do Tax Group, explica que embora a extinção do mecanismo seja juridicamente viável, ela não depende apenas de uma decisão do governo. O split payment foi estabelecido por emenda constitucional, o que significa que suprimi-lo ou alterá-lo em sua essência exigiria aprovar uma nova PEC — não bastaria uma lei complementar, como alguns especialistas sugerem. Essa diferença não é meramente técnica: ela determina o grau de dificuldade política para implementar a mudança.

A complexidade operacional do sistema já é evidente no próprio cronograma de implementação. A Receita Federal iniciará os primeiros testes em 15 de outubro, em ambiente controlado, sem transações reais. A previsão original de aplicação ampla a partir de janeiro de 2027 foi abandonada em favor de uma adoção gradual: o uso será facultativo ao longo de 2027, a obrigatoriedade entre empresas (B2B) foi adiada para 2028, e a implementação nas demais operações de consumo ocorrerá por etapas até 2033. Para Garcia, esse recuo evidencia que o sistema é operacionalmente oneroso e complexo — justamente o que motiva a busca por sua eliminação.

O timing da promessa não é casual. As empresas brasileiras enfrentam uma crise de liquidez e endividamento. Em julho, a Serasa registrou 9,2 milhões de CNPJs negativados, dos quais 8,7 milhões eram de micro e pequenas empresas, com aproximadamente R$ 206 bilhões em dívidas. A inadimplência empresarial chegou a 4,3% da carteira em agosto, alta de 0,5 ponto percentual em 12 meses. Entre micro, pequenas e médias empresas, os atrasos superiores a 90 dias alcançaram 5,9% da carteira em julho, o maior nível desde março de 2018. A consultoria RGF Associados contabilizou 6.341 empresas em recuperação judicial no fim do primeiro semestre — equivalente a 2,3 por mil empresas ativas. Na Bolsa, 24 companhias listadas estavam em recuperação judicial e oito em recuperação extrajudicial, o maior número desde o início da série em 2023.

O Ministério da Fazenda defende o split payment como instrumento para combater fraudes e reduzir a concorrência desleal. Mas a retenção automática de tributos, ao remover recursos do caixa antes do vencimento fiscal, reduz a liquidez em um momento em que o crédito está caro e as dificuldades financeiras do setor privado são agudas. A promessa de Bolsonaro toca em uma ferida real — mas sua execução dependerá de negociações legislativas que ainda estão por vir.

Ao retirar automaticamente do caixa valores que hoje permanecem disponíveis até o momento do recolhimento, o split payment acabaria por transferir às empresas parte do custo de um problema que cabe à administração tributária combater
— Cintia Ladoani Bertolo, advogada tributarista
O recuo e o adiamento da obrigatoriedade evidenciam que o sistema é operacionalmente oneroso e complexo, o que justifica a busca por sua eliminação para não sobrecarregar as empresas
— Luís Garcia, advogado tributarista
Quieres la nota completa? Lee el original en Gazeta do Povo ↗
Contáctanos FAQ