No feriado de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, os dois candidatos à presidência escolheram igrejas como palco — não por devoção espontânea, mas como resposta calculada a uma polêmica que colocou a fé no centro da disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro, evangélico, foi a uma catedral católica; Lula celebrou na capela de sua residência oficial; Alckmin esteve na própria Basílica de Aparecida. É um momento antigo na história das democracias: o sagrado convocado para legitimar o político, e o político obrigado a curvar-se diante do sagrado.
Flávio e Lula fazem acenos a católicos em homenagens a Nossa Senhora
Somos todos cristãos, mas cada um segue a religião que escolhe
Por que Nossa Senhora Aparecida se tornou tão importante nesta eleição? Parece estranho que uma santa esteja no centro de uma disputa política.
Começou com uma promessa que Flávio fez: decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Isso abriu espaço para um boato de que ele queria tirar Nossa Senhora como padroeira. O boato se espalhou entre católicos, e de repente a campanha estava discutindo religião de um jeito que ninguém esperava.
Mas o projeto para remover Nossa Senhora existiu mesmo? Ou é só o boato?
Existiu, mas em 2007, apresentado por um deputado que depois trabalhou com Bolsonaro. Foi arquivado no ano seguinte. Então há um fato real por trás, mas desconectado de Flávio.
E agora, no segundo turno, ambos estão em igrejas no mesmo dia. Isso é coincidência ou estratégia?
É estratégia clara. Flávio precisa reconquistar católicos. Lula precisa mostrar que respeita a liberdade religiosa. Cada um mandando uma mensagem diferente para o mesmo público.
Mas há algo que não fica claro: quanto dessa polêmica realmente afetou o voto católico no primeiro turno? Os números mostram isso?
A reportagem não traz números de pesquisa sobre o impacto. Sabemos que a história circulou e ganhou força, mas não sabemos exatamente quanto custou a Flávio em votos.
E quanto ao uso de igrejas para campanha? Isso é legal?
Não existe uma classificação formal de "abuso de poder religioso" no código eleitoral, mas a Justiça Eleitoral tem usado esse conceito para moderar a influência de líderes religiosos. Flávio esteve em um culto evangélico no sábado onde havia pedidos velados de voto, e na catedral católica no dia seguinte. A linha entre respeito religioso e abuso de poder é tênue aqui.
Então ninguém vai ser punido?
A reportagem não diz. Apenas aponta que a prática existe e que a Justiça tem ferramentas para intervir, mas não sabemos se vai.
Le Pouls
- Uma promessa de Flávio de 'decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo' abriu brecha para um boato falso — e devastador — de que ele pretendia destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do país.
- A desinformação ganhou força entre eleitores católicos e transformou a santa mais venerada do Brasil em munição política às vésperas do segundo turno.
- Flávio respondeu com presença física: foi a uma missa católica dois dias depois de cantar hinos em um culto evangélico, percorrendo dois universos religiosos em um único fim de semana.
- Lula usou a celebração no Palácio da Alvorada para atacar indiretamente o adversário, afirmando que a missa homenageava a santa 'sobretudo num instante em que ela é ofendida por alguns religiosos'.
- O segundo turno começa com ambos os candidatos disputando o mesmo eleitorado católico com a mesma santa — mas com mensagens e histórias completamente distintas.
No feriado de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, os dois candidatos à presidência escolheram igrejas como palco — não por devoção espontânea, mas como resposta calculada a uma polêmica que colocou a fé no centro da disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro, evangélico, foi a uma catedral católica; Lula celebrou na capela de sua residência oficial; Alckmin esteve na própria Basílica de Aparecida. É um momento antigo na história das democracias: o sagrado convocado para legitimar o político, e o político obrigado a curvar-se diante do sagrado.
No feriado de Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro participou de missa na Catedral de Brasília, Lula celebrou na capela do Palácio da Alvorada e Alckmin esteve na Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo. Três movimentos, três cidades, uma única mensagem: respeito à fé católica. Mas nenhum deles era gesto desinteressado.
Semanas antes, Flávio havia prometido 'decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo', abrindo espaço para um boato que se espalharia rapidamente: o de que ele planejava remover Nossa Senhora do posto de padroeira do Brasil. Ele negou em vídeo, chamando a história de 'grande mentira'. Um projeto com esse teor havia de fato existido — apresentado em 2007 por um deputado que depois trabalhou no governo Bolsonaro —, mas foi arquivado. Ainda assim, a história se tornou munição política entre os dois candidatos.
Na missa de segunda-feira, Flávio chegou acompanhado da mulher, do vice e de parlamentares aliados. O padre saudou cada um nominalmente e chamou o senador de 'querido'. Flávio rezou o Pai-Nosso, mas não o Credo, e usou o celular para fazer uma oferta via QR code. Ao sair, disse que respeita a fé de milhões de brasileiros. 'Somos todos cristãos', afirmou. Dois dias antes, havia estado em um culto da Assembleia de Deus no Rio, onde o público gritou 'é 22' e ele cantou o 'Hino da Vitória'.
Lula, acompanhado da primeira-dama Janja e de aliados políticos, aproveitou a ocasião para falar em liberdade religiosa — e para alfinetar o adversário, afirmando que a missa homenageava a santa 'sobretudo num instante em que ela é ofendida por alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros'. Em Aparecida, Alckmin visitou a Basílica com a mulher e aliados, recusou-se a entrar na polêmica e defendeu o Brasil como 'país de paz'.
O que estava em jogo era ao mesmo tempo simples e complexo: Flávio, evangélico, precisava recuperar credibilidade junto aos católicos; Lula, não particularmente religioso, precisava demonstrar que sua gestão não hostilizaria nenhuma crença. Ambos usaram o mesmo dia e a mesma santa para enviar mensagens diferentes a públicos que se sobrepõem. O segundo turno havia apenas começado.
Na segunda-feira que marcava o feriado de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, dois candidatos à presidência fizeram questão de estar em igrejas. O senador Flávio Bolsonaro, evangélico, participou de missa na Catedral de Brasília. O presidente Lula esteve em celebração na capela do Palácio da Alvorada, sua residência oficial. O vice-presidente Geraldo Alckmin compareceu à missa solene na própria Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo. Os três movimentos aconteciam no mesmo dia, em cidades diferentes, com a mesma mensagem: respeito à fé católica.
Essas presenças não eram gestos despretensiosos. Semanas antes, uma polêmica havia envolvido a campanha eleitoral no primeiro turno e colocado Nossa Senhora no centro de uma disputa política. Flávio havia prometido que um de seus primeiros atos, se eleito, seria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A declaração abriu espaço para a circulação de uma notícia falsa: a de que Flávio tinha um projeto para destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Ele negou veementemente em vídeo publicado em suas redes sociais, chamando a história de "grande mentira". O fato é que um projeto assim havia existido, apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli, que depois trabalhou como assessor especial da Presidência no governo de Jair Bolsonaro, mas foi arquivado no ano seguinte. A história ganhou força entre eleitores católicos e se tornou munição política entre os dois candidatos.
Na missa de segunda-feira, Flávio chegou acompanhado da mulher Fernanda, do vice Alfredo Gaspar, da conselheira econômica Daniella Marques e de parlamentares como Bia Kicis, Izalci Lucas e Simone Marquetto, que entrou com a imagem de Nossa Senhora no local. O padre Agenor Vieira saudou nominalmente cada um deles durante a homilia, qualificando Flávio como "querido" e afirmando que o senador e candidato à Presidência era bem-vindo na igreja. Flávio rezou o Pai-Nosso, mas não o Credo. No momento da oferenda, apontou o celular para um código QR para fazer um pagamento. Ele não foi vaiado nem aplaudido pelos presentes. Ao sair, disse que o ambiente foi acolhedor e que respeita a fé de milhões de brasileiros. "Somos todos cristãos", afirmou, completando que o futuro da nação está nas mãos de Deus.
Lula, por sua vez, acompanhado da primeira-dama Janja e de aliados como o governador do Piauí Rafael Fontelles e o senador Camilo Santana, usou a ocasião para falar sobre respeito à liberdade religiosa. Afirmou que a missa homenageava a santa "sobretudo num instante em que a Nossa Senhora Aparecida é ofendida por alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros". Para o presidente, o gesto servia para demonstrar que em um país civilizado, harmônico e democrático, cada um segue a religião que escolhe e todos devem respeitar essa escolha.
Em Aparecida, Alckmin visitou a Basílica acompanhado da mulher Lu, do ministro da Saúde Alexandre Padilha, da deputada federal reeleita Tabata Amaral e do marido dela, João Campos, que havia sido candidato derrotado ao Governo de Pernambuco. Também estava presente Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno. Após a missa, Alckmin visitou uma carreta da Saúde da Mulher do SUS no estacionamento da Basílica. Quando questionado sobre o envolvimento de Nossa Senhora na polêmica eleitoral, recusou-se a entrar no debate, limitando-se a defender a liberdade religiosa e afirmar que o Brasil é um país de paz.
Os movimentos de Flávio revelam uma estratégia mais complexa. No sábado anterior, ele havia estado em um culto da Assembleia de Deus Ministério Madureira, no Rio de Janeiro, onde o bispo Samuel Ferreira fez pedidos velados de voto, o público gritou "é 22" e Flávio foi chamado de futuro presidente. Naquele ambiente evangélico, cantou a música "Hino da Vitória". Dois dias depois, estava em uma catedral católica. A presença em ambos os espaços religiosos levanta questões sobre o uso da estrutura e da autoridade das igrejas na campanha. Embora a classificação de "abuso de poder religioso" não exista formalmente no código eleitoral, a Justiça Eleitoral tem usado esse conceito para moderar a influência de líderes religiosos sobre seus fiéis.
O que estava em jogo naquele feriado era simples e complexo ao mesmo tempo: dois candidatos disputando o voto de católicos que representam parcela significativa do eleitorado brasileiro, cada um tentando demonstrar que respeita a fé alheia enquanto cultiva a própria base. Flávio, evangélico, precisava limpar sua imagem junto aos católicos. Lula, que não é particularmente religioso, precisava reafirmar que sua administração não hostilizaria nenhuma crença. Ambos usaram o mesmo dia, a mesma santa, para enviar mensagens diferentes a públicos que se sobrepõem. O segundo turno eleitoral estava apenas começando.
Citations marquantes
Estou muito feliz que o Dia de Nossa Senhora Aparecida é o dia em que eu estou novamente autorizado a visitar o meu pai, vítima de uma injustiça— Flávio Bolsonaro, após missa na Catedral de Brasília
Nesse país civilizado, democrático e harmônico, cada um segue a religião que quer e todos temos que respeitar— Lula, sobre o significado da missa no Alvorada